Contra Ataque
Por Roman Raiter
A coerência de Adriano
Passados os primeiros dias do anúncio da lista dos 23 convocados da Seleção Brasileira, algo me diz que Adriano, o ausente, foi tão coerente quanto Dunga, o técnico. Pelo que parece, o Imperador não estava mesmo a fim de encarar dias de clausura e a pressão de uma Copa do Mundo. Desde o encerramento do último Brasileiro, nada fez para estar entre os escolhidos – nem mesmo diante de sinais evidentes e avisos indiretos. Adriano abandonou a Inter de Milão para ser feliz, não para ser exposto à execração pública. Agora, Adriano está nu diante do espelho, à vontade, portanto, para se olhar com frieza e honestidade.Não precisa se enganar, nem ludibriar empregadores e adoradores. O Flamengo, por si só, é grande o suficiente para lhe garantir não apenas o sustento, mas o carinho e a idolatria. Basta estar em forma, basta querer. A interrogação fica por conta da renovação de seu contrato com o Flamengo. Sua ausência na Copa desaquece a procura por seus produtos, enfraquece sua imagem e diminui o interesse do patrocinador. Resta saber quanto custará tê-lo na Gávea. É hora de construir um novo final…
A coerência da coerência
Essa talvez seja a palavra mais usada por Dunga. Realmente, seguindo as diretrizes do técnico da seleção, em sua conduta de liderança, não faltou coerência. Quis acabar com a palhaçada que foi a seleção na Copa de 2006, “com festa, boate, muita festa e muita boate”. Seguindo essa linha, devemos parabenizá-lo. Afinal, essa foi a missão que recebeu após o fracasso da seleção, em 2006. E hoje, podemos falar o que for, mas é uma seleção profissional e de resultados. Alguns iriam dizer que é uma seleção robô, sem malemolência, nem gingado. É verdade. Mas dentro do propósito assumido pós-2006, essa foi a coerência da coerência atribuída.
Agora, futebol é coerência?
Por outro lado, da mesma maneira que o Dunga bate o martelo tão incansavelmente a respeito de coerência, toda imprensa nacional acaba optando por cair na linha de argumentos “coerentes”, onde o técnico mais busca utilizar. Uma coisa me intriga. Vamos observar com outros olhos. Será mesmo que futebol é coerência? Será que o futebol, ainda mais o brasileiro, precisa tanto dessa palavrinha chamada coerência? As pedaladas históricas do Robinho no time do Santos na final do Brasileiro, sobre o forte Corinthians, teve alguma coerência? Os cinco títulos mundiais do Brasil não foram marcados por irreverências de Garrincha, Pelé, Jairzinho, Romário e Ronaldo Fenômeno? É claro, que fique claro, que irreverência também não tem semelhança com palhaçada, como foi em 2006. Mas em todas as copas, sempre a Seleção Brasileira teve jogo de cintura, gingado e malemolência. E é possível acreditar em jogo de cintura com Elano, Josué, Gilberto Silva, Kleberson, Ramirez e Júlio Batista? Meio-de-campo de cimento. Futebol não é coerência. Ainda mais o nosso futebol, que é decidido no drible, na “malandragem”(bom sentido), na finta, na caneta e na enfiada de bola… Na arrancada no meio entre três adversários. E nessa convocação, durante a Copa, talvez isso vá fazer falta. Principalmente quando Dunga e também Jorginho, olharem para o banco de reservas.
Surpresa? A incoerência de Dunga
Para quem prega coerência, vejamos algumas incoerências do próprio técnico da Seleção Brasileira. É evidente que Ganso e Neymar ainda não foram testados na seleção principal. E Dunga está coberto de razão ao criticar a ideia de levá-los visando 2014. A Copa de 2014 será um outro momento. A questão é o agora. Ganso não foi testado. Dunga tem razão. O problema, Dunga, é que esse seu meio-de-campo aí, é terrível. Se o Kaká, que não vem jogando absolutamente nada há muito tempo, se lesiona, simplesmente a improvisação de um lateral no meio-de-campo acaba sendo obrigatória, ao menos no pensamento do Dunga. Este seria o Daniel Alves. E isso você chama de coerência, Dunga? Um país com 180 milhões de brasileiros não ter meias ofensivos em sua convocação? Isso é coerência? Levar para um meio-de-campo um Kleberson que foi reserva no Campeonato Carioca? Isso é coerência? Levar Julio Batista que é reserva da Roma é coerência?
Sugerir Ganso no time titular talvez seja exagero. Mas por que não no banco de reserva, como opção? A maior incoerência do Mundo é ir para uma Copa, convocando somente um meia ofensivo no elenco, e este vivendo um péssimo momento. Isso é mais que incoerência. É loucura. O Brasil que sempre é favorito para conquistar todos os campeonatos tem grandes chances de voltar mais cedo para casa. Tomara que estejamos enganados. Um time engessado, sem opções e sem criatividade. Triste realidade. Sobremaneira, vale lembrar que Dunga é um típico vencedor. Tanto como técnico, quanto como jogador. Seus resultados são indiscutíveis e todos devemos abraçar essa convocação como se fosse a ideal. Mas que lá no fundo, podia ser com menos sofrimento, isso podia, né?
Em tempo
Dunga é um cara bacana. Boa praça. Em sua entrevista coletiva após o anúncio dos convocados, tratou de ser um tanto quanto estúpido com boa parte da imprensa. Quando questionado sobre especialmente Ganso, disse: “Ele nunca jogou na seleção principal”. Ora, Dunga, meu querido. E você? Nunca havia sido técnico profissional antes de ir para seleção, também. E agora? Esqueceu disso?