Crack: não compartilhe esta ideia, não compartilhe este cachimbo
O consumo do crack tem avançado assustadoramente no Brasil disseminando relatos de sua gravidade nas grandes capitais e cidades do interior, como Pomerode. Estatísticas comprovam uma epidemia do subproduto da cocaína, que provoca dependência instantânea, exclusão social do usuário e destruição familiar, além de estar diretamente associada à criminalidade. Semanalmente,…
O consumo do crack tem avançado assustadoramente no Brasil disseminando relatos de sua gravidade nas grandes capitais e cidades do interior, como Pomerode. Estatísticas comprovam uma epidemia do subproduto da cocaína, que provoca dependência instantânea, exclusão social do usuário e destruição familiar, além de estar diretamente associada à criminalidade.
Semanalmente, tem-se conhecimento em Pomerode de novas pessoas que estão envolvidas com o consumo de drogas, tráfico ou outros crimes que envolvem substâncias químicas, lícitas e ilícitas. Sabem-se os lugares onde certamente uma conduta duvidosa está sendo praticada. Engana-se aquele que acredita que sejam pontos isolados, distantes das ruas centrais do município. Igualmente está equivocado aquele que acredita que tais práticas sejam registradas no período noturno, longe dos olhos das autoridades e pessoas comuns da pacata cidade mais alemã do Brasil.
O crack é atualmente uma das maiores pragas sociais e se dissemina rapidamente por se tratar de uma droga de baixo custo e que vicia no primeiro contato. O crack é barato porque é feito de sobras do refino da cocaína – as pedras resultam da fervura desse material com água e bicarbonato de sódio. Mas o efeito é muito mais devastador que o da cocaína quando aspirada. Em 10 a 15 segundos, os primeiros efeitos do crack são sentidos, enquanto os da cocaína surgem após 10 a 15 minutos. O viciado em crack, porém, precisa de várias doses durante o dia para se dar por satisfeito. Uma pedra de crack custa em média entre R$ 5 e R$ 10. Como o usuário precisa de várias doses, o gasto médio supera os R$ 40 por dia. Sem trabalho – e consequentemente sem renda -, o viciado passa a cometer pequenos furtos para conseguir o dinheiro.
Estes dados comprovam as estatísticas divulgadas pela Polícia Militar e Polícia Civil, que revelam que a criminalidade nos primeiros quatro meses de 2010, aumentou em relação ao ano passado. A audácia é tão explícita, uma construção abandonada, na Avenida 21 de Janeiro, não é só usada para o consumo e tráfico de drogas, foi escolhida como moradia e abrigo de um grupo de viciados, que além de ter invadido uma propriedade particular, tem tirado o sono dos moradores, que por diversas vezes já entraram em contato com a Polícia Militar, cujo pelotão está instalado a duas quadras do imóvel. Duas madeiras foram retiradas da cerca de madeira do terreno, como se fosse uma passagem, uma porta, um atalho para um QG, em pleno Centro da cidade. Durante a noite, gritos revelam a alucinação dos viciados, que escolheram como abrigo o terceiro andar. Latas de refrigerante são amassadas e transformadas em instrumento para o consumo de crack.
Não muito longe, apenas algumas quadras, o Museu Pomerano, onde a memória dos imigrantes alemães e dos antepassados que construíram o município está guardada, durante a noite, também tem sido frequentado de forma incorreta, que fere a sua real finalidade. A movimentação não deixa dúvidas que o ponto também é palco para o consumo de crack. Associado ao consumo de álcool, os usuários, durante a madrugada, principalmente nos finais de semana, atravessam a rua passando perigosamente entre os carros, misturando-se aos jovens saudáveis, que buscam diversão nas casas noturnas e choperias ali existentes.
O roteiro virtual do crack ao qual esta matéria se propõe, convida os leitores a andar mais algumas quadras, sentido Portal Norte, parando alguns metros antes, na Praça Jorge Lacerda. Moradores da localidade presenciam durante a noite não só o consumo da droga, mas também, sua comercialização. É como se o tráfico tivesse endereço certo, conhecido, infelizmente, por toda a população, ou pelo menos, por uma boa parcela da mesma. O mesmo acontece na Praça Hans Erns Schmidt, localizada próxima à empresa Porcelana Schmidt. Além do consumo de drogas no local, os atos de vandalismo são constantes. Os bancos quebrados e os brinquedos deixam sua utilidade inicial de lado, para ser palco de viciados e suas ações inconsequentes.
O cemitério localizado ao lado da Câmara de Vereadores de Pomerode também não ficou de fora da lista. Um senhor, que na última semana foi visitar o túmulo de sua mãe, ficou perplexo com o que encontrou. A lápide, toda quebrada, alvo de vandalismo, servia de mesa para garrafas de refrigerante, de vodka, um isqueiro e papelotes onde drogas são embrulhadas.
A ponte pênsil de Testo Central não é mais utilizada pelos moradores como atalho, somente durante o dia, e mesmo assim, com cuidado redobrado. Palavrões, depredações, garrafas vazias de bebidas alcoólicas e carteiras de cigarro são deixadas como prova de práticas delituosas no local.
Ribeirão Areia, próximo à Avenida 21 de Janeiro, é outro local que faz parte da rota do crack em Pomerode. Conforme relato de uma moradora da localidade, nem ela e nem suas filhas passam no local sozinhas após às 18h.
Outro ponto é o estande de tiro, localizado nos fundos do Parque de Eventos da Festa Pomerana, onde preservativos se acumulam junto a depredações e rastros do consumo de drogas.
Somente na última semana, a redação do Jornal de Pomerode recebeu uma série de denúncias envolvendo duas escolas do município. Uma delas, no Centro da cidade. Outra, na região de Testo Rega. Em ambos os casos, traficantes, membros conhecidos da sociedade pomerodense e que de consumidores passaram a ser traficantes, estão aliciando crianças e adolescentes. Entre as ofertas iniciais, cigarro e álcool. Após conquistar a confiança dos estudantes, maconha, cocaína e até mesmo o crack. Quando os alunos já estão envolvidos no vício, a substância ofertada inicialmente sem custo, passa a ser vendida. Para entrar no mundo da dependência e da criminalidade é um passo, infelizmente, que em muitos casos, leva a um caminho sem volta.
No Brasil, 380 mil já usaram o crack
No lançamento da Frente Parlamentar Mista de Combate ao Crack, na última semana, segundo noticiado pelo Jornal O Comércio, o Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, apresentou dados preocupantes sobre a disseminação do consumo de crack no Brasil, classificando o vício como caso de saúde pública e dizendo que é preciso agir na prevenção. Segundo o Ministro, no Brasil, 380 mil pessoas já teriam experimentado o crack, pelo menos uma vez na vida, e 30 mil só no último mês.
O Ministro defendeu o diálogo entre pais e filhos como forma de prevenção. De acordo com Temporão, a população mais vulnerável ao consumo do crack é a que vive na rua e, geralmente, o consumo da droga está associado à violência e aos grupos de risco. “Claro que a escola é importante, mas muito importante também é a família, o diálogo entre pais e filhos. O primeiro contato com drogas acontece no final da infância. Claro que são necessárias políticas de educação e de combate ao uso de drogas, mas pais e mães que debatem com seus filhos ajudam muito”, disse Temporão.
O Ministro da Saúde disse que o presidente Lula pediu aos ministérios da Educação, Saúde, Justiça e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) que conversem e apresentem um plano integrado de combate ao consumo de crack. Segundo ele, há inúmeras ações de todos esses órgãos. Ele afirmou que o Ministério da Saúde gasta cerca de R$ 240 milhões no atendimento de saúde a pessoas vítimas de problemas com álcool e drogas. “O presidente pediu a integração dos programas, isso está sendo ultimado.”
Temporão disse ainda que não é simpático à ideia de internação forçada dos consumidores de crack, só em casos extremos. “A legislação não permite internação forçada e não vejo com simpatia esse tipo de atitude, a não ser em casos muito graves. É retirar da nossa frente o problema.”
O Ministro também afirmou que nos últimos oito anos, o País mudou o foco no tratamento de pessoas com problemas mentais e de dependência e que, atualmente, 75% dos casos são tratados clinicamente, sem internação. As pessoas recebem tratamento em espaços comunitários, com o tratamento ambulatorial e que o SAMU faz o resgate de pessoas que estão em situação limites no consumo da droga.
Efeitos no cérebro
Tanto o crack quanto a merla também são cocaína, portanto, todos os efeitos provocados pela cocaína ocorrem com o crack e a merla. Porém, a via de uso dessas duas formas (via pulmonar, já que ambos são fumados) faz toda a diferença do crack e da merla com o “pó”.
Assim que o crack e a merla são fumados, alcançam o pulmão, que é um órgão intensivamente vascularizado e com grande superfície, levando a uma absorção instantânea. Através do pulmão, cai quase imediatamente na circulação cerebral, chegando rapidamente ao cérebro. Com isto, pela via pulmonar, o crack e a merla “encurtam” o caminho para chegar ao cérebro, aparecendo os efeitos da cocaína muito mais rápido do que outras vias. Em 10 a 15 segundos, os primeiros efeitos já ocorrem, enquanto que os efeitos após cheirar o “pó” acontecem após 10 a 15 minutos e após a injeção, em 3 a 5 minutos. Essa característica faz do crack uma droga “poderosa” do ponto de vista do usuário, já que o prazer acontece quase que instantaneamente após uma “pipada”.
Porém, a duração dos efeitos do crack é muito rápida. Em média, duram em torno de 5 minutos; enquanto que, após injetar ou cheirar, em torno de 20 e 45 minutos, respectivamente. Essa pouca duração dos efeitos, faz com que o usuário volte a utilizar a droga com mais frequência que as outras vias (praticamente de 5 em 5 minutos) levando-o à dependência muito mais rapidamente que os usuários da cocaína por outras vias (nasal, endovenosa).
Logo após a “pipada”, o usuário sente uma sensação de grande prazer, intensa euforia e poder. É tão agradável que, quando desaparece o efeito (e isso ocorre muito rápido, em 5 min), ele volta a usar a droga, fazendo isso inúmeras vezes até acabar todo o estoque que possui ou o dinheiro para consegui-lo. A essa compulsão para utilizar a droga repetidamente, dá-se o nome popular de “fissura”, que é uma vontade incontrolável de sentir os efeitos de “prazer” provocados pela droga. A “fissura” no caso do crack e da merla é avassaladora, os efeitos da droga são muito rápidos e intensos.
Além desse “prazer” indescritível, que muitos comparam a um orgasmo, o crack e a merla também provocam um estado de excitação, hiperatividade, insônia, perda de sensação do cansaço, falta de apetite. Este último efeito é muito característico do usuário de crack e merla. Em menos de um mês, ele perde muito peso (8 a 10 Kg) e num tempo um pouco maior de uso, ele perde todas as noções básicas de higiene ficando com um aspecto deplorável. Por essas características, os usuários de crack (craqueros) ou de merla são facilmente identificados.
Após o uso intenso e repetitivo, o usuário experimenta sensações muito desagradáveis como cansaço e intensa depressão.
Efeitos tóxicos
A tendência do usuário é aumentar a dose na tentativa de sentir efeitos mais intensos. Porém, essas quantidades maiores acabam por levá-lo ao comportamento violento, irritabilidade, tremores e atitudes bizarras devido ao aparecimento de paranóia (“nóia”). Esse efeito provoca um grande medo nos craqueros, que passam a vigiar o local onde estão usando a droga e passam a ter uma grande desconfiança uns dos outros, o que acaba levando-os a situações extremas de agressividade. Eventualmente, podem ter alucinações e delírios. A esse conjunto de sintomas dá-se o nome de “psicose cocaínica”. Além desses sintomas descritos, o craquero e o usuário de merla perdem de forma muito marcante o interesse sexual.
Efeitos sobre outras partes do corpo
Os efeitos são os mesmos provocados pela cocaína utilizada por outras vias. Assim, o crack e a merla podem produzir um aumento das pupilas (midríase), afetando a visão que fica prejudicada, a chamada “visão borrada”. Ainda pode provocar dor no peito, contrações musculares, convulsões e até coma. Mas é sobre o sistema cardiovascular que os efeitos são mais intensos. A pressão arterial pode elevar-se e o coração pode bater muito mais rapidamente (taquicardia). Em casos extremos, chega a produzir uma parada do coração por fibrilação ventricular. A morte também pode ocorrer devido à diminuição de atividade de centros cerebrais que controlam a respiração.
O uso crônico da cocaína pode levar a uma degeneração irreversível dos músculos esqueléticos, chamada rabdomiólise. (Fonte: Ministério da Saúde)
FICHA DO CRACK
NOME: A origem do nome crack tem duas versões: uma delas diz que o nome vem do barulho que a pasta de cocaína faz quando é aquecida – geralmente em panelas simples – com bicarbonato de sódio e água. A pasta resseca e estoura formando pequenas pedras. A outra é parecida, mas diz que são os cristais (as pedras) que fazem o barulho quando o usuário está fumando.
ORIGEM: Crack, cocaína em pó e merla, tem origem na pasta base feita a partir das folhas de coca. A diferença é que a cocaína em pó necessita de um refino mais elaborado para apurar a substância e deixá-la pura. O crack e a merla são feitos da borra desta pasta base, geralmente com o que sobra do refino da cocaína, e são mais impuros.
COMO É CONSUMIDO: As pedras são aquecidas e geralmente são fumadas em cachimbos, cigarros e até mesmo em latas de alumínio. Para garantir o melhor aproveitamento da fumaça, os usuários procuram tampar a boca do cachimbo com plástico. Também é comum utilizar palha de aço no cachimbo para conseguir a brasa. Algumas vezes, as pedras são misturadas ao tabaco ou à maconha.
EFEITOS: Euforia, bem-estar, aumento da pressão arterial. Sob efeito do crack, é comum que o usuário tenha alucinações e fique paranoico, com ilusões de perseguição. Os efeitos são sentidos em até 15 segundos e duram cerca de um minuto, chegando a, no máximo, cinco minutos. Após o uso, o indivíduo sente intensa depressão e necessidade aguda de fumar novamente para compensar o mal-estar. O nível de dependência é alto, podendo acontecer instantaneamente, na primeira vez que se fuma a droga.
EFEITOS FÍSICOS A LONGO PRAZO: Esgotamento físico e mental provocados pelos vários dias sem dormir ou comer. Pesquisa aponta a perda do apetite sexual em 72% das mulheres e 66% dos homens. A droga também provoca a degeneração dos músculos do corpo, efeito também causado pelo uso continuado de cocaína em pó.
EFEITOS SOCIAIS: A forte excitação provocada pelo uso da droga e a agitação prejudicam atividades cotidianas como estudo ou trabalho. O usuário também pode se tornar agressivo. Apesar do baixo preço, o usuário gasta muito para suprir a necessidade constante de consumo. Furtos dentro de casa tornam-se comuns e complicam a convivência familiar. Por esse motivo, muitos usuários passam a viver na rua. Para conseguir dinheiro, os dependentes também recorrem a assaltos e à prostituição.
Fonte: Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead).