Doando-se ao próximo
Cidadãos que descobriram o bem de fazer bem, hoje entendem o significado da frase Solidariedade não se agradece, comemora-se.
Na história do voluntariado, cujo dia internacional é comemorado em 05 de dezembro, o número de pessoas que partem do sentimento para a ação real, tem obtido um aumento considerável, mesmo que ainda longe do desejável.
Cidadãos que descobriram o bem de fazer bem, hoje entendem o significado da frase Solidariedade não se agradece, comemora-se, do sociólogo Herbert de Souza, conhecido como Betinho, que mobilizou a sociedade em torno do combate à fome.
E, em Pomerode, a solidariedade também é uma constante e pode ser observada através de ações de pessoas comuns, mas que transformam o mundo ao seu redor, fazendo o pouco que podem, que para o próximo, às vezes, é muito, é o necessário para uma vida melhor, para uma rotina menos sofrida.
Uma amizade em prol da solidariedade – Amigos do Bem, um grupo formado recentemente e que, com menos de seis meses de existência, já proporciona benefícios imensuráveis para a comunidade em que atua. Foi no dia 30 de abril que tudo começou. Porém, efetivamente, foi em 12 de maio, no hospital de Guaramirim, distribuindo flores, sorrisos, cantando uma música em homenagem ao Dia das Mães, vestidos de palhaço, que aqueles amigos tiveram o primeiro contato com o voluntariado.
Depois da estreia, o sentimento unânime despertou nos integrantes: é impossível parar. E assim foi, com visitas em asilos, orfanatos e instituições de diferentes tipos, que atingem distintos segmentos.
Para uma das amigas do bem, Emili Julia Paludo, de 18 anos, participar do grupo é estar inserida em algo que lhe faz bem, algo que lhe complementa e que ela sempre buscou. Eu sempre quis participar de algum grupo de voluntários e tinha amigos que faziam parte desse projeto. Fui convidada por um deles a participar e estou no grupo há quase seis meses, diz.
A voluntária conta que no início, a criação do grupo teve como base a igreja. O projeto começou com um pequeno número de pessoas, que optava em fazer visitas ao hospital, asilos e lar da criança. Por meio disso, resolvemos participar dos eventos realizados na igreja, levávamos violão, pandeiro, pirulitos. Cada um contribuía com um pouco e a gente fazia um café da tarde para os idosos, crianças ou quem estivesse presente no local. E isso chamava atenção de muita gente, porque o nosso grupo sempre está de portas abertas pra receber mais voluntários. Depois que começamos a interagir com a comunidade, ele cresceu ainda mais, revela.
Conciliando o voluntariado com o trabalho de auxiliar administrativo e a faculdade de Comércio Exterior, Emili explica que levar o mínimo de alegria e conforto para pessoas carentes de afeto ou enfermas, não tem dinheiro no mundo que pague. Eu me sinto completamente privilegiada em poder ajudar o próximo. Às vezes, um simples sorriso pode significar muito pra uma pessoa que está de cama ou que está solitária num asilo. Isso pra mim é muito gratificante, porque eu sei que eu estou fazendo o bem pra eles, e é assim que eles têm que se sentir. Nosso grupo tenta transmitir muito carinho, porque queremos que quem o receba se sinta especial, afirma.
A interação com o público se dá através da caracterização dos voluntários vestidos de palhaço, o que provoca uma reação espontânea nas pessoas assim que eles entram nos locais onde elas estão. O palhaço é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O palhaço não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é uma personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade, destaca.
Emili revela que a sociedade está cada vez menos humanizada, e assim, para ela, dedicar um pouco de seu tempo e atenção, é uma atitude positiva para todos que compartilham destes momentos. Amar ao próximo nunca é demais. Tenho certeza que se cada um tivesse mais tempo pra sair da rotina e fazer o bem, a maioria das coisas erradas mudaria. Tem muitas pessoas precisando de nós, só falta querer enxergar isso, as pessoas carentes vivem num mundo completamente diferente do nosso, elas querem atenção, amor, compaixão. Não custa nada dar o que eles querem. Se plantarmos uma semente agora, daqui alguns anos, a árvore vai estar grande, e cheia de bons frutos, enaltece.
Questionada com relação ao momento que mais lhe marcou como integrante do Amigos do Bem, Emili confidencia a sua grande paixão. O que sempre mexe comigo são os idosos, pois eu sinto que eles precisam de um carinho especial. No último encontro que eu fui, no asilo em Joinville, conhecemos muitos velhinhos, cheguei a ficar emocionada com alguns casos, e impressionada com a quantidade de idosos que moram lá, declara.
Quando se doa puramente a alguém, como o caso do voluntariado, fazer amizades passa a ser uma consequência de tanto amor despendido. Quando cheguei neste asilo, fiz amizade com a Dona Elza. Ela teve AVC e tem o lado esquerdo completamente paralisado. No dia, era aniversário de 103 anos da Dona Ana, levamos café, bolo, salgados, fizemos até uma faixa parabenizando-a, e uma grande festinha, com muita música e alegria pra eles. Na hora do café, Dona Elza pediu pra eu servi-la, mas ela tinha uma dificuldade enorme pra comer, pois tremia muito e isso dificultava sua alimentação, então eu sentei com ela no sofá. Confesso que de primeira ela não foi muito com minha cara, mas quando comecei a ajudar, eu fui tentando saber um pouco mais da vida dela, e ali criamos um vínculo inexplicável, pois a história de vida dela é muito triste, frisa.
A idosa comentou com Emili que se sentia muito sozinha, que não tinha ninguém pra conversar, que tinha poucos amigos dentro do asilo. Fiz de tudo para que ela se sentisse especial e realmente eu consegui. Ajudei-a a ir ao banheiro, a comer, a beber e em troca, eu recebi um abraço forte, juntamente com um: ‘eu quero que tu volte garotinha, adorei a visita de vocês, nós precisamos disso. Eu fico 24h por dia aqui dentro desse asilo, não tenho ninguém para conversar e a visita de vocês me deixou mais feliz. Quando ouvi isso eu realmente cheguei à conclusão de que estou fazendo o bem ao próximo e que para me sentir bem eu preciso disso também. Dona Elza é uma pessoa carismática, carente de amor, de atenção, e eu jamais vou esquecê-la e nem a todos os outros, porque realmente Deus é muito bom, Ele coloca essas pessoas em nossas vidas para a gente poder enxergar a dar valor ao próximo.
O voluntariado como remédio para o sofrimento – Quem passou pela situação diz, sem sombra de dúvidas, que não existe dor pior nesta vida do que a perda de um filho. Nadir Neumann passou por isso. Ela relata que não existe sentimento mais intenso, mas que é possível lidar com a ausência de forma positiva. Quando minha filha contraiu um câncer raro, eu procurei auxílio na Casa de Apoio, em Blumenau. Lá, principalmente crianças e adolescentes em tratamento, encontram suporte para encarar a doença. Lutamos por mais de um ano, mas infelizmente, ela foi vencida pelo câncer e acabou falecendo, diz.
Foi com receio e medo que Nadir e sua filha Bruna foram até a Casa de Apoio. Não sabiam, ao certo, o tipo de auxílio que encontrariam. Quando chegamos lá, cheias de dúvidas e angústias, fomos recebidas pela Tia Nai, com um sorriso enorme, de orelha a orelha, de braços abertos. Sentimo-nos tão acolhidas, que parecia que fazíamos parte daquela família, afirma.
A Casa de Apoio conta com um fisioterapeuta, uma assistente social e uma psicóloga. O restante é todo formado por voluntários. Minha filha foi mimada por eles. Encontrei lá todo tipo de suporte, pra ela e para nós, familiares. Quando a Bruna estava internada no hospital e tinha vontade de comer algo diferente, eles faziam, cozinhavam ou compravam. Muitas pessoas podem pensar que isso é supérfluo, que o necessário é medicamento e tratamento médico. Pode até ser, mas não para quem está em estágio terminal. Isso foi muito importante, pois a deixava alegre, exaltece.
Como consequência da doença, Bruna teve que amputar uma de suas pernas. A família não tinha recursos na época para custear a prótese. Mais uma vez, foi na Casa que o auxílio emergencial foi dado. Estávamos desesperados por não ter recursos naquele momento. A Casa de Apoio pagou a prótese. Depois, o pessoal da escola onde a Bruna estudava se mobilizou. Buscaram auxílio em empresas e entre os alunos e professores. Conseguiram o valor da prótese e me repassaram. Pegamos aquela quantia e devolvemos para a Casa de Apoio, pois eu não achava justo que a verba tivesse outra finalidade, já que, assim como nós precisamos, outras crianças e famílias carentes também necessitavam, conta.
E com tanta ajuda, com tanto carinho, a amizade começou a ser construída. A equipe que trabalha na Casa, voluntários e profissionais, ensinou-se o que é amizade. Hoje a Bruna não está mais entre nós, mas a relação que foi construída não acabou. Posso dizer que tenho lá grandes amigos, pois jamais vou esquecer o que eles fizeram por mim e por minha filha, afirma.
Nadir e Bruna fizeram um pacto, que quando a jovem estivesse curada, mãe e filha seriam voluntárias. Muitos pais entram na Casa e quando não precisam mais, vão embora, não dão mais notícias. Nós não faríamos isso jamais. Eu tenho este compromisso comigo. Fiz um pacto com minha filha e vou cumprir até quando eu puder. Hoje, que ela não está mais aqui, não vou dizer que não choro quando vejo aquelas crianças doentes. Mas logo penso o quanto ela foi feliz naquela Casa. Não tem alegria no mundo que pague eu ver um menino, que está usando a prótese que era da Bruna, trabalhando, se divertindo. Fazer o bem me faz bem. É como se fosse o remédio que preciso para suportar a dor da ausência. Quando ajudo uma criança doente, parece que estou fazendo para a minha filha, ou de certa forma, retribuindo o que fizeram por ela, ressalta.
E mesmo com a cansativa rotina de diarista, Nadir dedica seu tempo livre como voluntária da Casa de Apoio. Vejo que muitas pessoas só pensam em si, que esquecem que ao lado há um alguém em piores condições, com problemas muito mais complicados. Pobre eu também sou, trabalho e batalho para ter o que tenho. Mas não me faz falta ir à noite participar de reuniões e nos fins de semana auxiliar no que é preciso. Quando eu deito em minha cama, tenho o sentimento de dever cumprido, de auxiliar na construção de um mundo melhor. É tão bom ver um sorriso no rosto daquelas crianças que tanto sofrem, que fazem quimioterapia, que estão em cadeira de rodas, que estão carequinhas, diz.
Fazer o bem gera dependência. Hoje Nadir não imagina mais sua vida sem o trabalho voluntário que desempenha. Comecei e hoje não imagino parar. Sei que se um dia, por ventura, precisar de ajuda, em algum lugar desse mundo terá alguém para novamente me fazer o bem, me estender a mão. E é tão bom ajudar. A Casa de Apoio vive do voluntariado. Gostaria muito de um dia ter bastante dinheiro, ganhar na loteria. O meu sonho hoje é construir um hospital infantil para pacientes com câncer. Enquanto o sonho não vira realidade, vou fazendo o que dá pra ser feito, como um passarinho tentando apagar um incêndio na floresta. Se cada um fizer um pouquinho, o mundo será um lugar muito melhor para vivermos, afirma.
Foi lá na Casa de Apoio, em que Nadir atua como voluntária, mesmo após a perda de sua filha, que ela encontrou forças para superar a dor que a consome. Hoje, Nadir não questiona mais Deus por ter levado sua Bruna, pelo contrário, mais forte, mais reconstituída, esta mãe deixa, assim como sua filha, uma verdadeira lição de vida. Penso naquelas mães que perdem seus filhos de uma hora para outra, como por exemplo, em decorrência de um acidente de carro. Elas não conseguem se despedir, não conseguem dizer adeus. Eu não, tive dois anos ao lado da minha filha, após sua doença ser diagnosticada, para dizer a ela tudo o que eu queria e da mesma forma, ela também o fez. Uma vez entrou no meu quarto na madrugada e me chamando de mãezinha, disse o quanto me amava e era feliz por ser minha filha, por ter seus irmãos e por ter ganho um padrasto abençoado, que era para ela como se fosse um próprio pai. Não adianta deixar para depois, para amanhã, as pessoas devem amar mais, ser mais felizes. Devem se preocupar com o que realmente é importante e não com banalidades, finaliza.
Contribuindo através da arte – Impossível falar de voluntariado sem citar as pessoas que são beneficiadas com estas ações altruístas. Neste caso, as instituições beneficentes e de caridade são as mais favorecidas, pois recebem auxílio de verdadeiros anjos, que deixam de lado seus afazeres particulares, amigos e família, para contribuírem com a causa, pelo simples ato de proliferar o bem e minimizar o sofrimento do próximo. Uma das entidades beneficiadas em nosso município é a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), por meio da Escola Especial Criança Esperança, que não mede esforços para que os portadores de necessidades especiais sejam inclusos na sociedade de maneira digna e, principalmente, aceitos mesmo sob as condições adversas que a vida lhes impôs.
Quando falamos da Apae de Pomerode, a imagem da professora Mara Rúbia Maass Fischer, vem logo à mente, pois a sua história e a da associação confundem-se. Realizando trabalhos voluntários há nove anos, ela relata que o maior pagamento é poder fazer bem aos outros e também a si mesma. Suas palavras são fortes e emocionadas, quando retrata o sentimento de ser voluntária. Para mim, o voluntariado é baseado na solidariedade, participação, responsabilidade e cooperação. Esse desejo de ajudar precisa ser gerado pelo impulso solidário, não se tornando uma obrigação. Gosto muito de auxiliar as pessoas e isto faz com que eu cresça espiritualmente, pois é muito gratificante amparar a quem necessita e sentir que o meu trabalho contribui para o crescimento dessas pessoas. Além disso, ser voluntária é ser decidida e criativa, não necessitando pedir licença a alguém para começar a agir. Quem quer, vai e faz, enaltece.
A sua paixão pelo voluntariado iniciou no primeiro bazar da Apae e, segundo ela, virou um hábito. Isso não atrapalha em nada a minha rotina. Posso dizer que eu seria uma pessoa menos feliz se não existisse o voluntariado em minha vida, porque eu não faço por obrigação, mas sim, pelo fato de me sentir bem, declara. Dentre as instituições que Mara auxilia, além da Apae, estão o Hospital e Maternidade Rio do Testo, Corpo de Bombeiros Voluntários e Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, das quais participa de cafés beneficentes, pedágios, coral, atividades culturais e decorações, tudo isso de maneira espontânea. Sempre dou um jeito de conciliar as atividades do dia-a-dia com o trabalho voluntário. É bem corrido, mas quando se coloca amor e dedicação naquilo que faz, o resultado é surpreendente, acrescenta.
Na Escola Especial Criança Esperança, além de atuar como professora de artes, ela realiza atividades extracurriculares para os alunos, como decorações e trabalhos tridimensionais artísticos, os quais prepara em casa, em seu tempo livre, e traz para o ambiente de ensino. Além disso, Mara é coordenadora da disciplina de artes nas Apaes de 11 cidades do Médio Vale do Itajaí há cinco anos, nas quais são trabalhadas a dança, música e teatro, também de forma voluntária. Cada trabalho é marcante, com suas características. Os alunos sempre me agradecem por tudo o que venho fazendo, eles se sentem gratificados e eu me sinto cada vez mais realizada, pois isso me motiva a contribuir ainda mais, relata.
Como se não bastasse o bonito trabalho realizado com os portadores de necessidades especiais, a professora ainda encontra tempo para dedicar-se a outra paixão: a fotografia. Com bastante competência, suas imagens retratam muito bem o dom que possui, unindo paixão e voluntariado. Aos fins de semana, realizo trabalhos fotográficos, como forma de prazer e aprimoramento das técnicas. Costumo realizar ensaios sem cobrar nada, levo adereços e preparo tudo para que as fotos saiam perfeitas. Eu acredito que pessoas, principalmente aquelas que não têm condições, precisam ter acesso a este tipo de produto, por isso, desempenho mais esta função com o maior carinho. Muitos me criticam, mas eu não acho perda de tempo, pois no que eu puder ajudar as pessoas, vou fazer, finaliza Mara.
Voluntariado no sangue – É possível carregar essa característica de ajudar as pessoas dentro de si, por gerações? No caso de Tânia Luize Weh, sim. A colaboradora da Cativa Têxtil viu a sua mãe, Edalina, realizar atividades junto à Paróquia São Ludgero, e atualmente, segue pelo mesmo caminho. Minha filha, Talita, também possui essa veia voluntária, tanto que em São Paulo, onde reside, participa de ONG´s que combatem os maus-tratos a animais. Quando vem visitar a cidade, ela também me auxilia nos trabalhos da Apae. O voluntariado é um presente que você abre devagarzinho, dependendo da preparação de cada um. No meu caso, sou privilegiada em poder contar com a minha família na execução destes gestos tão nobres, conta.
Tânia, que também é colaboradora da Apae de Pomerode, começou com o trabalho voluntário há oito anos, quando surgiu o projeto Cativa Ação, em julho de 2006, idealizado pelo então Gerente de Recursos Humanos da empresa, Vilson Duarte. O objetivo é fazer com que os funcionários e colaboradores pratiquem o voluntariado, ajudando quem precisa e atuando socialmente em Pomerode e cidades da região. Eu já tinha essa pré-disposição, mas ela se manifestou ainda mais nesse período, quando eu me ‘descobri como voluntária. O prazer de fazer este tipo de trabalho é você não olhar para si próprio, mas sim, para o próximo, porque existem muitas pessoas que precisam de ajuda. A satisfação é poder receber um sorriso em forma de agradecimento. É uma coisa que não tem explicação, brota do coração e não há palavras para descrever, comenta.
Outra ação desenvolvida por Tânia é o Projeto Sorriso, que visa humanizar os médicos, fazendo-os atuar e não só como profissionais de saúde, na busca de uma melhor qualidade de vida de seus pacientes. Nascido em Blumenau, dentro da Universidade Regional de Blumenau (Furb) entre os estudantes de medicina, o projeto é baseado no filme Patch Adams – O Amor é Contagioso, de 1998, estrelado por Robin Williams. Este ano, tive a oportunidade de integrar este time maravilhoso. Fazer sorrir as pessoas enfermas é um dos nossos objetivos, para que percebam que a vida tem algo a mais a oferecer do que aquela situação que estão vivenciando. A maior recompensa é ver a alegria no rosto de cada um, reiterando que aquilo é apenas uma situação temporária, esclarece.
Um dos momentos marcantes vividos por Tânia aconteceu na sua primeira experiência dentro do Cativa Ação, quando realizou uma visita ao Centro de Convivência Pommernheim. Naquele momento, a ‘ficha caiu, frente à realidade de que muita gente precisa de algo a mais. Muitos acham que o voluntariado é somente no sentido material, mas o lado espiritual e psicológico deve ser evidenciado também, pois traz algo diferente às pessoas envolvidas. Conciliando as duas coisas, o resultado se torna mais positivo, enaltece, acrescentando que o melhor de tudo é a experiência que o voluntariado proporciona para as pessoas, sendo considerado por Tânia uma filosofia de vida. Você vive com mais prazer quando carrega isso consigo. É uma sensação inexplicável, completa.
Outro fator importante é a sensação que toma conta quando se recebe um carinho, um agradecimento, um sorriso, frente ao trabalho realizado. Segundo Tânia, o retorno que há em seu benefício, sem ter que expandir aos outros, é muito gratificante. As pessoas relatam que o voluntariado desprende muita energia, mas comigo acontece justamente o contrário, pois eu me renovo a cada nova ação realizada, frisa, relembrando outra passagem que ficará para sempre em sua memória. Em outra ação no Pommernheim, uma senhora me agradeceu de uma forma muito singela, entretanto, naquele momento eu não estava esperando um gesto como aquele. Essa cena me marcou demais e novamente eu tive certeza que o voluntariado é parte integrante da minha vida da minha vida. Enquanto ‘papai do céu permitir, vou continuar levando alegria a quem precisa. A experiência adquirida é algo fantástico, pois faz você refletir e acaba ajudando a si próprio, numa verdadeira simbiose. Você aprende muito mais do que ensina, finaliza Tânia.
Um único desejo: ajudar – Há cinco anos, Jonathan Estefan Gustmann efetuou seu primeiro curso de atendimento pré-hospitalar, por conta de seu trabalho como bombeiro em uma empresa blumenauense. E, desde então, tem dedicado suas horas livres a pessoas que, em muitos casos, nem conhece.
E mesmo assim, é isso que Jonathan pretende fazer enquanto consiga, porque para ele e todos os outros Bombeiros Voluntários, não é quem você ajuda que importa, mas sim, o fato de poder auxiliar. O melhor sentimento que alguém pode sentir é o de ajudar ao próximo e saber que suas ações podem salvar uma vida, ressalta.
A função, extremamente nobre e gratificante, é também uma das mais difíceis. Afinal, são em momentos cruciais que os bombeiros são acionados. Seja em um acidente de trânsito, um incêndio ou um atendimento clínico, a ação precisa ser rápida e eficiente para obter êxito.
Quando começou suas atividades na corporação pomerodense, Jonathan sabia que dali não mais sairia. E hoje, morando próximo, não mede esforços para auxiliar mesmo quando não é seu plantão. Moro ao lado dado Corpo de Bombeiros e, em muitos casos, sou chamado para auxiliar em ocorrências mais graves. Venho na hora, enaltece.
Mesmo sendo mais comum atender vítimas de acidentes, foi um encaminhamento hospitalar que mais o marcou. Jamais vou esquecer esta ocorrência, quando um senhor de idade foi abandonado por sua filha no rancho de seu ex-genro. Após alguns meses isolado, fomos chamados para encaminhá-lo ao hospital. E mesmo que ele não conseguisse falar, o agradecimento dele podia ser observado em seu olhar. Além disso, ele foi até o Hospital da cidade segurando a minha mão. Este senhor nasceu no mesmo dia que eu, e isso foi outra coisa que me marcou, frisa.
O maior orgulho de Jonathan ao exercer a função é saber que suas mãos salvarem vidas. Todas as ocorrências em que as pessoas sobrevivem são gratificantes. Somos uma corporação e o trabalho é efetuado em conjunto. Logo, se o atendimento é bem efetuado é resultado do trabalho em equipe, é o dedo de toda a corporação em um salvamento, ressalta.
Além do trabalho da equipe, Jonathan também ressalta a importância da comunidade nos trabalhos efetuados pela entidade. Outra situação que nos chamou atenção e nos comoveu foi um incêndio em Testo Alto, onde toda a comunidade se envolveu e nos trouxe água e alimentos, além de se empenhar em nos ajudar. Nosso trabalho durou a tarde toda, estava muito quente e também contamos com o auxílio de caminhões de terceiros para conter as chamas. Todo esse incentivo e parceria também nos motiva e nos orgulha, afirma.
Jonathan completa dizendo que ser bombeiro não é uma opção, está no sangue. Gosto da frase que diz que você não se torna bombeiro, mas nasce sendo um. Acredito nela e tenho certeza disso, pois exercer esta função não é uma escolha, é mais forte do que você, é gratificante. No entanto, o que mais dói são os momentos em que você não tem mais o que fazer para ajudar, nessas horas me sinto impotente, finaliza.
A grande família formada no Corpo de Bombeiros Voluntários de Pomerode vai além das portas da corporação, ela aumenta a cada socorro prestado com a gratidão de quem recebe o atendimento, mesmo que não possa agradecer.
O ditado diz que os bombeiros são anjos sem asas e sim, eles existem, mas são como nós, pessoas normais. O amor ao próximo é o que os torna especiais.
Um detalhe que faz diferença – Os olhos brilhantes dos moradores do Centro de Convivência do Pommernheim ficam ainda mais em evidência quando Norma Konell Schroeder chega ao local. A cabeleireira faz parte de um grupo de profissionais que cuida, gratuitamente, da beleza dos moradores do Centro.
Há sete anos, Norma efetua esta ação e acredita que fazer o bem aos idosos do local é consequência da necessidade de doação. Atualmente, temos um grupo de salões de beleza que efetua corte de cabelo, cuidados com pé e mão, além de depilação, durante todo o ano. A iniciativa partiu da necessidade de doação que senti, é a lei máxima da prosperidade, é dar para receber, ressalta.
Para alguns, o ato representa apenas o exercício da função de forma voluntária. No entanto, há muito mais por detrás de uma ação que, à primeira vista, parece não ter grande relevância, mas que garante qualidade de vida e transparece um sentimento único: a gratidão.
E se a gratidão é a resposta pela ação, quem a exerce sai ainda mais engrandecido. Estar lá é uma alegria imensa, traz paz interior e você percebe que está fazendo-os felizes, comenta.
A participação de Norma acontece a cada dois ou três meses, por conta do rodízio dos outros salões. E, quando o dia de praticar o bem chega, a segunda família a recebe de braços abertos. Sempre que necessário, eles nos chamam e depois de tanto tempo, já são nossa segunda família. É claro que há casos em que chegamos lá e alguns já partiram. Ficamos tristes, nos apegamos, mas precisamos compreender que faz parte da vida, completa.
Além de passar o dia cuidando dos idosos, Norma afirma que o mais importante é o carinho e a atenção dispensados a eles. É fundamental que eles recebam carinho, atenção e amor. Mesmo que a memória não ajude ou os pensamentos se embaralhem, o tempo dedicado a eles é único para quem os ouve e essencial para quem pode conversar, enaltece.
Para finalizar, Norma faz uma analogia com a parábola do colibri e do elefante, conto este que a faz uma pessoa diferente. A mesma passagem foi lembrada por Nadir, uma das voluntárias entrevistada anteriormente. Sempre me lembro desta história, pois é muito verdadeira. O fato é que a floresta estava pegando fogo e o colibri ia, com seu biquinho, buscar água para tentar apagar o incêndio. O elefante, em contrapartida, zombava do colibri por ele ser pequeno e, nesse caso, ineficiente. Foi então que o colibri respondeu que, ao invés de zombar, o elefante poderia, com sua enorme tromba, fazer muito mais do que ele para conter as chamas e, ao contrário dele, estava fazendo a sua parte. É assim que me sinto, fazendo a minha parte, finaliza.
Unidas por dedicação e amor – Em uma casinha defronte à Prefeitura de Pomerode, um verdadeiro ato de amor e cumplicidade com a comunidade pomerodense se materializa. Quarenta e oito voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer trabalham para que as mulheres possam se conscientizar a respeito da doença, realizar exames e buscar apoio necessário antes, durante e após o tratamento.
O Câncer de Mama é o mais comum entre as mulheres, respondendo por 22% dos casos novos a cada ano. Se diagnosticado e tratado oportunamente, o prognóstico é relativamente bom. E é esta conscientização, de que fazer o exame de toque é importante para salvar vidas, que faz com que a Rede Feminina de Combate ao Câncer de Pomerode atue junto à comunidade, oferecendo serviços na área de prevenção: realizando exames Papanicolau, que prevê o Câncer de Colo de Útero. Também são repassadas orientações referentes a demais tratamentos preventivos, gratuitamente, em local próprio, tendo um ambulatório na sua sede, que conta com uma enfermeira que realiza os exames.
A parte administrativa da Rede é toda formada por voluntárias, que ficam no atendimento, encaminhando para exames, entregando os resultados e recebendo os visitantes. Um destes exemplos é Márcia Mak, que começou a ser voluntária este ano. Ela é dona de um salão de beleza na cidade, mas decidiu dedicar um pouco do seu tempo para fazer o bem a outras mulheres. Ela conta que é importante o trabalho da Rede Feminina, pois é através dele que as pessoas buscam se conscientizar a respeito de doenças como o câncer. Trabalho cerca de uma vez por mês, na recepção da Rede, e considero este trabalho de extrema importância para a comunidade. São muitas mulheres que nos procuram para realizar exames ou obter apoio conta.
Além do atendimento prestado, a Rede Feminina também conta com um grupo de apoio, que é formado pelas voluntárias que atuam na área de apoio moral, promovendo encontros mensais com palestras e destinando atenção a pessoas em tratamento de câncer, em especial, mulheres mastectomizadas (que retiraram a mama). Somente este ano, o grupo ministrou várias palestras através de seu Setor Educacional, em empresas pomerodenses, tendo como tema principal a Qualidade de vida e Prevenção de Câncer.
Elas também fazem visitas aos portadores da doença, com o objetivo de prestar ajuda, indo a suas casas, trabalhando psicologicamente não só com quem está doente, mas com a família, tentando dar orientações, dicas e suporte a todos que estejam precisando.
Uma das fundadoras da Rede Feminina no município, Sílvia Koch, conta que foi a própria experiência que viveu que à levou a fundar a Instituição. Minha irmã tinha câncer e eu acompanhei a luta dela até o fim, a dificuldade em aceitar a doença, o tratamento complicado. Depois que ela faleceu teve também todo o sofrimento da família. Senti na pele toda essa angústia, toda a consternação. A partir disso, decidi que iria me dedicar a cuidar de pessoas que passam pela mesma situação e tentar apaziguar essas dores. Por isso, eu, junto com outras voluntárias, decidimos fundar a Rede Feminina de Combate ao Câncer em Pomerode, para que as pessoas daqui também pudessem ter, não só assistência, como também o carinho que necessitam nessas horas de dificuldade.
Para arrecadar dinheiro para a realização dos exames, a Rede Feminina busca sempre angariar fundos. Uma das maneiras de fazer isso acontecer é através da Lojinha da Rede, que é mantida por meio de doações da comunidade.
Muito mais que vestir roupas rosa, a Rede Feminina desenvolve um trabalho voluntário que é de extrema importância para a comunidade. Pessoas que dedicam seu tempo ao bem da sociedade, promovendo saúde e bem-estar, além de conforto nas horas de necessidade. Um trabalho que precisa ser apoiado e que está de braços abertos para receber novas voluntárias, que queiram agregar a este grupo que muito faz pelas mulheres de Pomerode.
Dedicação aos idosos e deficientes – Foi o desejo de ajudar ao próximo que levou Letícia Hein Jahn a escolher a profissão de enfermeira. Por nove anos, ela trabalhou no Hospital e Maternidade Rio do Testo, e hoje atua como cuidadora de idosos. E foi exercendo este trabalhando, no Pommernheim, que ela conheceu a professora de Educação Física da Associação Pomerodense de Deficientes (Apodef), Ilsani Kroening Baptista.
Ilsani a convidou para acompanhar a delegação de Pomerode em uma participação nos Jogos Abertos Paradesportivos de Santa Catarina (Parajasc). Depois disso, não consegui mais me desligar da Apodef. Quando comecei a trabalhar como enfermeira, vi que tinha um carinho maior pelas pessoas de idade e os portadores de deficiência. E a partir deste convite, estou aqui até hoje. Já são seis anos que realizo o trabalho voluntário na Apodef e espero que possa continuar por muito tempo, destaca Letícia.
Ela participa de eventos esportivos, pedágios, bazares e outras atividades realizadas em prol da Apodef e da Apae. Faço o que tiver que fazer, sou enfermeira, cozinheira e o que precisar. Eu conhecia pouco sobre deficiência e o primeiro ano que trabalhei com a Apodef me fascinou, foi muito gratificante, foi maravilhoso, conta.
Foi durante esse período inicial no voluntariado que ela viveu a experiência que mais a marcou. Eu acompanhei um atleta no Parajasc, na Bocha Paralímpica, e eu não conhecia nada da modalidade. E quem me ensinou foi ele. Eu estava totalmente perdida, não sabia nem onde jogar a bocha. Apesar da deficiência física, que o torna totalmente dependente, ele é hiper inteligente. Teve um treino e eu não sabia nada, então disse para ele que teria que me ensinar. E a gente trouxe ouro, simplesmente conquistamos a medalha dourada. Isso comprova o valor que as pessoas com deficiência têm e que muita gente não sabe, não conhece. Esse é o fato que me marcou e que eu nunca esqueci, conta Letícia.
Ela destaca ainda que hoje, aqui em Pomerode, os portadores de deficiência contam com um espaço ótimo, com uma estrutura que possibilita que eles estejam inseridos na sociedade. E lamenta o fato de que mais pessoas não participem e não colaborem no trabalho voluntário.
O voluntariado faz bem para a gente. É uma coisa que fazemos com o coração, não é para receber algo em troca, e sim, apenas para doar, ajudar cada vez mais. Isso não tem preço, só quem participa sabe, finaliza.
O pouco se transforma em muito – Desde que chegou a Pomerode, há quatro anos, a fisioterapeuta Fabiana Fragoso auxilia diversas entidades locais na realização de pedágios, bazares e outros eventos beneficentes, realizados pelo Pommernheim (Lar dos Idosos), Corpo de Bombeiros Voluntários, Rede Feminina de Combate ao Câncer e Irmãs Carmelitas Mensageiras do Espírito Santo.
Mas a sua história com o voluntariado começou muito antes disso, na cidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, há 15 anos, quando a fisioterapeuta trabalhava em hospitais. Eu trabalhava em um hospital que tratava pessoas como câncer. Lá dentro eu via essa questão das pessoas pensarem que agora não tinham mais nada para esperar da vida, a não ser a morte chegar. Então, a gente fazia campanhas para conseguir perucas para essas pessoas, conta.
Foi justamente nesta época que a fisioterapeuta presenciou o fato que mais a marcou. O que mais me emocionou foi uma criança que tinha apenas seis anos de idade. Ela tinha um tumor no globo ocular. Fez cirurgia, ganhou um olho de vidro, mas perdeu os cabelos. Então nós fizemos uma vaquinha para comprar uma peruca. E eu não tenho como descrever isso. Os olhinhos dela, cheios de lágrimas e o agradecimento por uma simples peruca. Uma coisa tão simples para alguns, mas que para outros representa muito, destaca.
Aliás, para a fisioterapeuta, o voluntariado é isso. São pequenas atitudes que fazem uma enorme diferença na vida do próximo. Basta tu te doar dez minutos para uma conversa, um abraço, uma visita, não precisa ser uma coisa grandiosa. Isso já vai fazer a diferença, afirma.
Para Fabiana, a participação nos pedágios e bazares é prazerosa e recompensadora, e a população de Pomerode contribui com essas ações. Mas a colaboração podia ser ainda maior, principalmente auxiliando as entidades. Eu acho que ainda tem muito a crescer. Já existe um grande grupo que pratica o voluntariado, mas o que me chama atenção, às vezes, é a maneira como as pessoas respondem, principalmente aos pedágios. Ninguém é obrigado a contribuir, mas pelo menos respeitar quem está ali, desenvolvendo o trabalho para ajudar o próximo, ressalta.
A fisioterapeuta relata ainda que, nesta época do ano, as pessoas ficam mais propensas a colaborar. Eu acho que o espírito natalino contribui. Ele faz com que as pessoas fiquem mais tocadas, mais sensíveis e realmente a gente vê isso. As pessoas procuram as entidades para doar roupas, alimentos e outros mantimentos, diz.
Finalizando, Fabiana responde o que representa para ela o voluntariado. Eu acho que é fazer o bem sem olhar a quem. Essa é a frase que resume tudo. Tu não esperar nada pra ti. Fazer para o próximo. E a alegria de ver esse resultado é que faz bem à gente.