Corrida de Fé
Várias perguntas para conhecer um pouco mais sobre quem é Marina do Rocio Ferreira de Gang. Entre as respostas, uma soou com convicção e alegria: “Sou uma atleta de Cristo”. Aos 50 anos, é mãe de quatro filhos e coleciona medalhas na modalidade de atletismo, nas provas de corridas de…
Várias perguntas para conhecer um pouco mais sobre quem é Marina do Rocio Ferreira de Gang. Entre as respostas, uma soou com convicção e alegria: “Sou uma atleta de Cristo”. Aos 50 anos, é mãe de quatro filhos e coleciona medalhas na modalidade de atletismo, nas provas de corridas de longa distância ou de fundo, como 3.000 e 10.000 metros. Além disso, Marina transmite seu carinho a dois netos, um menino e uma menina. Natural de Curitiba (PR), mora há 22 anos em Blumenau. Formou-se no curso de Educação Física pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), em 07 de agosto de 2009.
Os olhos se encheram de lágrimas em alguns momentos da entrevista. Em outros, o coração falou mais alto e demonstrou a emoção por meio dos olhos que derramaram as lágrimas. Mas o sorriso característico da fundista e mãe voltava ao seu rosto no decorrer da narração da sua trajetória de vida. Era como se estivéssemos juntos retornando ao tempo, vivenciando o filme que passava na memória de Marina. Embarque nessa viagem e conheça a história da mãe e atleta.
Conte um pouco sobre sua trajetória esportiva. Como e quando começou a paixão pelo atletismo? Como se deu a prática pela prova?
Tudo começou por meio dos meus próprios filhos, um menino e três meninas. A minha filha foi convidada para participar do atletismo e incentivou o meu filho, que motivou as irmãs. Isso até todos os filhos serem praticantes da modalidade, quando tinham entre oito e 13 anos. Eu sempre os incentivava e dava apoio. Era uma mãe coruja, os acompanhava em competições e corria ao lado deles, do lado de fora da pista. Eu havia me separado e criei os meus quatro filhos sozinha.
Foi nesse contexto, de sempre estar ao lado das crianças, que o técnico delas observou a minha capacidade para a prática do atletismo. Eu nem sabia que tinha potencial. Foi em 1993 que comecei a correr, aos 33 anos. A minha primeira corrida foi a Antifumo, em Blumenau, no mesmo ano, quando fui vencedora da minha categoria, sem treinar. O meu primeiro técnico, que me incentivou a ser atleta, foi o Valdivino Alves. No começo, eu falava que não teria como treinar, pois eu tinha meus quatro filhos para criar. Foi quando ele falou: “Você precisa acreditar, pois tem potencial. Vamos fazer um teste de um ano”. Aceitei, acreditei em mim mesma e comecei a levar a sério.
Logo, o trabalho rendeu e tive as primeiras conquistas. Ainda em 1993, nos Jogos Abertos de Santa Catarina (Jasc), em Tubarão, conquistei o 4º lugar nos 3.000 e 10.000 metros. Aí, não tinha mais como escapar do atletismo. Eu e meus filhos estávamos envolvidos na modalidade e um ajudava ao outro. Ao mesmo tempo, eu trabalhava como diarista e cuidava dos meus filhos. Eu ia para uma casa, depois treinava e trabalhava em outra residência. Deixava um período reservado para os treinos. Atualmente, também trabalho com iniciação esportiva pela Fundação Municipal de Desportos de Blumenau.
Como foi a aceitação das pessoas em relação à prática do esporte por ser mãe e iniciar aos 33 anos? Relate um pouco sobre esta experiência e como foi lidar com isso.
As pessoas acreditavam que eu era maluca, pois eu era mãe de quatro filhos e ainda estava correndo para lá e para cá. Mas eu acreditei e levei o esporte a sério. Queria que os meus filhos tivessem o estudo que eu não tive na época, pois depois voltei a estudar, e que fossem alguém na vida. Sou guerreira e quando assumo algo, vou até o final.
Atualmente, como você concilia o esporte ao dom de ser mãe. Qual a principal diferença entre a Marina atleta e a Marina mãe?
Ser mãe é uma dádiva de Deus e eu amo os meus filhos e agradeço a Deus por eles serem uma bênção. O atletismo faz parte da minha vida, pois me proporcionou muitas coisas boas e elevou a minha autoestima e qualidade de vida.
Sempre fui uma mãe coruja e procurei fazer tudo o que era possível para que os meus filhos tivessem o melhor. Deixava de comprar as coisas para mim para poder dar a eles. Mesmo sem poder dar tudo aquilo, procurei que estivessem bem. No início, isso me doía muito, pois um dos meus filhos precisou correr descalço devido ao tênis dele não ser adequado. Isso me chocou e fiquei triste.
Eu sempre fui muito amiga deles, fui pai e mãe. Brincava com eles e incentivava ao estudo. Enfatizava a responsabilidade, respeito, sinceridade, honestidade. Eu me impunha com amor. Pelos meus netos, sinto o mesmo carinho. Como mãe e atleta, tenho as mesmas características. Esforço-me ao máximo para comparecer aos treinos e também tive muito apoio do meu técnico atual, o professor Ivo da Silva. Ele foi como um pai. Quando meu pai faleceu devido a um câncer, aos 82 anos, o professor Ivo me deu muita força. Eu também cuidava do meu pai.
Quais foram suas principais conquistas no atletismo?
Foram várias conquistas. Dentre elas, podem ser citadas: algumas medalhas de prata e bronze nos Jogos Abertos de Santa Catarina (Jasc), nos 10.000 metros e 3.000 com obstáculos; Troféu Brasil de Atletismo, em São Paulo, 8ª colocação; Jogos Universitários; já participei da Corrida de São Silvestre; 3º lugar, no Campeonato Estadual, em 2010; Super Maratona, 50 km, no RS, vice-campeã; tricampeã, 30 km, Grêmio Olímpico de Blumenau; melhor tempo (36 minutos) feito em 10 de maio de 2003, em Itajaí, nos 10.000 metros; vice-campeã na Maratona de Blumenau; entre outros. Recebi também os prêmios do Clube Soroptimistas nas categorias Nacional e Internacional, através do Clube Soroptimista de Blumenau (SC).
Em toda trajetória, há dificuldades. Quais foram as principais enfrentadas?
Fui atingida pela tragédia que aconteceu em Santa Catarina no ano de 2008. Não dava para acreditar que o morro onde eu morava ia cair. (choro) Eu estava voltando do treino e fiquei admirada com a situação. Comecei a fazer valetas para a água escorrer. Depois, meu filho me buscou e saímos dali. O morro estava descendo. Atualmente, a casa ainda está lá, mas moro em outro local.
No começo do atletismo, também enfrentei dificuldades, pois comecei tarde. Mas tenho muita fé. Jesus é minha alegria e felicidade. Eu consegui a superação com a graça de Deus, que me deu forças para prosseguir. Deus está em primeiro lugar, acima de qualquer coisa, e depois vem o atletismo. O esporte tira as pessoas das ruas e hoje, fico feliz em repassar a minha experiência a crianças que participam da iniciação esportiva. A falta de patrocínio é outra dificuldade.
Vários momentos marcantes são vivenciados durante competições, treinos, vitórias, derrotas. Mas há sempre aqueles que não se esquece. Relate alguns.
A minha primeira medalha em Jasc foi muito marcante. Foi em Itajaí que conquistei o bronze, mas foi como se fosse ouro. Foi muita felicidade. Outro momento que não esqueço aconteceu nos Jasc, em Chapecó. Quando eu estava quase completando a prova, caí num obstáculo e bati o rosto no chão. Havia torcida e eu ganharia o bronze.
As minhas participações fora do Estado de Santa Catarina também foram significativas. Eu ia crescendo. Mas a minha alimentação não era adequada. Eu considerava uma bênção de Deus, correr depois de ter comido feijão com arroz. Nunca passei fome, mas não tinha variedades. Eu orava e pedia para Deus colocar proteínas na minha comida. Da mesma maneira, sempre tive muita esperança e sabia que um dia a fase passaria.
O que representa o esporte em sua vida?
Sem o esporte não sou nada, depois de Deus, é claro. O atletismo faz parte da minha vida, é como se fosse um membro do meu corpo. Atualmente, treino de segunda-feira a sábado e, às vezes, aos domingos também. Continuarei a correr.
O que não pode faltar para um atleta?
Acima de tudo, ter muita fé e confiar em Deus. Ele nos fortalece. Outra questão é a dedicação. É preciso ser uma pessoa comprometida, acreditar no seu próprio potencial. Se você perder hoje, amanhã pode vencer. Procure fazer o melhor sempre e não buscar somente a vitória.