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Garra, coragem e compromisso com a vida

Dia do Bombeiro e aniversário dos Bombeiros Voluntários, pouco para homenagear todo o bem que esses heróis fazem para sociedade

1 de julho de 2011

A profissão bombeiro é para muitos um misto de coragem e doação ao próximo. É arriscar suas próprias vidas, viver no extremo para que no fim, um suspiro de vida compense todo o esforço e abdicação. Assim trabalham esses homens e mulheres que se doam para assistir a quem clama por socorro. Porém, nesta categoria que tem como data de comemoração este sábado, 2 de julho, há outra que se entrega tão quanto e tem como recompensa apenas o sorriso de uma criança salva ou o obrigado de uma mãe. Eles são os Bombeiros Voluntários de Pomerode, que além de terem a data do ofício para comemorar, também estão prestes a celebrar 16 anos de corporação, que acontece no próximo dia 10 de julho.
A história deles na cidade começou em 1995, quando a demanda de ocorrências de incêndio exigia uma atenção maior de Blumenau, que atendia a cidade. Isso porque na maioria dos chamados, até o socorro vir de Blumenau para Pomerode, quando chegava, pouco podia ser feito para evitar os estragos causados pelo fogo.
Com o apoio da comunidade, entidades de classe, do poder público municipal e principalmente das empresas locais, foi criada a corporação, que não demorou muito para expandir suas áreas de atendimentos e assim proporcionando mais segurança para Pomerode e sua gente.
No início eram apenas 20 voluntários, hoje já passam de 60 e contam ainda com investimentos no futuro, por meio dos projetos Bombeiros Mirins e Aspirantes.
O primeiro veículo, um Caminhão Ford, doado pela Malwee, hoje é somado a outros dois caminhões, jipe, barco, ambulância e um veículo convencional.
Quem relembra esse início é o atual comandante, Vilmar Volkmann, que está na corporação desde o ano da fundação. “Nós iniciamos com o apoio dos Bombeiros de Joinville que nos deram os treinamentos específicos e foram nossos verdadeiros padrinhos como Bombeiros Voluntários”, recorda.
Tanto tempo se passou e a vontade e dedicação desses abnegados não cessaram, por isso Vilmar usa um trecho de um livro que está lendo para definir essa paixão pelo voluntariado no Corpo de Bombeiros. “Se preocupar com o outro, nos traz uma satisfação de bem-estar maior que imaginamos. Executar o nosso ofício pensando nisso já é motivação suficiente para seguirmos adiante”, declara o comandante.
Essa satisfação a qual o bombeiro se refere é a que faz todos os dias diversos voluntários chegarem à corporação para prestar os devidos serviços sem saber o que os esperam pela frente.
Mas para entender esse sentimento e essa dedicação, somente eles para narrarem os grandes fatos que os marcaram e que fizeram se transformarem de simples mortais, que eles são, em heróis.

Força-tarefa
Esse é o grupamento que o jovem de 19 anos, Lucas Loures Alichandre, que atua nos Bombeiros Voluntários de Pomerode, faz parte em Indaial. E foi com essa equipe que ele se deparou com um dos momentos mais fortes que presenciou nesses pouco mais de três anos que ingressou como aspirante. “Foi um acidente na BR-470, em Indaial, envolvendo cinco veículos e uma carreta. Um dos carros caiu dentro de uma vala e quatro pessoas ficaram presas às ferragens, entre elas, uma menina de dois anos, que estava quase se afogando. Tivemos a ajuda de populares e bombeiros de outras cidades vizinhas e nesse momento o desespero era grande por causa da criança. Foram duas horas de resgate, que terminou com um final feliz. Quando peguei aquela criança com vida em meus braços, fiquei muito emocionado”, conta Lucas.
Emoção é uma palavra que pode parecer que não existe no dia-a-dia desses guerreiros, mas ela está presente, porém contida sob a responsabilidade de salvar vidas. “Não somos sangue frio, porém precisamos colocar o profissional em primeiro lugar. Temos que ter um controle emocional muito grande porque podemos nos deparar a qualquer momento como uma situação dessas como relatei”, recorda Lucas, citando também um momento forte que viveu, o resgate do jovem Vitor Hiran que caiu de parapente no mês de abril e foi encontrado somente no dia seguinte pelos bombeiros do Força-Tarefa, Voluntários de Pomerode e Timbó que auxiliaram nas buscas.

Histórias que se cruzam
Para um bombeiro não existe sensação pior que atender alguém conhecido. Apesar de todas as pessoas serem tratadas iguais, a preocupação aumenta quando é alguém próximo. Isso porque todos eles sabem o que tem que fazer e surge o medo de errar. Essa aflição acontece em segundos, assim como o baque quando se depara com a vítima conhecida. Nesta hora que novamente o profissionalismo fala mais alto e a assistência é prestada com eficiência e seriedade, para que depois todos possam relembrar a história de maneira positiva.
Isso ocorreu recentemente com a bombeira voluntária, Dorita Webber, 30 anos, que atendeu outro bombeiro voluntário durante um acidente de moto na Rua Luiz Abry. “Quando saímos para uma ocorrência, não temos ideia do que iremos encontrar e, ao chegar naquele dia, fiquei muito nervosa ao ver o Thomas. Ele estava com uma suspeita de traumatismo crânio-encefálico e inconsciente. O primeiro impacto foi difícil, mas logo foquei que era uma vítima como qualquer outra e fiz todos os procedimentos necessários. Lembro bem ele falando o nome da outra bombeira, a Débora e apagando em seguida”, conta, momentos antes de o colega chegar à corporação, na segunda-feira 27/06, retornando de seu período afastado por causa do acidente. Essa situação vivida por Dorita aconteceu também com Thomas, que acaba vendo todo esse ciclo como uma recompensa por ajudar a salvar vidas. Isso mesmo. É que Thomas Eduardo Buse, 23 anos, foi um dos responsáveis pelo socorro do atual subcomandante Ricardo Akira Shoji, 39 anos, que está há nove na corporação. Ricardo foi atropelado dentro da empresa onde trabalha por uma moto e teve um traumatismo craniano aberto e lesão no tendão.
Logo foi acionada a brigada da empresa, que chegou até o local e fez todos os procedimentos até a chegada dos bombeiros para conduzi-lo ao Hospital. “Eu conhecia todos que me atenderam e vi a aflição deles por ter se deparado comigo como vítima. Mas ao mesmo tempo sabia que todos que estavam ali tinham treinamento e conhecimento daquilo que estavam fazendo”, disse Ricardo, que tem a mesma sensação de Thomas, de recompensa por tudo que faze diariamente pelo próximo, que nesses casos foram eles que precisaram ser amparados.

Relatos
Na vida de bombeiro não faltam histórias de momentos emocionantes vividos durante o ofício. São relatos marcantes que merecem ser lembrados, para dignificar ainda mais esses bravos defensores da vida. Confira alguns:

Márcio Schubert
36 anos – Trabalha há 14 anos na corporação

“Casos com criança sempre é mais complicado. Mas uma vez eu atendi um colega que estava conduzindo uma motocicleta. Um carro cortou a frente da moto e ele teve a perna esmagada, foi necessária a amputação.
Outro que me marcou foi a minha primeira ocorrência. Foi um capotamento de um caminhão caçamba no bairro Wunderwald, na época nós não tínhamos ambulância, e o condutor veio a óbito.
Teve outra ocorrência que me marcou. Foi uma gestante que deu à luz em casa. Lembro que a criança caiu em uma patente, naqueles banheiros que ficam fora de casa. Ela era jovem, não tinha 30 anos, era seu segundo filho. A sogra que nos pediu ajuda, quando chegamos ao local ela já tinha cortado o cordão umbilical corretamente, tinha dados os dois nós e cortado no meio, estava apenas nos esperando. Vi a menina faz mais ou menos um ano, ela deve estar com uns sete anos hoje. É gratificante ver que nosso trabalho salvou uma vida.
Muitas pessoas ligam para nós agradecendo por algum atendimento que prestamos, algumas vem até nós para dizer que salvamos uma vida e mostrar o quão estão gratas por isto. Tem pessoas que até nos mandam cuca como uma forma de agradecimento. E isto sim é gratificante, pois os bombeiros voluntários, por exemplo, não ganham nada para trabalhar, só o uniforme. O maior pagamento que podemos receber é a gratidão da sociedade”.

Ellan Fernando utpadel
22 anos – Trabalha há três anos na corporação

“Estou há pouco tempo na corporação, então não teve nenhum trabalho que tenha me marcado muito. Mas lembro bem de uma colisão em frente à Volkmann, onde um caminhão bateu em um poste e tombou em cima do muro da empresa.
O caso do jovem que caiu do parapente foi outro que me marcou. Eu estava em um curso no sábado à tarde e fiquei sabendo do acidente só de noite, quando fui auxiliar nas buscas. Como já estava escuro as buscas foram encerradas e iniciamos apenas na madrugada. Às 7h30min nós localizamos o corpo. Não foi o acidente em si que me chocou, mas sim o fato de pensar no desespero do rapaz, no que ele pensou quando estava caindo”.

Ademir Krahn
51 anos – Desde 1995 nos bombeiros (há 16 anos)
“No inicio nós não tínhamos ambulância, as vítimas eram transportadas em carros particulares. Em 1996 recebemos a primeira ambulância, porém não tínhamos profissionais habilitados e ninguém podia dirigi-la.. No mesmo ano foram feitos os treinamentos básicos para que pudéssemos usá-las. O fato de hoje estarmos com apenas uma ambulância (a outra estragou na enchente), nos remete ao passado, pois se estamos fora em uma ocorrência precisamos torcer para que não aconteça outra. É muito gratificante poder ajudar. Estamos aqui para eventuais emergências, mas sempre esperando que o pior não aconteça. O mais marcante até hoje foi a construção do barco, pois teria ajudado muito durante a enchente e evitado que precisássemos socorrer vítimas de maneira improvisada. Esse barco foi construído por mim e pelo meu filho, usando conhecimentos que tínhamos e material específico para a navegação”.

Edenílson dos Santos
24 anos – Há cinco anos na corporação
“São vários casos que nos marcam, teve um na época que eu fazia o Curso de Formação dos Bombeiros. Eu estava indo para Blumenau de madrugada e me deparei com um acidente, onde tinha duas vítimas, um casal. Outro caso foi o do jovem do parapente, que também me marcou muito”.

Ricardo Akira Shoji
39 anos – Há nove anos na corporação

“Um dos momentos que marcou minha vida como bombeiro voluntário foi um afogamento de uma criança no Vale do Selke Pequeno. Quando chegamos, a criança já havia sido retirada da lagoa, mas estava muita inchada por causa da quantidade de água que bebeu. O pai pedia para não deixar a filha morrer e a deixou nas minhas mãos. Fizemos os procedimentos de ventilação e compressão e a conduzimos para o hospital. Infelizmente o esforço não obteve êxito, mas fizemos o impossível para salvá-la. Esse discernimento temos que ter. Existem limites no ciclo da vida que não conseguimos transpor e por isso não podemos ficar com um sentimento de impotência após chegar em uma ocorrência e não conseguir salvar uma vida. Fico feliz em saber que aquela família superou a perda e renasceu em um filho que tiveram”.

Márcia Norenberg Amaral
39 anos – Há seis anos na corporação

“Fui convidada a participar da coordenação dos Bombeiros Mirins pela mesma pessoa que convidou o meu marido. O responsável foi Mauro A.F. Silva. Isso foi há seis anos e desde então fiz os cursos e fui para o operacional também. Divido meu tempo com as atribuições na Associação de Pais e Professores (APP) da Escola Duque de Caxias e acho muito gratificante essa doação de tempo aos Bombeiros Voluntários. Quando assumi, meu filho tinha seis meses e o Ricardo trazia ele aqui para eu dar de mamar. Hoje o Kenan não sai daqui. Nesse período que faço parte é muito interessante destacar o interesse das crianças e adolescentes pelos bombeiros. Meu próprio filho mais velho, o Luan, de 11 anos já é bombeiro mirim. Esse envolvimento não tem preço e gosto pelo que fazemos. A nossa recompensa é um sorriso de uma criança, como a que eu atendi uma vez e ajudei a salvá-la. Ela estava na creche e começou a passar mal, mas ninguém sabia explicar o que havia causado aquilo. Meu coloquei no lugar da mãe daquela menina, que tinha a idade do meu mais novo e comecei a fazer os procedimentos, até chegar com ela no hospital. Felizmente conseguimos que tudo corresse bem. Hoje, toda vez que a encontro na rua, me emociono”.  

Posse
No Dia do Bombeiro, 2/07, acontece a solenidade de posse da nova diretoria do Corpo de Bombeiros Voluntários de Pomerode. A diretoria eleita para o biênio 2011/2013 é composta por membros da comunidade e terá como novo presidente Salézio José Martins, substituindo Manfred Achterberg. A cerimônia será na sede da corporação, às 15h30min. Na ocasião haverá homenagens a bombeiros que completaram cinco e 10 anos de atividades.

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