Escrever continua sendo humano: o desafio de ensinar português na era da IA
Professora de Pomerode, Henriette Luise Steuck, compartilha as mudanças no modo como os alunos escrevem e interpretam textos com a popularização da Inteligência Artificial e reforça a importância de refletir, ler e pensar com autonomia
Foto: Envato Elements / Imagem ilustrativa
A sala de aula, há muito tempo um espaço de papel, lápis e ideias, agora divide lugar com algoritmos e respostas instantâneas. A Inteligência Artificial (IA) vem transformando não apenas a forma como os estudantes pesquisam, mas também a maneira como constroem conhecimento. Em meio a esse cenário, professores de Língua Portuguesa têm observado novos comportamentos, desafios e oportunidades no processo de aprendizado.
Em Pomerode, a professora Henriette Luise Steuck, com 18 anos de atuação e paixão pela profissão herdada de gerações familiares, acompanha de perto essa mudança. Formada em Letras (Português/Inglês) pela FURB e mestre na área, ela reflete que o papel do educador, hoje, vai além de ensinar regras gramaticais, envolve orientar o uso consciente da tecnologia.
“A IA faz parte de nossa vida e sempre digo ‘dificilmente regrediremos’. Então, temos que aceitar a sua presença. Os alunos querem sempre buscar o caminho mais curto, assim, torna-se fácil buscar apoio da IA para as atividades mais rotineiras até as mais complexas. Em termos de produção textual eu tenho, o tanto quanto possível, realizado as produções em sala, porque é importante eles saberem refletir sobre o mundo e alinhar a própria opinião sem apoio tecnológico”, conta Henriette.
Segundo a pesquisa TIC Educação 2025, divulgada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), sete em cada dez estudantes do ensino médio que utilizam a internet já recorrem a ferramentas de IA generativa, como ChatGPT e Gemini, para realizar pesquisas escolares. Ainda assim, apenas 32% afirmam ter recebido orientação nas escolas sobre como utilizá-las de forma responsável.
No ambiente escolar, Henriette relata que, embora o uso de celulares seja restrito, os alunos recorrem à IA sempre que precisam realizar trabalhos de pesquisa. “Já vi alguns alunos sabendo usar como uma ferramenta de estudo ao pedir, por exemplo, que a IA elabore um resumo sobre o conteúdo de uma prova. E certo de que o aluno elaborar o próprio resumo seria muito mais eficiente, mas não deixa de ser um recurso válido se bem aproveitado”, comenta.
Para a professora, o maior desafio está na lacuna entre o aluno e o conhecimento. “Muitos alunos perderam a capacidade de construção do conhecimento, pois hoje recebem tudo muito pronto. Não há necessidade de pensar, basta deslizar os dedos por uma tela. Além disso, como falei, é um recurso incrível, mas é necessário que se saiba usá-lo, pois a IA não acerta sempre, aliás, erra muito, mas só consegue perceber aquele que tem conhecimento para confrontar o que a IA entrega”, afirma.
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Ela explica que, ao ler um texto, é possível perceber quando há interferência da IA, seja pelo vocabulário sofisticado demais ou pela estrutura frasal muito elaborada. “Um aluno que sempre produziu textos com vocabulário mais básico não vai adquirir um vocabulário elevado de uma hora para outra. Até mesmo nas construções frasais, aquilo que é fruto da tecnologia soa sempre mais artificial”, diz.
Apesar das preocupações, Henriette acredita que a Inteligência Artificial pode ser uma aliada no ensino da língua, desde que usada com propósito pedagógico. “A IA pode servir, por exemplo, para o aluno encontrar maneira de melhorar alguma produção textual, deixar seu texto mais bem estruturado, por exemplo. Não se trata de apenas pedir que a IA produza o texto, mas, a partir de uma produção autoral do aluno buscar oportunidades de melhorar a escrita”, reforça.
Quando o assunto é leitura, ela demonstra esperança:
“Eu ainda tenho muitos alunos leitores e isso é admirável! A leitura abre portas gigantes e ‘salva vidas’. Estamos percorrendo caminhos tortuosos nesse âmbito, mas a leitura não é apenas algo a ser ensinado na escola. A leitura e um hábito que precisa ser cunhado na família, pelo exemplo. Se os pais repousam com o celular nas mãos, o filho vai querer a mesma regalia. Mas se a pausa é para leitura ele vai perceber o tanto de oportunidades que encontra nas páginas de um livro. A leitura e um hábito antigo que precisa ser resgatado”, ressalta a professora.
Enquanto a tecnologia avança em ritmo acelerado, o desafio dos educadores segue sendo o mesmo: formar alunos críticos, leitores e autores do próprio pensamento.