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Me recuso a escutar o preconceito

Eu sou deficiente auditivo. E como deficiente, não quero cotas, quero ser tratado normalmente, ter os mesmos direitos.

1 de junho de 2015

Eu sou deficiente auditivo. E como deficiente, não quero cotas, quero ser tratado normalmente, ter os mesmos direitos. Não quero me calar diante do preconceito. Minha motivação é minha família, que sabe o quanto sofro, é minha namorada, que sofre junto comigo, mas que não me deixa ficar caído. Estes são alguns dos trechos do e-mail enviado por Everton.
Cinco dias depois, 27 de abril, Everton nos recebeu em sua casa. Uma data mais do que especial para que ele expusesse seus anseios e ideologias: seu aniversário. Um pouco tímido, com um sorriso envergonhado no rosto, explicou que sua deficiência auditiva foi identificada na Escola Amadeu da Luz, quando ele estava na primeira série. Minha professora percebeu que eu estava com certo atraso no aprendizado e que minha audição era diferente dos outros alunos. Para minha mãe foi um grande susto. Em casa eu era uma criança como outra qualquer, brincava mais que falava. Foi quando me levou a um médico, explica.
Após uma série de exames e algumas cirurgias, foi confirmado que Everton tinha 100% da audição do ouvido direito comprometido e que necessitaria de aparelho auditivo para escutar do lado esquerdo. Para mim não foi sofrido ou algo parecido. Era normal. Nasci assim. Até a oitava série não senti preconceito algum por parte dos meus colegas. Pelo contrário, me tratavam de maneira especial e eu era o centro das atenções. Todos ficavam preocupados com qualquer dificuldade que eu pudesse enfrentar, revela.
O que antes era uma situação tranquila para Everton, com seu crescimento foi se tornando complicado, de enfrentar. Não queria mais ser tratado de maneira distinta que meus amigos. E assim comecei a me sentir incomodado quando as pessoas ficavam olhando para o meu aparelho auditivo e acabavam fazendo sempre as mesmas perguntas. Lembro que quando minha turma começou a sair, ir para algumas festas e que eu era apresentado para alguém, principalmente para alguma menina, sempre tinha aquele clima estranho no ar, comenta.
Mas por mais triste que Everton pudesse ficar, os seus amigos estavam ao seu lado. Da mesma forma, sua família. Meus melhores amigos são os mesmos que estudavam comigo desde pequeno. Eles sempre me aceitaram numa boa. Mas tudo acabou ficando mais complicado quando tivemos que nos separar para cursar o segundo grau. As pessoas não me conheciam e tinha que sempre explicar minha história. Uns se aproximavam, outros se afastavam.

Um novo desafio – Everton cresceu e como todos os outros jovens, se deparou com a escolha de uma profissão. Optou por cursar Engenharia, prestou vestibular, efetuou a matrícula e, após um ano, percebeu que estava na área errada. Foi nesta época que comecei a procurar emprego. Fui chamado para umas cinco entrevistas, mas nenhuma delas para minha área. As pessoas recebiam meu currículo, gostavam, agendavam a entrevista e quando eu chegava lá, percebiam que eu usava aparelho auditivo. Dava para ver o desânimo no rosto e no semblante de quem quer esconder o preconceito, mas não consegue.
Indo em busca do seu sonho, Everton prestou vestibular para Administração. Realmente nasci para esta área, estou no segundo semestre e a cada dia mais apaixonado pelo meu curso. Quero me especializar em Administração Hospitalar. Já que não tenho o dom para a medicina, quero, ao menos, administrar uma entidade que contribui para a saúde de Sociedade. Penso também, futuramente, buscar especialização no exterior, quem sabe na Itália, revela seu sonho.
Mesmo trocando de área, Everton seguiu fazendo entrevistas de emprego e participando de processos seletivos. Quando me perguntavam da minha deficiência, já ficava um pouco desconcertado e com receio que novamente eu não seria contratado. Muitos diziam que eu não tinha o perfil que a empresa procurava. Mas que perfil é esse? Sempre me perguntava. Escuto, falo, tenho estudo e conhecimento. A única coisa que me difere de uma pessoa dita normal é que só ouço com um de meus ouvidos. Será que isso é motivo para que não me contratem?, questiona.
Hoje Everton conseguiu uma colocação no mercado de trabalho e atua em uma empresa têxtil, mas em um segmento totalmente diferente daquele ao qual destina seus estudos. Fico feliz com a oportunidade que encontrei. Trabalho há 11 meses no almoxarifado e não vejo problema algum nisso. O que não concordo é que entrei somente para preencher um esquema chamado cotas, que através da lei garante a inserção de deficientes nas empresas. Quero trabalhar no departamento administrativo, indiferente da instituição. Estou disposto a trabalhar por R$ 100. Não é o dinheiro que importa, é a chance que eu quero de demonstrar que sou capaz.
E desta forma, Everton segue procurando a tão sonhada vaga, não somente em Pomerode, mas também nas cidades vizinhas. E por ser mais maduro, não fica mais tão chateado assim quando se depara com atitudes e pessoas preconceituosas. O preconceito é sinônimo de ignorância e, infelizmente, muitas pessoas assim surgem em nossas vidas ao longo do caminho.

Porto seguro – Enquanto portas se fechavam, nos momentos em que Everton fraquejava, uma verdadeira heroína, como ele mesmo define, estendia seus braços para confortá-lo. Minha mãe é tudo para mim. Nunca me deixou ficar para baixo. Uma vez ela chegou a conversar com uma pessoa que ocupava o cargo de gerência em uma grande empresa para conseguir entender os motivos que levavam a negação de uma oportunidade a um deficiente auditivo. Esta pessoa respondeu para ela que não teria como empregar uma pessoa que não escutasse direito, pois com a utilização de Equipamento de Proteção, a comunicação seria impossível. Isso é desculpa furada para o medo do diferente, da adaptação, do que foge dos padrões, desabafa.
Outra mulher que desempenha um papel importante na vida de Everton, e por quem ele se derrete através de elogios, é sua namorada, Talassa Müller. A conheci através de uma rede social. Quando vi sua foto, fiquei encantado na mesma hora. Não vou mentir que não tive receio que ela não quisesse nada comigo pela minha condição. Mas foi tudo muito natural, fomos nos identificando com algumas coisas, nos conhecendo e aos poucos percebemos que estávamos apaixonados. Para ela, minha deficiência auditiva nunca foi um problema.

Igualdade e oportunidade – São as duas palavras que hoje mais marcam a vida de Everton. Lembro as palavras de meu avô materno, que é uma grande referência para mim. Ele sempre me ensinou que as pessoas não podem ser julgadas pela aparência e que devemos tratar a todos, sem distinção, com muito respeito. E é assim que penso. No momento de uma contratação, a cor de uma pessoa, condição financeira, preferência sexual ou religiosa, condição ou limitação física, deve ficar de lado. O que importa mesmo é a qualificação que ela tem para preencher determinada vaga e a força de vontade.
A iniciativa de contar sua história de vida através de uma reportagem é reflexo de sua maturidade. Hoje, Everton se sente mais preparado para lutar pela igualdade e inserção de pessoas como ele no mercado de trabalho. Conheço a APODEF (Associação Pomerodense de Deficientes Físicos) e quero participar das atividades da entidade. Se eu pudesse escolher, não desejaria ser deficiente auditivo, mas Deus desejou que eu fosse, por um motivo ou por outro. Talvez para unir ainda mais minha família. Gostaria, do fundo do meu coração, que as pessoas fossem tratadas da mesma maneira, sem preconceito. Mas o mundo não é assim e enquanto eu tiver forças quero lutar contra isso. Todos somos normais, embora diferentes. Depende da forma com que olhamos nosso próximo, finaliza o jovem Everton, repassando muito mais que sua história aos leitores desta reportagem. Repassando uma verdadeira lição de vida, onde não existe espaço para o comodismo e preconceito.

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