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Fraude de Nível Universitário

Trabalhar. Trabalhar muito. E ainda estudar. Essa é a rotina da maioria dos estudantes universitários, em busca de um futuro e até um presente melhores. O sonho de terminar a faculdade, de colar grau e pegar o canudo com orgulho. Orgulho de ter deixado de ir à festas para estudar. Orgulho de ter escolhido uma oportunidade profissional que lhe agrade. Orgulho e sensação de dever cumprido.

1 de junho de 2015

Trabalhar. Trabalhar muito. E ainda estudar. Essa é a rotina da maioria dos estudantes universitários, em busca de um futuro e até um presente melhores. O sonho de terminar a faculdade, de colar grau e pegar o canudo com orgulho. Orgulho de ter deixado de ir à festas para estudar. Orgulho de ter escolhido uma oportunidade profissional que lhe agrade. Orgulho e sensação de dever cumprido. É assim, para todos os estudantes universitários que buscam, depois da formatura, um lugar ao sol no mercado de trabalho.
O desânimo, porém, vem pouco depois do curso, ou até mesmo durante os anos de faculdade. A prostituição do mercado universitário inicia com anúncios na internet, por exemplo, vendendo diplomas e frisando o reconhecimento do MEC e a publicação no Diário Oficial da União.
São vários cursos disponíveis nesse esquema que corrompe os sonhos e as oportunidades de profissionais gabaritados para preencher as vagas disponíveis. Além de diplomas universitários, a empresa oferece também, certificados de conclusão dos Ensinos Fundamental e Médio e cursos técnicos. A promessa é entregar o diploma, falsificado, em até dez dias úteis, em todo o Brasil.
Nossa equipe entrou em contato com uma dessas empresas, a Sucesso Corp, de São Paulo. Quem atendeu foi uma pessoa chamada Marcos, de voz rouca, assegurando seriedade e firmeza do timbre durante o repasse de informações. Pedimos se era possível a venda de um certificado do curso de Medicina. O atendente, Marcos, prontamente respondeu que sim, e que custaria em torno de R$8 mil.
Mas antes de garantir o serviço, o “vendedor”, afirmou que precisaria fazer um levantamento e pediu para que retornássemos a ligação por volta das 10h da manhã seguinte. Firmado este acordo, ficamos de ligar novamente à empresa, na manhã de terça-feira, 05 de fevereiro, na espera de uma resposta positiva para o “tão sonhado”, diploma do curso de medicina.
Pontualmente às dez da manhã, a ligação para São Paulo foi feita e pedimos para falar com Marcos, que prontamente nos atendeu. O custo ficaria nos mesmos R$8 mil, valor passado na tarde anterior e que precisaria ser pago à vista. O prazo de entrega, como anunciado no site, dez dias.
Questionamos a origem do diploma, de qual universidade seria e se poderíamos apresentar este documento ao Conselho Regional de Medicina (CRM), para efetuar o cadastro de registro profissional no CRM de Santa Catarina.
Ele afirmou que não haveria problema, que a qualidade do diploma é inquestionável e que ninguém registrou qualquer aborrecimento.
Desligamos, com a promessa de retornar mais tarde, assim que houvesse uma posição do dinheiro que estava sendo levantado, para efetuar a quitação do falso diploma.

Como funciona o esquema ilegal – Depois de acertar o curso, é preciso enviar documentos escaneados à faculdade indicada pelo negociador e pagar um sinal de 60% do valor total. Na própria instituição de ensino é feito o encaixe e de lá é enviado para o MEC. Em um prazo de dois a três dias, o MEC dá o parecer favorável. E em até sete ou oito dias é feita a publicação. Em seguida, o documento falso é enviado ao comprador. Além disso, ainda há a possibilidade de o comprador escolher a universidade pela qual o documento falso será emitido

Profissionais diplomados e universitários repudiam venda de diplomas – Luiz Carlos Cristiano Heidrich, formado em Educação Física e ex-diretor da rede municipal de ensino, diz que essa é uma situação vergonhosa, para um país como o Brasil. “Eu mesmo me comprometi na época da faculdade, estudava e trabalhava. Muitas vezes não conseguia almoçar por causa da correria de horários. Além disso, sou pai e meus filhos se comprometeram com a Educação. Ter um diploma, é um sinal de merecimento e esforço, de reconhecimento; não só pela questão financeira, mas também pela realização pessoal”, comenta.
Além disso, Heidrich ainda relata que no caso de profissionais de educação física, que não tenham o conhecimento didático e prático da profissão, podem gerar prejuízos sérios à saúde das pessoas. “Exercícios feitos sem a devida orientação profissional diplomada, podem causar problemas na coluna, de postura entre outros incômodos que no futuro, podem acarretar em uso de prótese ou até de cadeira de rodas”, explica.
Jennifer Scolari, formada em Publicidade e Propaganda, conta que durante cinco anos trabalhou na instituição da Uniasselvi, a mesma onde se formou. Neste período, por dois anos, foi estagiária da faculdade, onde se dedicou ao máximo para conseguir ser registrada e ganhar uma bolsa de 50% de desconto na mensalidade, pois na época não tinha condições de pagar o valor de forma integral.
“Nos últimos anos, durante o período de aulas da faculdade acordava às seis horas da manhã e pegava dois ônibus para chegar no meu local de trabalho. Levava de casa, comida para almoçar e lanche para comer antes da faculdade. No fim do dia, após as aulas, pegava uma van e voltava a Pomerode. Como a van não ia até a minha residência e eu não disponibilizava de dinheiro para ter um carro na época, minha sogra buscava meu marido e eu no Centro; por isso muitas vezes chegávamos perto das 23 horas em casa. Para realizar os trabalhos da faculdade, se não tínhamos como fazer nos finais de semana, usávamos o nosso período de almoço e se caso não conseguíssemos terminar, teria de ser concluído a noite, após chegar em casa”, relembra.
Segundo Jennifer, “hoje em dia, com toda a tecnologia que temos a nossa disposição, é muito fácil procurar na internet um diploma de faculdade e pagar em torno de R$ 400,00 pelo mesmo”.
Na opinião da publicitária, as pessoas que fazem isso não tem conhecimento que o diploma em papel não tem valor nenhum. O que tem valor é o conhecimento que se adquire durante a faculdade. Ela ressalta ainda que a experiência que se tem, trabalhando na área escolhida, só terá validade, se o embasamento teórico adquirido na formação for levado muito a sério, pesquisado e analisado. E para isso acontecer é preciso, cursar dia após dia, este período importantíssimo que é a graduação.
“E posso dizer que durante os meus três anos e meio de faculdade fui a pessoa mais feliz do mundo, pois além de adquirir o conhecimento que criei na área em que escolhi e amo, conheci pessoas maravilhosas. Durante este período conheci meu marido pelos corredores da faculdade, criei novos amigos que carrego para a vida toda, inclusive alguns deles são padrinhos e madrinhas do meu casamento, pois eles estavam juntos comigo batalhando, acordando cedo, vindo de outras cidades, tudo para aprender como se tornar um publicitário de verdade e não simplesmente comprar um papel, onde está escrito diploma”, desabafa.

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