Maior tragédia da mineração brasileira é cercada de mistério
Urussanga, em Santa Catarina, convive com o passado da mineração. Lá moram viúvas e sobreviventes, como João e Sérgio.
Preste atenção na cor desta água. Ela está contaminada por enxofre e sai direto da mina de carvão que não funciona mais.
Há 26 anos, parte deste subsolo explodiu. Trinta e um mineiros morreram a 80 metros de profundidade, na maior tragédia da mineração brasileira.
Urussanga, em Santa Catarina, convive com o passado da mineração. Lá moram viúvas e sobreviventes, como João e Sérgio.
Eles atravessam o mato alto em busca da mina que explodiu naquele 10 de setembro de 1984.
Depois de uma caminhada a gente chegou onde era a boca da mina, a entrada da mina que explodiu.
Fantástico: como é que vocês se sentem voltando pra cá, 26 anos depois?
?Daquele tempo pra cá uma fita volta na cabeça da gente dá uma emoção muito grande a gente vir pra cá se lembrando que perdeu 31 amigos?, conta o mineiro Joao Batista Pereira.
Naquele dia, João trabalhava a 70 metros do estrondo.
Os mineiros desciam uma rampa e baixavam oitenta metros. Um corredor os levava para as frentes de trabalho, os painéis.
A1200 metros da entrada ficava o painel seis. O desastre foi às 5h10.
?Você sente aquela pressão no tímpano. O que a gente sentiu foi aquilo, muito forte, muito forte. Em seguida, cerca de 6, 7 segundos depois então um forte deslocamento de ar que jogou a gente contra a parede?, relembra o eletricista Sergio Luis Macari.
?O operador de maquina disse: nos vamos morrer. Eu disse: não, não morremos. Vamos ate aonde dá. Quando não der, nos voltamos?, diz Salesio Donato Velho, mineiro.
??Enquanto não chegava o pessoal de apoio da rua a gente tentou. E foi onde a gente foi caindo, porque nós começamos a ficar intoxicados pela própria fumaça que vinha?, conta Sergio.
Asfixia e queimaduras foram as causas da morte dos mineiros, segundo um relatório deste engenheiro. A razão exata da explosão ainda é um mistério.
Grandes exaustores ventilam as minas para levar ar puro e expulsar metano, Um gás inflamável, que se desprende naturalmente.
?Houve falha de energia elétrica em diferentes momentos e por alguma razão em uma dessas falhas os ventiladores não foram religados pela empresa?, revela o engenheiro da USP, Dorival Barreiros.
Sem ventilação, o painel seis foi tomado pelo metano. Um isqueiro ou um fósforo podem ter causado a explosão. Uma faísca elétrica é outra causa possível.
?Para mim o mundo tinha acabado. Eu era uma pessoa risonha, eu achei que não ia rir mais. Acabou-se meu riso?, diz Maria de Fátima, viúva.
Maria de Fátima perdeu o marido Aristides Goulart na explosão. Ele tinha apenas 26 anos. Luis Carlos Leopoldino é outra vitima. Ele deixou a mulher e o filho. Na época, uma criança de 4 anos.
?Só me lembro que na época eu não pude ver o meu pai porque o caixão era lacrado?, conta.
?Esse pessoal que esta ai, não morreu em vão. Eles foram heróis. Depois da explosão, a mineração passou a ser tratada com respeito. E outra coisa também: a segurança mudou?, diz Sérgio.
Viajamos até Criciúma para conhecer uma mina de carvão moderna. A segurança hoje deve muito à tragédia em Urussanga.
?Esse vento que está passando por nós é uma ventilação que está sendo forçada por um exaustor que está localizado lá no subsolo?, conta o engenheiro de mina, Cleber Gomes.
Santa Catarina produz, hoje, dois milhões de toneladas de carvão, metade do que produzia na época do acidente.
Treze minas funcionam no estado, nenhuma delas em Urussanga.