Saúde

Gurus e xamãs criados por IA vendem falsas promessas de saúde e podem prejudicar tratamentos

Ebooks prometem curas e receitas “ancestrais”, mas personagens que conquistam milhares de seguidores podem nem existir; especialistas alertam para riscos à saúde

24 de agosto de 2026

Foto: Divulgação

Promessas de curas rápidas, receitas naturais e conhecimentos “secretos” estão ganhando espaço nas redes sociais. O problema é que, em alguns casos, os supostos gurus e xamãs responsáveis pelas orientações não existem de verdade: são personagens criados por inteligência artificial (IA).

A estratégia utiliza perfis com histórias aparentemente reais para conquistar seguidores e vender ebooks apresentados como manuais de saúde. O risco está na falsa sensação de segurança provocada por essas recomendações, que pode fazer com que pessoas adiem a procura por atendimento médico, atrasem diagnósticos e agravem problemas de saúde.

Personagens criados por IA conquistam seguidores

Os perfis apresentam os personagens como especialistas em conhecimentos ancestrais, naturais ou tradicionais. Em alguns casos, as histórias também recorrem a elementos sobrenaturais e espirituais para aumentar o interesse do público.

Um dos perfis identificados possui mais de 600 mil seguidores e é protagonizado por uma senhora indígena criada por IA. Nas publicações, ela divulga receitas que prometem recuperar a saúde de qualquer pessoa em sete dias.

Para aumentar a credibilidade, também são divulgados supostos depoimentos de compradores. Em uma das publicações, uma suposta cliente afirma que as dores desapareceram nos primeiros dias.

A estratégia de venda inclui ainda páginas com pop-ups informando que pessoas famosas, como atores e cantores conhecidos, teriam acabado de comprar o ebook. O recurso busca induzir o consumidor a acreditar que o produto é popular e confiável.

Cúrcuma não é tratamento para verminoses

Entre as receitas divulgadas pelo ebook está o consumo de cúrcuma por 30 dias para eliminar parasitas e vermes. Não existem evidências científicas baseadas em estudos com seres humanos que sustentem essa recomendação como tratamento para verminoses.

Além disso, em 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou um alerta sobre suplementos alimentares e medicamentos à base de cúrcuma. Segundo a agência, produtos com concentrações elevadas ou com aumento da biodisponibilidade da curcumina podem provocar danos ao fígado.

Confira o alerta da Anvisa sobre produtos à base de cúrcuma

A Anvisa também diferencia alimentos e medicamentos. Promessas de cura, tratamento ou recuperação da saúde são características associadas aos medicamentos e, quando atribuídas a alimentos, podem induzir a população ao erro.

O consumo excessivo de um alimento ou ingrediente também pode causar problemas. O mesmo vale para plantas medicinais: natural não significa necessariamente seguro, já que seu uso inadequado pode provocar efeitos adversos, intoxicações e reações alérgicas.

Como identificar conteúdos falsos?

Com a popularização da IA, alguns sinais podem ajudar a identificar personagens artificiais. Entre eles estão movimentos pouco naturais dos lábios, transições estranhas entre falas, mãos e objetos que apresentam alterações incomuns, além de vozes robotizadas ou travadas.

Também é importante verificar se existem registros reais da pessoa em entrevistas, eventos ou outras fontes confiáveis. Quando o perfil afirma pertencer a um profissional de saúde, as credenciais devem ser conferidas junto ao conselho profissional da categoria.

No caso de autores desconhecidos, vale pesquisar outras obras publicadas e informações sobre sua trajetória.

Atenção aos ebooks vendidos com suplementos

Obras audiovisuais não são reguladas pela Anvisa. Porém, em situações de venda casada, quando um ebook é comercializado junto com um produto sujeito à vigilância sanitária, pode haver possibilidade de autuação, dependendo das características do caso.

A associação entre livros digitais e suplementos também exige cuidado, já que essa estratégia pode ser utilizada para comercializar produtos irregulares de forma disfarçada.

Diante da facilidade de criação e disseminação de conteúdos digitais, é fundamental verificar a autoria, a procedência e as evidências científicas antes de seguir qualquer recomendação de saúde encontrada na internet.

O Cert.br, vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, disponibiliza materiais com orientações para uma navegação mais segura.

Confira as cartilhas do Cert.br

No fim, a pergunta é: você confiaria sua saúde a um livro escrito por alguém que não existe?

Problemas de saúde devem ser avaliados por profissionais habilitados. Receitas “secretas”, curas milagrosas e promessas naturais precisam ser encaradas com desconfiança.

 

Fonte: Anvisa

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