Fila por transplante de córnea cresce 15% no Brasil e já reúne 37,7 mil pacientes
Mesmo com recorde de 17.790 cirurgias realizadas em 2025, tempo médio de espera chegou a 370 dias; dados foram apresentados durante congresso de oftalmologia
Foto: Divulgação/HFB
Atualmente, 37.719 pessoas aguardam por um transplante de córnea no Brasil, segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). O número representa um crescimento de aproximadamente 15% em relação a dezembro de 2025, quando 32.639 pacientes estavam na fila.
O aumento ocorre mesmo diante de um cenário considerado histórico para os transplantes de córnea no país. Em 2025, foram realizadas 17.790 cirurgias, o maior número já registrado no Brasil.
Segundo o CBO, o cenário revela um paradoxo: apesar de o sistema nacional operar próximo da autossuficiência teórica considerando o fluxo anual, a lista de espera ativa continua crescendo em razão do ritmo de novas indicações médicas.
Como consequência do passivo acumulado ao longo dos anos, o tempo médio de espera também aumentou. Atualmente, um paciente leva cerca de 370 dias para realizar o transplante de córnea. Há dez anos, a média era de 174 dias — ou seja, a espera atual é mais que o dobro da registrada naquele período.
Pandemia e custos estão entre os desafios
Para o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, o crescimento da fila é resultado de uma combinação de fatores. Entre eles estão a falta de reajustes nos valores pagos pelos procedimentos e os efeitos provocados pela pandemia de covid-19.
Entre 2020 e 2023, houve um represamento de pacientes devido à suspensão de procedimentos eletivos, incluindo transplantes de córnea. A redução foi especialmente expressiva em 2020, quando foram realizados 7.349 transplantes, menos da metade dos 14.942 procedimentos registrados no ano anterior.
Outro desafio está relacionado à manutenção dos bancos de olhos. De acordo com os especialistas, os custos dos insumos utilizados no processo são cotados em dólar, aumentando as despesas dessas estruturas.
O CBO também aponta o aumento das exigências nas etapas de produção e processamento das córneas, incluindo requisitos relacionados à gestão da qualidade.
A entidade avalia que a combinação desses fatores compromete a sustentabilidade financeira dos bancos de olhos, que, segundo o conselho, recebem valores semelhantes aos praticados há uma década, apesar do aumento das exigências previstas na legislação.
Número de transplantes bate recorde
Depois do forte impacto causado pela pandemia, o número de transplantes de córnea voltou a crescer ano após ano.
Foram 12.869 procedimentos em 2021, seguidos por 14.082 em 2022, 16.028 em 2023, 17.108 em 2024 e, finalmente, 17.790 transplantes em 2025, o maior volume da série apresentada pelo CBO.
Apesar da evolução, o aumento das novas indicações médicas mantém a fila em crescimento.
Ceará se destaca pela agilidade
Entre os estados brasileiros, o Ceará aparece como um dos principais exemplos de agilidade na gestão da fila. Em 2025, foram realizados 1.371 transplantes no estado.
No mesmo período, 1.639 novos pacientes ingressaram na fila. Ainda assim, o Ceará encerrou dezembro com apenas 93 pessoas ativas aguardando pelo procedimento, resultado atribuído à alta rotatividade do sistema.
O Mato Grosso também apresenta uma fila reduzida, com apenas 37 pacientes aguardando o transplante.
No extremo oposto está o Rio de Janeiro. O estado realizou 653 transplantes em 2025, mas recebeu 1.720 novos pacientes na fila durante o mesmo ano. Com o desequilíbrio entre entradas e procedimentos, a lista fluminense terminou dezembro de 2025 com 4.760 pacientes ativos.
Entre os estados mais populosos, São Paulo concentrava a maior fila absoluta, com 7.505 pacientes ativos em dezembro de 2025. Minas Gerais aparecia na sequência, com 4.532.
Apesar dos números elevados, os dois estados apresentam uma relação entre fila e quantidade de transplantes considerada mais equilibrada em comparação ao cenário do Rio de Janeiro.
Já Amapá e Roraima não registraram nenhum transplante de córnea em 2025.
Brasil mantém bom desempenho internacional
Apesar dos desafios internos, especialistas do Conselho Brasileiro de Oftalmologia consideram que o Brasil mantém uma avaliação positiva no cenário internacional.
De acordo com o CBO, o desempenho brasileiro é comparável ao de países como Canadá e Austrália, além de algumas nações europeias.
Na América Latina, o país também aparece como destaque, apresentando desempenho superior ao registrado por Argentina, Chile, Colômbia e México.
Idosos representam quase metade da fila
O perfil dos pacientes que aguardam por um transplante de córnea também chama atenção.
As mulheres representam 56% das pessoas na fila. Já em relação à faixa etária, pacientes com 65 anos ou mais correspondem a 47% do total.
Segundo o CBO, o cenário está relacionado ao envelhecimento da população e ao aumento da ocorrência de doenças degenerativas da córnea.
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A fila de crianças e adolescentes também cresceu. Atualmente, o Brasil possui 753 pacientes infantojuvenis ativos aguardando um transplante de córnea, contra 616 registrados em dezembro de 2025.
Pandemia contribuiu para formação da fila
O ano de 2020 foi decisivo para a formação do cenário atual. Com a pandemia de covid-19, medidas sanitárias levaram à suspensão de cirurgias eletivas, incluindo transplantes de córnea, como forma de preservar leitos hospitalares para o atendimento de pacientes com a doença.
Naquele ano, foram realizados 7.349 transplantes — uma queda significativa em relação aos 14.942 procedimentos de 2019.
A retomada, porém, foi gradual. O número chegou a 12.869 em 2021 e continuou crescendo nos anos seguintes, até alcançar o recorde de 17.790 transplantes em 2025.
Dados são debatidos em congresso
O cenário dos transplantes de córnea no Brasil está entre os temas discutidos no 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia (CBO 2026), realizado em Salvador até este sábado (12).
O encontro reúne especialistas para discutir os principais desafios da oftalmologia e temas relacionados à saúde ocular no país.
Fonte: Agência Brasil