Inclusão desde a primeira infância
Hugo Luis Nass Reinke é aluno da Creche 3B do CEIM Rosa Borck e possui deficiência auditiva. Na turma, o aprendizado da Libras vem junto ao conteúdo curricular
Foto: Isadora Brehmer / JP
O início da vida escolar de uma criança, ao frequentar uma instituição de ensino, no caso os Centros de Educação Infantil, é de extrema importância para o bom andamento de seu desenvolvimento cognitivo.
Por isso, todas as crianças que iniciam a trajetória em um CEI precisam receber a devida atenção quanto ao seu desenvolvimento. No caso de Hugo Luis Nass Reinke, aluno da Creche 3B do CEIM Rosa Borck, de quase quatro anos, para que isso aconteça, é necessária a presença da professora e intérprete de Libras, Noemi da Silva.
Isso porque Hugo possui perda auditiva, diagnosticada quando ele completou um ano de idade, consequência de diversas inflamações no ouvido que o menino teve, em seus primeiros anos de vida. “Em sala de aula, foi percebido que algo estava diferente, já que o Hugo começou a se isolar dos demais. A mãe também percebeu alguma coisa diferente, que ele já ficava mais no cantinho, já não estava atendendo pelo nome dele, então correu para fazer a investigação do que poderia ser”, conta a professora Noemi.
O diagnóstico veio cerca de um ano depois, comprovando a deficiência auditiva. Em 2023, no entanto, ele recebeu um implante coclear, uma prótese que substitui parcialmente as células danificadas da cóclea. Desta forma, Hugo tem menos perda auditiva e consegue ouvir alguns sons, como o próprio nome, dito mais alto, e sons mais agudos.
A professora e intérprete de Libras comenta que, no caso de Hugo, a parceria da família teve muita importância, pelo esforço dos pais Daniela Esther Nass Reinke e Adolfo Osvaldo Reinke, que sempre buscaram as melhores soluções, além do próprio aprendizado da Língua Brasileira de Sinais e que logo solicitaram o intérprete de Libras.
“Com o Hugo, é necessário fazermos a introdução de Libras, começar com os primeiros sinais, as primeiras palavras e este é o grande desafio. Os pais também tentam aprender os sinais, para poderem utilizá-los em casa. O Hugo faz acompanhamento com uma fonoaudióloga e consegue verbalizar algumas coisas”, afirma Noemi.
Noemi trabalha no dia a dia em conjunto com a professora regente da turma de Hugo, Dirlei Farikoski, introduzindo a Libras em atividades rotineiras. Por exemplo, nas contações de histórias, ou atividades com música. “No início o Hugo não gostava de ficar nas rodas de contação de história. Hoje, como a professora tem um timbre de voz que chama a atenção, ele senta para ouvir e acompanhar, até pelo jeito de contar da professora. E eu acompanho, me dirigindo algumas vezes também à turma toda, ensinando os sinais”, comenta Noemi.

Foto: Isadora Brehmer / JP
A intérprete de Libras também afirma que Hugo está começando a compreender que os sinais são a forma de comunicação e, por isso, a turma também está sendo introduzida à Libras. Desta forma, Hugo saberá que, se fizer o sinal, a pessoa vai respondê-lo. “Mas como toda a criança desta idade, é preciso paciência de entender que nem sempre ele quer fazer o sinal, embora esteja compreendendo”.
Pelo fato de ter a surdez profunda, mesmo com o implante coclear, pode ser que existam sons que Hugo não consiga ouvir, por isso é fundamental para sua aprendizagem que a Libras caminhe junto com ele, já que é indispensável para sua comunicação com as outras pessoas.
“Por isso é importante passar esta forma de comunicação também aos demais alunos, que seguirão aprendendo, inclusive quando forem para a escola. É a forma de se comunicarem com o Hugo e isso é inclusão”, frisa Noemi.
Atualmente, segundo Noemi, Hugo sempre fica focado nas ações pedagógicas, tem um raciocínio muito rápido, tem uma boa coordenação motora e até consegue compreender algumas orientações sem a necessidade da Libras, por ser observador.
“Uma coisa positiva é a rotina mantida pela professora, trabalhada com todos, sempre mostrando o que será feito naquela manhã. O Hugo é muito organizado e até independente para algumas coisas, o que é muito positivo”, afirma Noemi.
A professora regente, Dirlei, comenta que a experiência de ter um aluno com deficiência auditiva está sendo um grande aprendizado. “Para mim é uma experiência nova. Eu já tive outros alunos com outras deficiências, mas auditiva é o primeiro caso. Para mim é uma novidade e uma experiência ótima, estou aprendendo muito. Tenho formação em um curso de Libras, mas faz anos que eu fiz, então estou retomando o que aprendi no curso. Para mim está sendo maravilhoso estar trabalhando também com o Hugo. Eu e a professora Noemi fazemos o planejamento juntas, nas atividades trocamos ideias de como fazer com o Hugo e como incluir as outras crianças”, comenta
Para a professora e intérprete de Libras, o principal desafio deste trabalho com o Hugo é conseguir introduzir mais da Libras. “Isso porque, nos meus trabalhos anteriores, os alunos já tinham conhecimento de Libras, então era mais uma tradução que era necessária. No caso do Hugo, é necessário introduzir a Libras para ele, palavra por palavra, sinal por sinal. É preciso pensar que ele começou a ouvir, de fato, depois do implante coclear. Ali começou a linguagem e é preciso pensar, então, que ele começou a ter esta introdução à linguagem oral há pouco mais de um ano, após o implante coclear. Claro que ele teve todos os estímulos anteriores pra acompanhar, mas é natural ter esse atraso de fala e por isso é necessário um trabalho intenso para que ele não tenha atrasos no desenvolvimento e na alfabetização, com leitura e escrita”.
A diretora do CEIM Rosa Borck, Deyse Giovana Hardt Trettin, explica que a professora regente e Noemi têm horas atividade no mesmo período, possibilitando que o planejamento das aulas seja feito em conjunto. Desta forma, em sala de aula, é possível potencializar o trabalho feito com Hugo e o restante da turma, a fim de fazer a oralidade e a Libras caminharem juntas.
Ainda, Deyse também comenta que o trabalho é voltado ao objetivo de sempre fazer com que Hugo seja parte integrante do universo em que ele está inserido. “As nossas legislações intensificam as interações. A Base Nacional Comum Curricular diz que são as interações, as brincadeiras, os eixos norteadores da educação infantil. Nós prestamos atenção às necessidades das crianças. Se o trabalho fosse voltado exclusivamente à Libras, talvez até estaríamos desrespeitando essa legislação, que prevê a interação e a brincadeira com o eixo norteador. O trabalho da professora em sala de aula é com as interações e brincadeiras, por isso a Libras é introduzida para a turma inteira, fazendo com que todos aprendam e tornem possível a interação também com o Hugo”.
“Há momentos em que o trabalho, sim, é intensificado com o Hugo, mas a turma é incluída neste aprendizado, visando também formar cidadãos que consigam se comunicar em Libras. E vai além é uma parceria de professores, CEI, família, para que, no futuro, o Hugo e outras pessoas com deficiência auditiva cheguem na sociedade e consigam se comunicar, sem que esta área seja um obstáculo tão grande”, completa Noemi.
“Quando promovemos essas interações, as brincadeiras, o intérprete de Libras, estamos removendo obstáculos. A função da educação especial é remover obstáculos e precisamos introduzir metodologias que vão auxiliá-los a tirar esses obstáculos da vida”, finaliza a diretora.
