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Experiências que ficarão para a história

Comandante do Corpo de Bombeiros Militar de Blumenau, na época, conta histórias que vivenciou na tragédia de 2008

28 de novembro de 2018

A equipe de reportagem do Jornal de Pomerode, esteve na Prefeitura de Blumenau, para conversar com o coronel Carlos Menestrina, que estava no comando do Corpo de Bombeiros Militar da cidade, durante a tragédia de 2008. Ele contou as experiências vividas naquela ocasião, que ficou na história de Blumenau e região. 

Confira alguns trechos da entrevista. 

Jornal de Pomerode – Quem foi Carlos Menestrina, na catástrofe de 10 anos atrás?

Carlos Menestrina – Eu era comandante do 3º Batalhão do Corpo de Bombeiros Militar, tinha acabado de retornar de Florianópolis e estava na gestão de todo o efetivo que estava sob responsabilidade do batalhão, em toda região do Vale do Itajaí.

JP – Como foi vivenciar e fazer parte de algo que ficará na história de Santa Catarina?

CM – Foi extremamente complexo e algo de muita responsabilidade. Tanto a Prefeitura, quanto a Defesa Civil e instituições de resgate, não tinham um precedente na história, deste tipo de resgate, no Estado. A nossa preparação, estava mais voltada à evolução das águas, enchentes e enxurradas, que aí sim, já haviam acontecido em nossa cidade e, também, na região. Toda nossa tropa estava preparada, bem qualificada, com equipamentos prontos para o enfrentamento de enchentes. Mas, em 2008, fomos surpreendidos com uma tragédia climática um pouco diferente, com grande presença das movimentações de massa, e isso nos trouxe algumas dificuldades. Até nós entendermos aquele processo geológico que se apresentava naquele momento, demorou um pouco. Porém, como o nosso plano de ação, tem a definição de distribuição de efetivo em solo, conseguimos mover nossa equipe de resgate em Blumenau e nas cidades da região, fazendo frente aos problemas da comunidade.

JP – Quando que você percebeu que a situação estava fora do normal?

CM – O prefeito, João Paulo Kleinübing, que estava exercendo o mandato em 2008, foi até o quartel, no sábado dia 22, nos questionando como que estava situação. E, eu respondi que tínhamos uma previsão de uma enchente de 11,5m. Inclusive, naquele momento, eu estava elaborando um relatório, para informar o Corpo de Bombeiros Militar de Florianópolis, que o plano de ação já estava pronto e que estávamos preparados para absorver todo o possível caos. O prefeito me agradeceu, saiu e, duas horas depois, recebi uma informação de que o prefeito havia ficado ilhado na rua Araranguá e depois, às 17h, morria a primeira pessoa vítima de deslizamento, no mesmo local, uma menina de cinco anos. Às 20h, na Rua Eça de Queiroz, houve uma queda de barreira, que destruiu várias casas, ocasionando mais um óbito, de um jovem de 15 anos. A partir dali, após a tentativa de resgate desse adolescente, que não tivemos sucesso, houve uma proliferação de outros deslizamentos, em vários bairros da cidade. Então, liguei pro prefeito e disse. “Nós não estamos enfrentando uma enchente. Estamos enfrentando um processo geológico muito complexo, com movimentação de massa, que está resultando em vítimas”. Foi aí que o Kleinübing me convocou para assumir o Gabinete de Crise, que tinha a função de coordenar todas as ações e identificar as áreas afetadas, para atendê-las com todas as forças possíveis.

JP –Qual foi o momento mais crítico que vocês enfrentaram?

CM – Chovia muito no sábado e no domingo. Nós tínhamos 12 comunidades totalmente incomunicáveis, tínhamos vítimas fatais, orientamos os profissionais que lá estivessem, que fizessem o enterro das pessoas no local, de forma provisória, para, depois, poderem fazerem o velório de maneira digna. As comunicações estavam se fechando, não tínhamos mais passagem, os helicópteros não conseguiam voar em função da forte chuva. Eu tinha como temor, se aquela situação continuasse por mais um dia, ela poderia perder totalmente o controle. Mas, graças a Deus, na segunda-feira, a chuva reduziu e conseguimos sobrevoar as áreas, para tomar o conhecimento da realidade, levar mantimentos e medicamentos e realizar os resgates.

JP – Qual foi a cena mais marcante que você presenciou?

CM – Um senhor, que estava morando em área de risco, veio até a Prefeitura e pediu para falar comigo, pois havia recebido uma notificação para abandonar o local. Ele disse que era tudo o que ele tinha, cuidava de cinco filhos e que não podia sair de lá. Então, pedi para um fiscal ir com ele para verificar, novamente, o local. Quando chegaram por lá, a casa estava caindo. E tive que dizer para ele que teríamos que tirar a família dali, contra a vontade dele, para preservar as suas vidas. E prometemos devolver um lar para que aquele senhor pudesse ter de volta a sua dignidade. Esses, são momentos difíceis, pois é natural que a pessoa se apegue com aquilo que construiu.

JP – Agora, à frente da Defesa Civil de Blumenau, o que mudou de lá para os dias de hoje?

CM – Digo que 2008 foi a transformação dos órgãos públicos, relacionados à Defesa Civil. Até 2008, Blumenau era referência internacional em estrutra de uma Defesa Civil. Nós estávamos preparados e treinados para enfrentar as enchentes.  E como fomos surpreendidos naquele ano, nós tivemos que nos reestruturar, não só em Blumenau, mas também em outros municípios, principalmente os menores, que deram mais importância para o setor de Defesa do Cidadão. Blumenau passou a ser referência novamente após a tragédia, pois foi o segundo município do país a ter uma equipe de geólogos. Nós temos uma diretoria de geologia que faz vários estudos do nosso solo, temos um sitema de alerta e monitoramento do clima, o AlertaBlu. A evolução foi notória e obrigatória.

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