Em prol da vida
Mal a reportagem do JP chegou à base do SAMU, um toque de telefone apreensivo disparou e o motorista socorrista anunciou num tom sério e grave: ocorrência.
Mal a reportagem do JP chegou à base do SAMU de Pomerode, um toque de telefone apreensivo disparou e o motorista socorrista, Joel do Santos, anunciou num tom bastante sério e grave: Ocorrência.
Enquanto a enfermeira e coordenadora da base, Bruna Caroline de Souza, consolidava o atendimento, que vem da central do SAMU em Blumenau, Joel e o técnico em enfermagem Élcio Moreira da Silva se preparavam rapidamente, a equipe tem poucos minutos para deixar a base e chegar ao local da chamada. Entramos na ambulância, um veículo bem equipado e em boas condições. Sirene ligada, cintos de segurança apertados, saímos em direção a Testo Alto para um atendimento clínico de uma senhora de 69 com câncer de estômago.
Quem entra numa ambulância em resgate pela primeira vez pode se sentir um pouco apreensivo. O tempo é curto e o motorista precisa desafiar as leis da física, fazendo por vezes, caber dois corpos (neste caso veículos) num mesmo espaço. Andar de ambulância é fazer o oposto do que nos ensinam na autoescola: ultrapassagem perigosa na contramão (com os carros da pista contrária desviando de você, veja só), alta velocidade, avanço de semáforos e muitos solavancos (especialmente para quem vai na parte traseira), em alguns momentos, temi que um acidente pudesse acontecer, mas Joel tem experiência na área. Ele trabalhou como bombeiro por seis anos, dos quais cinco, como voluntário, e está há dois no SAMU. Nada nos aconteceu…ufa!
Em menos de cinco minutos, chegamos à rua Testo Alto e avistamos um senhor fazendo sinal para indicar a rua. Entramos à direita e tão logo chegamos à residência da senhora. A família estava à porta, estavam preocupados. A equipe adentrou a casa com pressa. A paciente estava na sala, deitada no sofá, tinha um olhar distante e expressão de tristeza, cansaço e desolamento, mas estava consciente. Os primeiros procedimentos foram iniciados: aferição de pressão, temperatura, batimentos cardíacos, frequência respiratória, índice de glicemia. A senhora estava mal, desde o dia anterior. Ela não falava, a barriga muito inchada. A afilhada disse que havia ficado assim de um dia para o outro. Não conseguia se alimentar e apenas vomitava, mas não enquanto estávamos lá. Élcio pediu para olhar um pano em que haviam limpado o vômito, tinha uma coloração escura, mas um rápido teste com água oxigenada constatou que não era sangue…menos mal.
A paciente foi medicada com soro e remédios para dor e enjoo. Nessas situações, o técnico em enfermagem, após os procedimentos, liga para o médico regulador, é ele quem dá o aval se o paciente deve ou não ser encaminhado ao hospital (os socorristas apenas cumprem a ordem), e a senhora desse atendimento foi. A maca foi trazida para dentro da casa e a senhora transportada. A afilhada foi junto, contou que o câncer já fazia parte da família há dois anos.
Élcio dessa vez foi na parte de traz da ambulância, acompanhando os sinais vitais da paciente. Joel passou um rádio para a central para avisar sobre a saída. Cada vez que a ambulância sai de um ponto, a central precisa ser avisada, a operação é bastante controlada, é visível o poder da central sobre a base. A ida ao hospital foi amena, sem correria, chegamos e a central novamente foi avisada. A senhora foi encaminhada ao médico. Lá, Élcio preencheu formulários e logo estávamos de volta à base.
A ambulância foi organizada pelos socorristas para o próximo atendimento, e após a tensão baixar, iniciamos uma conversa para conhecer os seres humanos por trás dos uniformes grossos, EPIs (equipamentos de proteção) e de atitudes bastante seguras.
Joel tem paixão pelo trabalho, além de atuar na região de Pomerode, também é técnico de regulação médica em Blumenau. Ele atende as ocorrências e repassa ao médico regulador, que decide, com base em um questionário de perguntas que faz a quem está do outro lado da linha, se manda uma ambulância para o local solicitado As vezes acontece de alguém ligar solicitando o atendimento e o médico não acha necessário mandar, então a pessoa liga novamente e insiste, passa mais informações e então o médico libera o socorro. Quando chegamos ao atendimento somos nós quem estamos dando a cara a tapa e os pacientes acham que existe má vontade de nossa parte quando só estamos cumprindo ordens, lamenta Joel.
O motorista socorrista iniciou suas atividades no corpo de bombeiros como voluntário, por vocação, sente-se bem em ajudar. Gosta do que faz e não é nem pelo salário, diz que poderia encontrar um emprego que pagasse mais, mas não troca. Já presenciou acidentes gravíssimos, no começo se envolvia emocionalmente nos casos, depois ficou mais imparcial. Um dos piores que já viu, principalmente pela dificuldade, foi em dezembro do ano passado quando um caminhão bateu na lateral de um ônibus causando uma queda de ambos os veículos de um morro. A situação ficou feia, o condutor do caminhão ficou por seis horas, preso nas ferragens de cabeça para baixo. Joel acredita que a diferença na vida daquele homem foi o atendimento do SAMU, que o medicou manteve-se ao seu lado. Outra situação bastante complicada foi quando recebeu um chamado e ao chegar ao local descobriu que um homem de aproximadamente 60 anos, havia se envolvido numa briga com a esposa e a assassinou com uma machadada na cabeça. O sangue estava escorrendo por toda parte e a filha estava abraçada a mãe. O marido visivelmente apavorado, fugiu para o mato e foi encontrado horas depois enforcado numa árvore.
Apesar de estar em situações de risco, Joel não sente-se ameaçado na profissão, sua maior preocupação é nos casos de acidente de trânsito, pois quando está em uma pista efetuando o atendimento, os condutores que passam pela via não respeitam, passam a toda velocidade podendo gerar um atropelamento. A esposa o considera corajoso, mas sempre pede cuidado.
Élcio, o técnico de enfermagem, também tem histórias para contar. Há quatro anos no SAMU de Pomerode, já socorreu vítimas de quedas, afogamentos, acidentes de trânsito e queimadura. Os casos mais complicados são os que envolvem paradas cardíacas e respiratórias, nessas situações a porcentagem de reanimação é de apenas 10%. Isso acontece principalmente porque os familiares podem demorar a perceber que o paciente teve um problema e quando chamam pelo socorro já é tarde demais. Em um atendimento, a primeira coisa é avaliar a cena Em acidentes, é preciso perceber qual das vítima precisa receber atendimento prioritário, geralmente é a que está inconsciente, ou quase. As vezes só a dor muito forte pode fazer a pessoa desmaiar, explica.
O técnico já passou por situações em que não conseguiu trazer a vítima de volta e conta que se envolve emocionalmente nas ocorrências sou um ser humano. Após o atendimento, quando a adrenalina abaixa, pensa na situação da pessoa e no que poderia ter feito a mais para ajudá-la. Mas depois reflete que fez todos os procedimentos cabíveis… é a vida. Certa vez, atendeu o caso de um atropelamento de um garoto de 8 que andava de bicicleta após o jantar quando sofreu o impacto e que acabou falecendo no hospital. Nesse dia, Élcio sentiu-se muito triste e ao chegar em casa abraçou fortemente a filha de 7 anos.
Já atendeu muitos casos de surtos psicóticos na região um deles foi o de um jovem, cuja família acionou o atendimento devido a violência causada pelo uso de drogas. Os socorristas chegaram até o rapaz e ele conseguiu convencê-los de que estava bem e que estava sofrendo perseguição da família. O SAMU foi embora mas teve de ser acionado novamente instantes depois, o rapaz surtou e começou a quebrar a casa toda, dando marretadas por todos os lados. Quando um chamado implica em surtos violentos, a polícia militar costuma ser acionada para participar do atendimento. Apenas eles têm o direito de atuar de maneira mais brusca para frear o paciente.
Esses são casos mais graves, mas as vezes o técnico é chamado por uma suspeita de surto, quando na verdade é apenas alguém vivendo um problema de fundo emocional, então os socorristas acabam fazendo a vez de psicólogo. Um caso curioso que tivemos foi o de um jovem, usuário de drogas e esquizofrênico que tentava serrar a própria cabeça, pois acreditava que alienígenas haviam implantado um chip. A solução foi entrar na conversa dele para convencê-lo a ir até o hospital para fazer um raio-x do chip, para assim, interna-lo numa clínica de repouso, conta Élcio.
Como se fosse cronometrado, assim que terminamos a entrevista o telefone das ocorrências tocou novamente, o SAMU atende cerca de 60 ocorrências durante o mês. Dessa vez era uma jovem de 24 anos. Lá fomos nós de novo. Dessa vez a enfermeira Bruna foi junto, ela conta que as vezes faz o acompanhamento para ajudar e também para checar como o trabalho dos socorristas está sendo desempenhado. Novamente entramos na ambulância. Velocidade, ultrapassagem e novamente chegamos rápido ao local. A paciente trabalhava quando sentiu-se mal. Estava sentada e as aferições foram feitas ali mesmo. Dessa vez os socorristas foram orientados a fazerem o atendimento no local. A jovem entrou na ambulância, foi medicada e ficou em observação e ao fim estava melhor.