COLUNA DO PROFESSOR
Criança que morde: É assim que nasce a violência?
Criança que morde: É assim que nasce a violência?
É assim mesmo. Mas na cabeça dos pais. As primeiras manifestações de agressividade por parte da criança geram no adulto uma ansiedade muito grande. É que o adulto logo relaciona agressividade com violência. Mal a criança de um ano e meio morde o filho do vizinho, a mãe conclui: ele vai achar que brigar é a solução, quando na verdade isso nem passa peã cabeça da criança. Na grande maioria das vezes, ela apenas está querendo um determinado objeto e usando a sua combatividade (combate/disputa) para consegui-lo. É bom prestar atenção nessa palavra: combatividade. Porque, no decorrer da vida, você vai encontrar muitos estudos sobre a agressividade como traço negativo na personalidade infantil. Agora, sobre a combatividade, que é a canalização positiva da agressividade, você não vai achar praticamente nada em livro nenhum.
E o resultado prático disso é que com medo de que a agressividade vire violência, não se trabalha a combatividade da criança. E depois você vê aí muita gente, especialmente dessa nova geração, com problemas de timidez, de iniciativa, de relacionamento. Jovens inseguros que, diante dos obstáculos, ou ficam tímidos, caem fora, entregam barato, ou então partem para o autoritarismo e querem resolver tudo rápido e na marra.
O fato é que na nossa cultura, a agressividade é uma característica especialmente tímida. Já em outras sociedades é um aspecto da personalidade muito trabalhado como condição para a criança ser forte mais tarde. Entre nós, é grande o pavor da violência, o que talvez possa até se explicar por toda uma conjuntura social e política que o país viveu. Esta idéia parece que se fixou na cabeça de muitos pais. E se meu filho for o marginal, o delinqüente, o torturador de amanhã? Se os pais, no entanto, mudarem a sua atitude ansiosa em relação à agressividade dos filhos, vão ver que a mordida, a briga pelas coisas, o xingar o outro podem ser percebidos até como indicadores de desenvolvimento. O que a criança quer nessa faixa de idade? É a água, é o brinquedo, é o alimento. E como ela manifesta as suas vontades? De um modo muito simples: indo na direção que ela quer. Ela ainda não sabe falar ?brinquedo?, mas é capaz de identificar um carrinho e caminhar na direção dele. E aí pode acontecer que não é só ela que quer aquele carrinho. O companheiro ao lado também quer. Então ela vai usar a força de que dispõe para conseguir o brinquedo. E, nessa faixa, a sua força ainda é oral: ela morde o que se interpõe entre ela e o objeto desejado. Note que a criança não morde como um adulto brigando morderia. O adulto escolhe onde morder. A criança morde onde pegar, na perna, na mão, no rosto. Ela morde o que está na frente e, na verdade a mordida nem tem uma relação direta com o outro. Ela nem entende que doeu, nem porque o outro chora e até, assustada, é capaz de largar o objeto disputado.
É fundamental, portanto, que os pais entendam a linguagem da criança em cada fase do seu desenvolvimento. Só assim eles vão ajudar a criança a se expressar através de maneiras mais maduras e civilizadas. Muitos pais costumam se defender com a seguinte acusação: ah, mas aqui em casa ele não morde ninguém, só na escola. Ora, ele não morde porque não tem condições mesmo. Em casa, uma criança de um ano e meio vai disputar o brinquedo com quem? Com o pai é que não. Criança percebe logo a correlação de forças: com adulto ele usa birra, só morde outras crianças. Você diz ?não pode?, ela resmunga e se conforma. Na escola é que a disputa é de igual para igual. Ali ela morde e é mordida. Ali ela tem um campo para exercer a sua combatividade e, com isso, amadurece mais depressa. Mais depressa que um filho único, por exemplo. Numa família antiga, com seis, oito filhos, a criança tinha um universo naturalmente mais rico. Tinha com quem disputar o ovo que estava sobrando na mesa. Numa família moderna típica, ele às vezes nem tem com quem disputar nada.
Esperamos que esse texto ajude os pais a tirarem dúvidas sobre a mordida. Um abraço das Profª Marli e Marcela, do C.E.I.M Reimar Ehlert.