Desvendando Pomerode
Repórteres, recém chegados a Pomerode, descobrem os
segredos e encantos da cidade mais alemã do Brasil.
Pomerode é uma cidade de muitos encantos e preserva suas tradições como ninguém. Dá inveja a muitas outras cidades do Estado, e até mesmo do país, que não tem uma identidade tão forte como a absorvida ao longo de sua história, que a garantiu o título de cidade mais alemã do Brasil.
Mas será que quem chega à cidade percebe, logo de cara, toda a história que Pomerode tem para contar? Com certeza a influência dos colonizadores é percebida desde a entrada da cidade pela Rodovia SC 418. Mas é em centro nevrálgico, que estão escondidas as curiosidades do desenvolvimento do município. Foi isso que nós repórteres do Jornal de Pomerode, Carlos Erbs Junior (natural do Rio de Janeiro) e Jully Annye Goedert (de Rio do Sul), recém chegados a cidade, fomos descobrir.
Curiosidades, ou melhor, peculiaridades que muitas vezes são esquecidas até por quem mora aqui, mas é um baú de descobertas para quem está chegando nessas terras.
É justamente isso que se propõem o Guia do Centro Histórico de Pomerode. Idealizado há 10 anos e lançado somente esse ano, ele é um resumo da história daqueles que ajudaram a construir a cidade através das edificações que até hoje são preservadas.
Para nos apresentar esse roteiro, escolhemos umas das idealizadoras do projeto e hoje vice-prefeita, Gladys Siewert. Na época secretária de Turismo, Gladys iniciou as pesquisas para a formatação do guia e logo viu que sua extensão era inviável, na ocasião tratava-se de 29 km. Percurso impossível de ser feito a pé.
Como a ideia era fazer algo prático e que possibilitasse o turista caminhar pelas ruas da cidade, tendo tempo para fotografar e apreciar cada detalhe da arquitetura dos belos casarões e edificações que compõem o Centro, o guia foi simplificado e limitado a 1.500 metros.
Mas para quem pensa que foi fácil fazer todo esse resgate está enganado. Segundo a vice-prefeita, para descobrir essas peculiaridades contadas no guia foi preciso um grande trabalho de pesquisa para se confirmar as memórias contadas pelos atuais ou pelos antigos proprietários das casas, imortalizadas como atrações turísticas de Pomerode. Além da dificuldade em juntar as escrituras para comprovar a propriedade das construções, pois na época quase nenhum morador tinha estes documentos.
Como falamos são 1.500 metros, que tem seu ponto de partida no Portal Turístico Sul , apesar de uma obra recente, 1991, ele dá as boas-vindas aos visitantes e indica que dali para frente ele se sentirá um pouco mais perto da Europa.
Começa aqui um caminho de descobertas, pelas ruas 15 de Novembro, Praça Jorge Lacerda, Frederico Weege, Paulo Zimmermann, Hermann Weege e Atiradores. Venha com a gente e conheça um pouco mais desta cidade, que tem muito mais que chope e deliciosas cucas para mostrar ao mundo. Porém, não custa nada também no meio do caminho parar para desfrutar essas delícias.
O Roteiro
Saímos pelas ruas acompanhados da vice-prefeita e com o guia em mãos. Cada ponto era relatado minuciosamente pela nossa cicerone. Curioso era que muitas vezes ela se quer passava o olho no texto e assim extraía de sua memória as explicações sobre as casas e a quem pertenceram.
Tamanho envolvimento com o projeto é natural, já que Gladys foi umas das idealizadoras, como já foi citado. Mas seu conhecimento de causa só engrandeceu essa “visita técnica”, se é que podemos chamar assim, pelo Centro Histórico de Pomerode.
Muitas das construções que vimos pelo caminho datam da primeira metade do século XX, como o sobrado Blosfeld e a Casa Teichamnn, que pertenceu ao escultor Ervin Curt Teichamann e hoje abriga a Casa de Escultor. Uma homenagem feita ao artista após seu falecimento em 1992, na qual estão expostas algumas de suas obras e instrumentos de trabalho.
A Praça Jorge Lacerda e a sede do Executivo municipal, ambas obras da década de 1970 também estão na rota que continuamos a seguir.
Mas adiante, um dos pontos que chamou a atenção foi o sobrado Blanck. Hoje abrigando o curso de idiomas Wizard, um dia foi a sapataria de Alwin Blanck, responsável pela confecção das chuteiras do primeiro time de futebol da cidade, o São Lourenço, em 1938.
A Rua 15 de novembro é onde está a maior concentração de imóveis que fazem parte do guia e é nela que está a Casa Siebert, que abrigou o casal Elisa e Henrique Butzke e foi a primeira padaria da cidade.
A edificação mais simbólica e antiga do Centro Histórico é a Igreja Evangélica Luterana – Igreja da Paz, inaugurada em 1885, que tem ao lado o Cemitério dos Imigrantes, desativado em 1940, mas que mantém sepultados alguns dos primeiros colonizadores da cidade.
Na principal rua da cidade também está a antiga prefeitura, situada no número 39, já quase na esquina com as ruas Paulo Zimmermann e Frederico Weege.
Na sequência chegamos a um dos pilares da economia pomerodense no início do século passado, o Complexo Weege. Ali funcionou o estabelecimento comercial de Hermann Weege, que hoje denomina a rua onde está localizada as edificações da extinta empresa. Fundado em 1901 tinha o propósito de estabelecer relações comerciais agrícolas, mas aos poucos foi diversificando as atividades, tendo inclusive cedido espaço para a primeira agência dos Correios da cidade.
O empreendedorismo de Hermann Weege e suas iniciativas fazem parte até hoje do cotidiano da cidade e está inserido no turismo local. Outro exemplo é o zoológico, fundado por Hermann em 1932, a partir de seus animais domésticos. Como se trata de um guia do Centro Histórico não custa lembrar que o Zoológico de Pomerode é o terceiro a ser criado no país e o primeiro do Sul do Brasil. Ah, também foi o primeiro de iniciativa privada.
Além desses pontos citados, há outros de imensa relevância histórica e cultural para Pomerode, mas não quisemos desvendar todos os segredos, para deixar você leitor instigado a fazer sua própria caminhada e assim conhecer ainda mais sobre essa querida e bela cidade.
Percepções de um Carioca
Como já foi escrito nesta reportagem, a influência da cultura alemã e a preservação das tradições dos primeiros colonizadores, impulsionou o turismo em Pomerode. Mas uma característica deste povo que saiu da Europa, para construir um futuro próspero em terras sul-americanas, é o capricho naquilo que se propõe a fazer. Perfeccionista ao extremo, essa virtude pode ser vista nos jardins das casas da cidade e nas fachadas sempre bem pintadas e cuidadas. Outra curiosidade, bem destacada pela nossa guia, é como a cidade se formou em torno da igreja Luterana. Sempre com uma escola, uma igreja e uma sociedade de caça-tiro, fazendo assim o pilar da formação desta gente: educação, religião e o lazer. Ops! Esqueci de citar o trabalho, mas esse nem precisa falar, pois todos sabem da pré-disposição desta gente para o mesmo. Meu único lamento é não existir mais o Hotel Oásis, ícone do glamour na década de 1940, que durou 20 anos e segundo consta no guia tem inspiração em um lugar bastante familiar. Falo do Hotel Quitandinha, em Petrópolis, ponto turístico muito conhecido da cidade imperial, como é conhecido município serrano do estado do Rio de Janeiro. Conforme o guia, Hermann Germann, proprietário se inspirou no hotel de Pertrópolis e aqui construiu um lugar aconchegante e luxuoso que abrigou, inclusive, o presidente da república Jânio Quadros. Isso me trouxe uma nostalgia dos meus tempos de crianças que ia visitar a cidade no Rio. Tenho uma simpatia muito grande pela cidade, justamente por essa identidade e talvez por isso esteja sendo tão satisfatório poder construir parte da minha história aqui nesse chão.
Visão de uma Riossulense
Mesmo tendo sido criada em família com descendência alemã, percebe-se pelo sobrenome, Goedert, a cultura deste povo nunca foi muito explorada. Mas hoje já é de algum conhecimento.
Vim morar em Pomerode na semana após a enchente, e pude presenciar o carisma e a hospitalidade dos pomerodenses. Muito bem recebida, creio que a adaptação não está sendo difícil.
Com toda esta estrutura, já citada anteriormente, Pomerode vem me conquistando dia após dia. O guia veio, para nós jornalistas, como um roteiro de sobrevivência, se assim posso dizer. Construções que antes chamavam atenção apenas pela beleza, hoje servem de ponto de referência e também trazem consigo histórias fantásticas que nos fazem conhecer um pouco mais o povo que faz dessa cidade tão aconchegante.