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Coluna do Mani

Por Mani Goede

2 de dezembro de 2010

“…Andar tranquilamente na favela onde eu nasci…?

Fui tomado por vários sentimentos nesta semana acompanhando através de noticiários televisivos e pela Internet a cobertura completa da imprensa nacional e internacional referente ao combate das polícias organizadas à guerra do narcotráfico. Primeiramente fiquei desacreditado na ação. Pensei se tratar de mais uma operação desorganizada em que civis perdem a vida por estarem no meio da troca de tiros entre policiais e homens do tráfico.
Posteriormente, assim como milhões de brasileiros, fiquei surpreso com a iniciativa, com as estratégias de combate, com a união de polícias desunidas pelo ego exacerbado que acaba sendo superior a missão de garantir o bem-estar social, coletivo. Logo após, vidrado nas notícias que chegavam com uma rapidez inacreditável, que só a tecnologia dos dias atuais nos permite, arrepiava-me com cada fato. Cada metro avançado pelos guerreiros do bem (forma como os policiais foram batizados pela comunidade dos morros) era mais importante que um gol do Brasil em Copa do Mundo. Não me emociona mais o hino de nossa Pátria antes de uma partida do Mundial de Futebol do que o grito de basta, travado pelo silêncio da ocupação de zonas que até então eram minadas, não por granadas, não por explosivos, mas pela ira e ganância dos senhores do narcotráfico.
Tudo teve início com o registro do primeiro ataque, no domingo, 21/11. Seis homens armados, portando de fuzis, incendiaram dois carros na Linha Vermelha, no início da tarde. Os criminosos ainda dispararam inúmeras vezes contra um carro da Aeronáutica. Ninguém se feriu. O ataque ocorreu na via expressa, no acesso a Duque de Caxias. À noite, outros dois ataques foram registrados em Laranjeiras e na Pavuna.
A imagem do nosso belo e sem igual Rio de Janeiro, conhecido internacionalmente por suas belezas naturais e de suas esculturais mulatas, pelo sol amarelo ouro, pela mata verde viva, pelo azul de seus mares, pelo Cristo Redentor que abençoa sua gente, passou a ser visto como um território de guerra. Questionou-se o preparo em sediar uma Olimpíada, um Mundial de Futebol. O que menos importa para os brasileiros neste momento são os preparativos para estes dois grandiosos eventos, ou pelo menos deveria ser. Importa-nos dar um basta a essa impunidade que assombra, que revolta, que causa náuseas por ser até então como um ponto minúsculo de luz no final de um túnel de medidas ainda não conceituadas por nossos sociólogos e cientistas políticos, de tamanha proporção de infinitude que possuem.
Nos dias que se seguiram, uma série de outros fatos de igual importância foi registrada. Era como se os brasileiros e o resto do mundo estivessem assistindo a terceira edição do filme Tropa de Elite, sendo que não se tratava de uma versão fictícia da real situação da guerra entre polícia e tráfico, mas sim, a realidade que saltava das coberturas jornalísticas para os olhos de mundo todo.
No recente episódio da ocupação policial, o complexo de favelas do Morro do Alemão se tornou palco de um espetáculo sangrento, de pura violência, que nada deve para as coberturas de guerras históricas. Trajando coletes à prova de balas, jornalistas explanavam sobre armamentos e táticas de ataque, mostraram o desespero de quem vive em meio ao que se intitulou de Guerra Civil.
Sentados confortavelmente nos sofás de nossas casas, fomos contemplados com um verdadeiro circo dos horrores. A principal atração da semana foi o exibicionismo bélico dos erroneamente chamados ?homens do morro?, os traficantes.
Veículos incendiados, tiros de potentes armas, bombas, dor, medo, pânico, a atualização constante do saldo do combate que informava: toneladas de drogas apreendidas, números de mortos, de feridos, criminosos presos.
Cada passo da polícia foi seguido, foi narrado, foi coberto pela imprensa, ganhando merecidas pompas de heroísmo. As fotografias, vídeos e textos da cobertura midiática demonstraram a capacidade até então questionada do Estado em dar um basta à violência no morro e de executar com eficiência operações de combate ao crime.
O fato crítico que estamos vivenciando é reflexo de um cenário de desigualdades sociais instalados por décadas e décadas em nosso país. Temos, enquanto nação, obrigação de pacificar as comunidades e torná-las livres do tráfico, mesmo que nossas polícias, muitas vezes armada com sucatas, despreparadas no quesito treinamento e remunerada com salários que são esmolas para os poderosos traficantes, tenham que duelar com poderes paralelos que se valem da violência.
É notório que em meio a esta guerra existem homens de bem, na favela também moram poetas, como o caso de Julinho Rasta e Kátia, autores da tão conhecida melodia ?Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é. E poder me orgulhar, e ter a consciência que pobre tem seu lugar?. A música nos fala em fé, em Deus. Complemento que devemos ter sim, fé em nosso Pai, mas também nos homens de boa vontade, que através de políticas sérias, podem garantir um tratamento igualitário aos desiguais, aos excluídos sociais e que são, assim como você e eu, cidadãos brasileiros.

 

 

Uma guerra distante ou uma realidade que se aproxima?

Estamos a 1.043 quilômetros do Rio de Janeiro. Há quem pense, acompanhando a cobertura midiática, que todas as mazelas sociais apontadas neste momento pelas câmeras e por armas dos mais distintos portes, são uma realidade muito distante da vivenciada pela ?Cidade mais Alemã do Brasil?. Ledo engano. Quanto maior a criminalidade registrada nos grandes centros urbanos de nossa amada pátria Brasil, mais próximo estamos do fim da tranquilidade instalada nas cidades interioranas.
Para que não soframos com tiroteios, com tráfico de drogas. Para que nossos filhos não sejam aliciados por milícias e facções, cabe única e exclusivamente a nós mesmos cumprirmos com o nosso papel. Aquele que não denuncia é conivente. Não podemos cobrar da Polícia Militar e nem mesmo da Polícia Civil que algo seja feito, que prisões sejam constante, que se faça um combate efetivo e ostensivo a bandidagem e a criminalidade, se não denunciamos atitudes suspeitas que são registradas ao lado de nossas casas.
Foi através do Disque Denúncia que informações importantes chegaram ao conhecimento da polícia. Foi através deste serviço, desta ação de utilidade pública, que a comunidade amedrontada, escondida através da ocultação de sua identidade, efetuou ligações ou escreveu bilhetes entregues aos policiais. Que façamos deste o nosso grande exemplo e que também cumpramos com o nosso papel de cidadão, exercitando a nossa cidadania plena e absoluta, para que assim, e só assim, tenhamos direito de cobrar uma reformulação de nossa sociedade.

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