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Em uma semana, cinco mulheres são vítimas de feminicídio em Santa Catarina

Crimes ocorreram em cinco municípios catarinenses e envolveram companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Mapa do Ministério Público aponta que o término de relacionamentos está entre os principais fatores associados aos assassinatos

30 de outubro de 2026

Luciana Menta, Daiana Gisele Müller, Marlei Nunes, Franciele Aparecida de Lima e Isabel da Silva Pereira - Foto: Redes sociais/Reprodução

Em apenas sete dias, cinco mulheres foram assassinadas por homens com quem mantinham ou haviam mantido relacionamentos afetivos em Santa Catarina. Os crimes ocorreram em cinco municípios do estado e deixaram famílias devastadas, incluindo crianças que perderam suas mães. Diante da sequência de casos, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) chama a atenção para padrões de violência já identificados pelo Mapa do Feminicídio, diagnóstico lançado em março deste ano.

Os assassinatos foram registrados entre os dias 20 e 28 de outubro, em Ipira, Faxinal dos Guedes, Vargem, Cocal do Sul e Indaial. Apesar das diferentes circunstâncias, os episódios apresentam características em comum, como o envolvimento de companheiros ou ex-companheiros e a ocorrência em municípios de pequeno porte.

O primeiro caso aconteceu em Ipira, no dia 20 de outubro. Um homem arrombou a residência da ex-companheira, matou a mulher e levou o corpo até um riacho.

Dois dias depois, em Faxinal dos Guedes, outra mulher foi assassinada pelo companheiro. Após o crime, o homem escondeu o corpo em uma sacola de viagem.

Em 24 de outubro, o terceiro feminicídio foi registrado em Vargem. A vítima foi morta pelo ex-companheiro na presença dos próprios filhos, deixando cinco crianças órfãs.

Já no dia 25, em Cocal do Sul, um homem atirou na cabeça da esposa enquanto ela segurava no colo o neto do casal, um bebê. A mulher chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. O suspeito fugiu após o crime.

O quinto caso ocorreu em Indaial, na quarta-feira, 28 de outubro. A mulher foi encontrada morta dentro da residência do ex-companheiro, que não havia sido localizado até a divulgação das informações pelo MPSC.

Padrões de violência se repetem

Segundo o Ministério Público, os cinco assassinatos apresentam características que já haviam sido identificadas pelo Mapa do Feminicídio. O estudo busca compreender as circunstâncias desses crimes, incluindo os fatores que antecedem os assassinatos de mulheres por razões de gênero.

De acordo com a coordenadora-geral do Núcleo de Enfrentamento às Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT), promotora de Justiça Chimelly Louise Resenes Marcon, os casos recentes demonstram que os fatores de risco apontados pelo diagnóstico continuam presentes no cotidiano catarinense.

“O Mapa mostra que o feminicídio não acontece de forma aleatória. Existem padrões que se repetem e que nos permitem identificar situações de risco antes que elas cheguem ao extremo da morte”, afirma.

Para a promotora, o principal desafio está na prevenção e na proteção das mulheres antes que a violência chegue ao desfecho fatal.

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“O sistema de justiça tem conseguido identificar, processar e condenar os agressores. O problema central está em outra etapa: a prevenção e a proteção das mulheres antes que a violência alcance seu desfecho mais grave”, destaca.

A antecipação desses crimes depende da identificação de situações de risco e da interrupção dos ciclos de violência. Para isso, o MPSC defende uma atuação integrada entre assistência social, saúde, educação, segurança pública e sistema de Justiça.

Término do relacionamento aparece como principal fator

Os dados do Mapa do Feminicídio revelam que grande parte dos assassinatos acontece dentro de relações íntimas de afeto, frequentemente em momentos de rompimento.

Em 45,8% dos casos analisados pelo estudo, o término do relacionamento foi apontado como o fator que desencadeou a agressão fatal.

Outras circunstâncias identificadas foram:

  • 24,4%: desentendimentos diversos;
  • 12,5%: ciúmes;
  • 4,6%: suspeitas de traição;
  • 1,7%: disputas patrimoniais.

Segundo Chimelly, os números ajudam a compreender por que o risco de violência pode aumentar quando uma mulher decide encerrar um relacionamento.

Por trás desses crimes, explica a promotora, existe uma lógica de controle e posse sobre a mulher, sustentada por padrões culturais historicamente construídos.

“Quando um homem mata uma companheira ou ex-companheira porque não aceita o término da relação, ele está transformando a autonomia dela em motivo para punição”, afirma.

Municípios menores enfrentam desafios na proteção às mulheres

Outro aspecto observado nos cinco casos é que todos ocorreram em cidades de pequeno porte. Conforme o Mapa do Feminicídio, mulheres que vivem em municípios com menos de 50 mil habitantes enfrentam vulnerabilidades específicas relacionadas ao acesso a serviços especializados e estruturas de proteção.

Isso não significa necessariamente que exista mais violência nessas localidades, mas que o atendimento pode ser mais distante e concentrado em polos regionais, dificultando respostas rápidas diante de situações de risco.

Por esse motivo, o MPSC destaca a importância de fortalecer as redes locais de atendimento, capacitar os profissionais e estabelecer fluxos eficientes de comunicação e acompanhamento das vítimas.

A proteção depende da integração entre os diferentes serviços públicos, para que os sinais de violência sejam identificados e enfrentados antes que resultem em novas mortes.

Feminicídios deixam marcas em crianças e famílias

Além das cinco mulheres assassinadas, os crimes deixaram consequências profundas para familiares e comunidades.

Em Vargem, cinco crianças perderam a mãe. Em Cocal do Sul, um bebê estava no colo da vítima no momento do disparo. São situações que demonstram como a violência contra a mulher também atinge diretamente crianças e outros familiares.

Para Chimelly, o enfrentamento ao feminicídio exige mudanças culturais que promovam o respeito, a igualdade e a autonomia das mulheres.

“Prevenir o feminicídio significa ensinar que relacionamentos não pressupõem posse, que o fim de uma relação precisa ser respeitado e que homens e mulheres têm os mesmos direitos à autonomia e à realização de seus projetos de vida”, ressalta.

Como denunciar casos de violência contra a mulher

Mulheres que sofrem violência ou pessoas que presenciam situações de agressão podem procurar ajuda pelos seguintes canais:

  • 180: Central de Atendimento à Mulher;
  • 190: Polícia Militar, em situações de emergência;
  • 197: Polícia Civil.

Também é possível procurar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) ou os canais oficiais do Ministério Público de Santa Catarina, por meio do NEAVIT da sua região.

As denúncias podem ser feitas por telefone, e-mail ou presencialmente, com garantia de sigilo.

 

Fonte: Ministério Público de Santa Catarina.

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