Grama sintética: luxo ou necessidade?
Em tempos de chuvas cada vez mais frequentes, Pomerode poderá ter, em breve, novas opções para solucionar o problema da falta de campos
A cidade de Pomerode tem uma vocação bastante forte para a prática do futebol, principalmente o Futebol 7 Society e o Futebol Suíço. Todos os dias, inúmeras patotas se divertem praticando o esporte mais popular do Brasil, nos diversos campos espalhados pelo município, além dos campeonatos promovidos por entidades públicas e particulares.
No entanto, nos últimos anos, a quantidade de chuva vem aumentando consideravelmente, o que faz com que as praças esportivas sejam bastante prejudicadas. Isso se deve ao fato da grama natural se deteriorar em função das intempéries e o tempo de recuperação ser muito grande. Por isso, as turmas vêm encontrando dificuldades para encontrar pisos com boas condições, ultimamente.
A solução para esse problema está na construção de campos com gramados sintéticos ou na adaptação dos já existentes. Este é um assunto que domina as rodas de conversas já há bastante tempo, uma vez que esta poderia ser a saída para que as patotas pudessem continuar praticando o seu futebol, mesmo em condições climáticas não muito favoráveis.
Relação custo-benefício
Apesar do alto custo, a instalação de um campo de grama sintética pode ser viável em Pomerode. É o que garante Éverson Ewald (Binho), proprietário da Ewald Sports e também de uma quadra na Itoupavazinha, em Blumenau. Criado em 1997, o espaço recebeu o revestimento sintético dois anos após. “Apesar de ser coberta, resolvi investir na quadra porque vi que existe muito público para este tipo de piso. A aceitação foi muito boa e até hoje, nossos horários estão lotados”, pondera, dizendo que mantém de quatro a cinco horários por noite, durante a semana, e mais sete aos sábados, ao custo médio de R$ 80,00 a hora.
O empresário destaca ainda que a manutenção da sua quadra, com medidas de 35mx20m, é relativamente baixa e que, neste período de quase 12 anos, precisou trocar o gramado por duas vezes. “A grama sintética é viável justamente por não estar atrelada ao fator clima para a prática do futebol. Se eu possuísse um terreno, investiria com certeza em uma praça esportiva também em Pomerode, pois vejo que o mercado é promissor”, diz.
Projetos em Pomerode
No que depender dos entusiastas do esporte em nosso município, este problema “climático” pode estar com os dias contados. Até agora, quatro projetos para instalação de gramados sintéticos estão em andamento, ou pelo menos, na mente de seus idealizadores.
Um deles está para sair na área central da cidade, envolvendo um empresário pomerodense e um joinvillense. “Nossa intenção é fazer um campo que possa atender as necessidades, tanto dos grupos que se reúnem para jogar semanalmente, quanto dos campeonatos existentes. Não está 100% definido ainda, mas acredito que o projeto vai se concretizar em breve”, anuncia.
“Apesar de o investimento ser pesado, com certeza teremos retorno, uma vez que, além do campo propriamente dito, faremos toda a infraestrutura necessária para bem receber os atletas e torcedores, como vestiários, bar, churrasqueiras e estacionamento. Em Pomerode, além de ser estritamente necessário, um campo de grama sintética chamará a atenção. Além disso, não adianta investir em campos pequenos, pois o público-alvo não irá usufruir”, acrescenta o empresário, destacando que pretende fazer um campo de 35mx50m, aproximadamente.
As medidas oficiais de um campo, conforme a Confederação Brasileira de Futebol 7 Society, são de 25m a 35m de largura, por 45m a 55m de comprimento.
Bairros priveligiados
Quem também seria beneficiado é a localidade de Testo Alto, pois a Associação Porath está com a intenção de colocar, em um de seus campos, o gramado sintético, como destaca o proprietário, Rolf Porath. “Estamos com o projeto há algum tempo, mas precisamos ver a viabilidade e a relação custo-benefício, pois é um investimento alto e o retorno precisa ser garantido. Já conversei com alguns proprietários de quadras sintéticas da região e estou bastante entusiasmado”, declarou.
Rolf sente que a hora de investir é agora, uma vez que os boleiros de plantão estão carentes de campos, principalmente neste período de chuvas. Este seria o principal motivo para a instalação do piso sintético. “Quando chove, o gramado necessita de, no mínimo, cinco dias para secar completamente. Além disso, há um período de recuperação total do piso, que leva de 30 a 45 dias e, neste intervalo, não realizamos partidas. A Associação sobrevive, principalmente, destas patotas que usufruem dos campos, por isso há a necessidade urgente de se colocar uma grama que suporte chuva, sol, frio, calor, sem perder a qualidade”. A Associação Porath conta, no momento, com sete grupos fixos semanais.
Possuindo dois campos, Rolf adequaria, primeiramente, o de cima, que tem 60mx40m. “Como já temos toda a estrutura montada, seria necessário apenas a colocação do gramado, o que tornaria o investimento menor, em torno de R$ 170.000,00, incluindo preparação do piso e drenagem. Já estou na fase final de orçamentos e a expectativa é grande. Quero proporcionar aos praticantes do futebol um produto de qualidade, além de outras estratégias que agreguem valor ao investimento”.
Caso se concretize, a Associação Porath pretende receber diversas competições, entre elas, o Campeonato de Bairros, além de continuar sediando a Escolinha da AACEP. Rolf também estuda realizar parcerias com empresas da região, para que possam desfrutar deste gramado, que é um anseio da população pomerodense.
Outro bairro que poderá ter um campo sintético é o Wunderwald. O Botafogo está com a intenção também de montar uma quadra deste tipo em sua sede social. “Estamos estudando ainda esta possibilidade, inclusive, em parceria com uma empresa blumenauense. Caso saia do papel, faremos um campo de 48mx28m, utilizando grama importada. Espero que, em pouco tempo, este nosso sonho se concretize”, afirmou o presidente Jürgen König.
Campo oficial
Dentre os quatro, o projeto mais audacioso é o que envolve o Estádio Hermann Weege. Conforme o presidente da AE Floresta, Sérgio Eduardo de Souza Santos (Dudu), há a intenção de transformar o campo no primeiro oficial sintético de Pomerode, além de se tornar o maior de Santa Catarina. “Vemos a necessidade disso, uma vez que o Floresta, além dos campeonatos que participa, recebe muitas competições e grupos de patotas, que usufruem da estrutura. E como o tempo não está ajudando nos últimos tempos, o que impossibilita de se fazer uma manutenção adequada, uma das soluções seria a implantação do gramado sintético”.
Dudu enfatiza, no entanto, que tudo não passa de um projeto, uma vez que os custos são elevados, além de que o campo, com dimensões de 105mx68m, precisaria passar por modificações. “Só a grama custaria em torno de R$ 800.000,00. Além disso, teríamos que levantá-lo de 40cm a 1m, possibilitando a implantação do piso sintético. E o mais importante, tudo terá que ser certificado pela Fifa. É apenas um sonho, mas estamos trabalhando para tentar concretizá-lo”, conclui o presidente.
A palavra do poder público
O presidente da Funpeel, Arlindo Ewald (Leke) é mais um que engrossa o coro sobre a instalação de campos sintéticos em Pomerode, porém, faz uma ressalva. “Não podemos abandonar os campos de grama natural localizados nos bairros, pois é lá que há o envolvimento da comunidade em geral. Claro, se houvesse uma praça de esportes com as medidas oficiais do Futebol 7 Society e infraestrutura adequada, algumas rodadas do Campeonato de Bairros, por exemplo, poderiam ser realizadas naquele local”.
Mesmo com a “polêmica” da final do 6º Campeonato Integração de Bairros deste ano, realizada sob condições climáticas adversas, Leke acredita que o “charme” de uma decisão é poder prestigiar os campos localizados nos bairros. “No mais, poderíamos trazer outras competições para este tipo de piso, incrementando, ainda mais, o nosso calendário esportivo”.
Como jogar num gramado sintético
É notório que há diferenças de um gramado normal para um sintético. A primeira delas é a velocidade da bola, que aumenta consideravelmente. Outro fator é o risco maior de lesões por parte dos jogadores. “A maioria não está acostumada com esse tipo de piso. Se você pega um atleta que sempre treina na grama sintética, ele não vai ter problemas. Mas quem não joga com frequência acaba sentindo. É uma questão de costume”, diz o ortopedista Luiz Roberto Marczyk, professor de Ortopedia da UFRGS.
Já Ivan Pacheco, médico da Federação Gaúcha de Futebol, alerta que os jogadores precisam calçar chuteiras específicas para o gramado sintético. “O calçado tem que ser adequado. A velocidade da bola aumenta e isso muda os movimentos do atleta que não está acostumado com o piso sintético”, avalia o profissional.
“Campos homologados pela Fifa, que possuem uma altura parecida com a grama natural, bem como a largura das folhas, são menos propensos a lesões. Já nas que possuem um piso parecido com um carpete, o risco de travar o pé é maior”, acrescenta.
Um pouco de história
O primeiro gramado sintético foi instalado em 1965, no estádio Astrodome, em Houston, Texas. O produto se popularizou durante os anos 70 e, nessa época, era usado principalmente em campos de Beisebol e Futebol Americano, nos Estados Unidos e no Canadá. Nos anos 80, o piso artificial migrou para a Europa, sem repetir o sucesso americano. Lá, os campos foram construídos com produtos que geravam uma superfície mais dura do que a grama natural, causando mais lesões. Durante esses anos, o gramado artificial foi proibido pela Fifa, Uefa e por muitas outras associações nacionais de futebol.
No entanto, a grama sintética continuou o seu importante desenvolvimento e evoluiu. Foi assim que surgiu uma nova superfície, que utilizava um recheio de areia e borracha, oferecendo a mesma segurança que os gramados naturais.
A chegada da grama sintética no Brasil foi um sucesso total, nos anos 90. O primeiro campo a receber a novidade foi o Krake Sorriso Escola de Futebol, localizado no Jardim Aeroporto, em São Paulo. A grama utilizada era importada da Holanda. Hoje em dia, existem cerca quatro mil praças sintéticas espalhadas pelo país, que envolvem 12 milhões de participantes, segundo a Confederação Brasileira de Futebol 7 Society.
Tipos de Grama Sintética
• O Modelo Fibrilado: é consolidado em todo o mundo, permite a prática de vários esportes, entre eles o futebol, tênis e golfe, diferenciando-se apenas pela altura dos fios, deixando o gramado bonito e confortável para a prática esportiva. O gramado fica muito elegante com esse modelo;
• Modelo Multifilamento: é um produto novo, que se consolidou na Europa e foi lançado há pouco tempo no mercado nacional. Composto por fibras de alta resistência, suas melhores características são a durabilidade, menor abrasividade e maior proximidade com o gramado natural. Produzido com fitas planas de multifilamento, têm uma maior vida útil, velocidade de bola e condições de jogo. Isso melhora e muito o desempenho dos jogadores profissionais e amadores;
• Diferença entre Polipropileno (PP) e Polietileno (PE): a fibra de Polipropileno é feita de material plástico, tendo como característica ser mais “seca”. É o tipo de fibra mais usado atualmente, pois tem custo mais baixo e um razoável rendimento nos campos de futebol. O Polietileno é uma fibra mais “nobre”. Sua formulação avançada traz como características principais a maciez e sedosidade dos fios. Seu aspecto se assemelha muito à grama natural, sendo menos abrasiva e garantindo, ao longo dos anos, um melhor aspecto visual.
Vantagens
• A grama sintética pode ser uma melhor solução quando o recinto é particularmente hostil à grama natural, por exemplo, num ambiente árido ou onde há pouca luz natural;
• A grama sintética pode aguentar significativamente mais do que a grama natural e por isso pode ser utilizada por muito mais tempo;
• Ideal para casas de veraneio ou de final de semana, quando a manutenção da grama convencional não é prática;
• Adequada para jardins de terraço e para perto de piscinas;
• Alguns sistemas de grama sintética permitem a integração de fibras óticas entre a grama. Isso permitiria que a iluminação ou a publicidade fossem incorporadas diretamente na superfície de jogo, ou que as luzes de balizamento de um aeródromo fossem integradas na superfície da grama sintética.
Desvantagens
• Alguns tipos de grama sintética necessitam de algum preenchimento, como área de silicone e/ou borracha granulada, feita de pneus de carros reciclados. Este material pode transportar metais pesados que podem se infiltrar no lençol freático;
• Desinfecção periódica necessária, já que certos patógenos não são eliminados por processos naturais da mesma maneira que a grama natural;
• O atrito entre a pele e a grama sintética provoca abrasões e/ou queima a uma extensão muito maior do que a grama natural. No entanto, em alguns tipos de grama sintética de terceira geração, esse problema é quase que completamente eliminado com o uso de fios de polietileno;
• O gramado sintético tende a ser muito mais quente do que a grama natural, quando exposta ao sol.
Enquete
Qual a sua opinião sobre a instalação de um campo sintético em Pomerode?
“A proposta é muito válida, principalmente pelo fator clima. Pomerode possui muitos praticantes do Futebol 7 Society e uma ideia como essa seria muito importante para nossa cidade”.
Marcos Antônio Wolfart, 41 anos, metalúrgico
“Acho fundamental para o desenvolvimento do Futebol 7 Society em nosso município. Não podemos ficar atrás dos municípios vizinhos que já possuem campos sintéticos. Tenho certeza de que, se lá dá certo, aqui em Pomerode não será diferente”.
Waldemar Wiesner, 58 anos, professor e secretário da LPD
“Nosso município é referência na prática do futebol, com competições bem organizadas e grande número de participantes. No entanto, todos somos reféns do tempo e, por isso, acho que é muito necessário investir em campos de grama sintética. O retorno seria garantido”.
João Bosco Trierveiler, 49 anos, coordenador de RH
“Seria uma ótima opção, tanto pela qualidade do campo, que fica mais plano e sem buracos, aumentando o nível do futebol apresentado, como pela oportunidade de se poder jogar na chuva, sem estragar o gramado”.
Sandro Luciano Leite, 36 anos, policial militar
“Sou totalmente favorável, uma vez que se faz necessário em Pomerode. Há muitas equipes que gostariam de bater a sua ‘bolinha’ e, quando chove, não podem praticar”.
Marcos Rahn (Max), 50 anos, auxiliar gráfico
“Eu sou a favor, pois seria mais uma opção, não só para os jogadores, mas também para que as famílias possam prestigiar competições, como o Campeonato de Bairros e outras que, porventura, aconteçam”.
Marcos Felipe Niederle, 21 anos, vendedor