Mais médicos para o Brasil?
Mais Médicos para o Brasil é o nome do programa do governo federal, lançado na segunda-feira, dia 08 de julho, que inclui, como requisito necessário para a aquisição do diploma em medicina, dois anos de trabalho no Sistema Único de Saúde (SUS) para alunos que iniciarem o curso a partir de 2015. A norma faz parte da medida provisória (MP) editada pela presidente Dilma Rousseff com ações voltada
Mais Médicos para o Brasil é o nome do programa do governo federal, lançado na segunda-feira, dia 08 de julho, que inclui, como requisito necessário para a aquisição do diploma em medicina, dois anos de trabalho no Sistema Único de Saúde (SUS) para alunos que iniciarem o curso a partir de 2015.A norma faz parte da medida provisória (MP) editada pela presidente Dilma Rousseff com ações voltadas para a saúde pública. Para o preenchimento das vagas, será dada prioridade aos médicos com registro no Brasil. As vagas que sobrarem vão, primeiramente, para os brasileiros formados no exterior e, então, para médicos estrangeiros. O principal objetivo do programa é o preenchimento das vagas na atenção básica à saúde nas regiões onde há carência de profissionais.
Estudantes de medicina, em sua maioria, são contra a ação que não é considerada uma solução para a saúde pública. Como estudante do terceiro ano de medicina, posiciono-me contra as últimas medidas tomadas pelo governo em relação à saúde da população. Observa-se a opção do governo por soluções paliativas e eleitoreiras e que não suprem as necessidades do setor. Obrigar o médico a trabalhar na atenção básica, assim como importar médicos para prendê-los no interior são medidas imediatistas e baratas, cujo benefício, a longo prazo, é questionável e que proliferam a ideia de que os profissionais apenas se recusam a trabalhar em cidades menores. O sucateamento do serviço de saúde culmina na culpabilidade de quem representa tal serviço, ou seja, a categoria médica, emergindo, inclusive, certo repúdio popular a essa classe. Mais uma vez os médicos são usados para ocultar a incompetência e a omissão de gestores que têm tratado a saúde como objeto de populismo e politicagem, ressalta Isabella Sandrini Pizzolatti, estudante da quinta fase do curso de medicina da Universidade Federal de Santa Catarina.
Acreditando na melhora na formação do médico brasileiro, o discurso oficial afirma basear-se num modelo britânico e sueco. Além disso, pensa em contabilizar cerca de 20 mil médicos em 2021 e o dobro disso em 2022. De acordo o com o Ministério da Saúde, 80% dos problemas de saúde podem ser resolvidos pelo serviço de atenção básica. Os médicos não abandonaram seu povo. Recusam-se apenas a servir os políticos e burocratas, assumindo a responsabilidade por uma comunidade pela qual, em função da falta de recursos, pouco seria beneficiada. É complicado trabalhar em unidades de saúde do interior que não oferecem o mínimo de estrutura para manejo de uma emergência, que não têm hospitais próximos ou que não oferecem possibilidade de transporte eficaz de pacientes para centros de referência, frisa a estudante.
Atualmente, o curso de medicina consiste em quatro anos de formação teórica e dois de estágio obrigatório, totalizando seis anos. Com a medida, a partir de 2015, os alunos de medicina continuarão a cursar os seis anos e, depois disso, passarão por um ano no serviço de atenção básica do SUS e mais um ano nos serviços de urgência e emergência, como por exemplo, o Samu. O Conselho Nacional de Educação (CNE) terá um período 180 dias para regulamentar esse segundo ciclo do curso. A vida do estudante de medicina e do médico já exige muita dedicação e determinação, a formação já é longa e exaustiva. O médico já entra mais tarde no mercado de trabalho, já começa a se sustentar financeiramente bem depois, já abdica de muitos aspectos da vida em função da medicina. Prolongar o tempo de formação, além de tudo, pode, infelizmente, fazer a carreira não valer mais a pena. Além disso, um atendimento de qualidade exige continuidade. Um rodízio de médicos recém-formados e inexperientes para lidar com situações complexas e sem ferramentas de trabalho não resolve nada. Uma iniciativa eficaz deve obrigatoriamente ser construída a partir de investimento, aparelhamento dos serviços, compra de medicamentos, melhores condições de trabalho e planos de carreira para médicos da Atenção Básica. Acompanhar o dia-a-dia dos hospitais públicos, com emergências saturadas, falta de leitos, demora de exames é ter certeza de que a área da saúde é, de fato, deficitária em muitos aspectos. Deve-se, portanto, dar condições ao médico de trabalhar, observa Isabella.
A jovem, que planeja seguir a área cirúrgica, mas também tem grande afinidade pela ginecologia e obstetrícia, acredita que o desejo dela, seja o mesmo de seus futuros pacientes. O sonho do médico é o mesmo sonho do paciente: saúde de qualidade, um SUS que dê certo, uma fila que ande, um tomógrafo que funcione, uma ambulância que apareça. À ludibriada sociedade brasileira: não satanize os médicos. Objete seu repúdio a quem tem, de fato, o capital, o papel e a caneta na mão. Pois à nós, médicos, está sobrando apenas o carimbo, finaliza.