Dos males o menor
Em Pomerode, a sensação da última semana foi de alívio. Um sentimento, bem no estilo: escapamos. Mas antes da certeza de que passaríamos imunes, pelo menos no que tange as consequências das constantes e fortes chuvas que assolaram a região sobre o Rio do Testo, a apreensão imperou e deixou…
Em Pomerode, a sensação da última semana foi de alívio. Um sentimento, bem no estilo: escapamos. Mas antes da certeza de que passaríamos imunes, pelo menos no que tange as consequências das constantes e fortes chuvas que assolaram a região sobre o Rio do Testo, a apreensão imperou e deixou os pomerodenses alertas.
O medo de uma nova enchente como a de março estava estampado nos olhos de cada cidadão e autoridade do município e colocava de prontidão as forças de socorro do município e a Defesa Civil em atividade constante.
Todos não desgrudavam os olhos da TV, da internet, os ouvidos do rádio para saber como estava nível do Rio Itajaí Açu, pois o mesmo poderia agravar a situação fluvial daqui de Pomerode.
A cada centímetro que subia o nível em Blumenau e Rio do Sul, aumentava a sensação de que algo trágico aconteceria.
A madrugada de quarta-feira, 07/09, para quinta-feira, 08/09 foi aterrorizante, chuva forte e o medo presente.
Ao amanhecer já se via os primeiros efeitos da forte chuva: alagamento nas áreas mais baixas da cidade e diversos pontos de deslizamento e desbarrancamento. Mas o pior que a chuva não parava. A Secretaria de Educação liberou as crianças das escolas da rede municipal após às 12h, o mesmo acontecendo nas escolas particulares e da rede estadual. Algumas empresas também liberaram os funcionários que trabalhavam em áreas que alagam primeiro quando há a alta do Rio do Testo.
Visitando vários cantos da cidade era possível ver que todos se preparavam para, se necessário, sair de suas casas e minimizar os estragos caso as águas do Testo subissem vorazmente.
Algumas lojas do Centro começaram a retirar seus produtos para não serem pegos de surpresa Mas no fim, tudo terminou bem e, pelo menos para os pomerodenses, não passou de mais um susto.
“Escapamos”
Assim respirou aliviado o diretor de Defesa Civil, Adermar Marquardt, o popular Maluzinho. Segundo ele, apesar de algumas ocorrências registradas, o fato do Rio do Testo não ter atingido a cidade de uma forma universal já é motivo de satisfação.
Porém, Maluzinho garante que o alerta foi constante e que a Defesa Civil teve muito trabalho nesses dias de chuva. “Tivemos vários desbarrancamentos atrás de residências em diversas localidades da cidade e alguns deslizamentos. Porém, apesar da grande incidência, apenas uma família foi retirada na Rua Presidente Juscelino. Eles estavam em área de risco e agora estão alojados no pavilhão da Festa Pomerana. São três crianças e quatro adultos”, destacou o diretor.
Foram três pontos mais críticos de alagamentos, conforme a relação da Defesa Civil: Rua São Joaquim, Rua dos Atiradores e Rua Lorenz Engel. Já em relação aos desbarrancamentos e deslizamentos, os mais graves foram os ocorridos na Rua Frederico Weege, que deixou o trânsito em meia pista durante toda a manhã de quinta-feira; e atrás da Acaen, ao lado da pista de downhill.
Outro problema em virtude das chuvas, consequência de deslizamento no Morro do Schroeder que atingiu a rede elétrica, foi a falta de energia que atingiu os moradores do Ribeirão Herdt. Foram três dias até que o fornecimento fosse normalizado. Problema similar aconteceu na Rua Rodolfo Sell, em Pomerode Fundos.
Na Serra de Jaraguá do Sul, no trecho pomerodense da SC-416, também foram registrados alguns deslizamentos, porém de pequenas proporções.
Já na outra rodovia que dá acesso à cidade, a SC-418, os problemas apresentados foram no bairro blumenauense, do Badenfurt. Lá, um ribeirão transbordou e impediu o tráfego, obrigando a quem se dirigia para Blumenau usar o acesso pela Itoupavazinha.
Passado o susto
Após a apreensão com o medo de uma nova tragédia, agora é o momento de a Defesa Civil realizar trabalhos de fiscalização, prevenção e, junto à Secretaria de Obras, de recuperação. Porém, também é o momento de pensar no futuro e tentar emplacar projetos que possam minimizar os efeitos da chuva quando elas novamente atingirem a cidade. “Agora precisamos focar nas vistorias e analisar as áreas atingidas e as que correm risco, pois o solo permanece muito encharcado. O Morro da Turquia será um dos locais que iremos verificar”, disse Maluzinho.
As cabeceiras das pontes também são uma preocupação da Defesa Civil. Primeiro porque já haviam sido bastante prejudicadas na enchente de março e agora voltaram a ser exigidas por causa do grande volume de água e da correnteza nos rios e ribeirões da cidade.
Outra preocupação é fazer os enrrocamentos de beira de rio. Segundo o diretor de Defesa Civil, caso isso não seja feito, com novas chuvas, pode haver danos à pavimentação das vias. “São dois pontos que precisaremos fazer os reparos na Rua Luiz Abry e um na Frederico Weege. Ou fazemos isso agora ou perderemos a estrada”, alertou Maluzinho.
Recursos
Há pleitos de recursos para a recuperação de danos ocorridos na enchente de março e agora o poder público de Pomerode precisará requerer algo mais. Porém, sabe-se que o caminho agora será um pouco mais difícil porque será dada prioridade para os municípios que foram mais drasticamente atingidos na semana que passou e declaram estado de calamidade pública ou situação de emergência.
Há requerimentos junto ao Governo do Estado de recursos para o desassoreamento do Rio do Testo e também para recuperação de pontes. Nos dois casos, o governador Raimundo Colombo já havia sinalizado positivamente para as chances de conseguir esses recursos.
Outra luta da cidade é pela conquista da segunda parte dos R$ 5 milhões que serão destinados à macrodrenagem.
Nesta chuva já deu para sentir o efeito dos locais que receberam a obra, como foi o caso do Ribeirão Souto e no Testo Central, próximo ao clube de caça e tiro.
Agora o objetivo da prefeitura é conseguir emplacar o segundo projeto para atender outras áreas.
Formas de encarar o problema
É comum lamentar que algumas áreas não podem ser ocupadas por serem alagáveis, até mesmo a aquisição de terrenos nestas condições geram polêmica e críticas. Recentemente foi bastante discutida, na Câmara de Vereadores, a pretensão da prefeitura de adquirir um terreno para a construção de uma praça, próximo à Escola Hermann Guenther, no bairro Ribeirão Clara.
O que aqui é problema, em outros países pode ser a solução. Um exemplo disso é a cidade de Brisbane, na Austrália. Lá, arquitetos e urbanistas usam o design de forma inovadora e flexível para driblar o problema das enchentes.
A capital do estado de Queensland não constrói muros de contenção e dá as “costas” para o rio, ela se volta para ele e cria espaços públicos que, baixadas as águas, voltam à normalidade, sem danos ao patrimônio público.
Esse é o caso de uma antiga usina às margens do Rio Brisbane que foi transformada em centro cultural e ainda conta com uma escultura do artista Richard Tipping, que faz alusão a uma das intempéries sofridas pela cidade, como forma de manter viva a enchente de 1974.
O local na Austrália pega enchente, mas nem por isso foi desdenhado por aqueles que projetam e interveem na cidade. É preciso apenas adaptá-los, de forma que os equipamentos não sejam danificados quando atingido pelas águas.