Chef Sabine Hueck e a consultoria ao Festival Gastronômico de Pomerode
Em entrevista, ela falou sobre a experiência e a relação com a cidade e o Brasil
Foto: Carina Adam/Divulgação
O 19º Festival Gastronômico de Pomerode possui uma contribuição internacional para proporcionar aos visitantes e pomerodenses uma experiência ainda mais saborosa. Sabine Hueck é uma chef internacional que há décadas promove a fusão das gastronomias brasileira e alemã em Berlim.
Ela coordenou o cardápio do Festival Gastronômico de Pomerode neste ano e os restaurantes da cidade levarão ao evento 12 pratos inéditos, criados sob a orientação da chef, abordando o tema: “Entre Dois Mundos”, um encontro da tradição local com a modernidade de uma das capitais mais vibrantes da Europa.
Sabine falou com a equipe do Jornal de Pomerode, em uma entrevista sobre sua história junto à gastronomia, sua relação com Pomerode e a coordenação do cardápio.
Jornal de Pomerode: Como começou a sua relação com a gastronomia?
Sabine Hueck: Minha avó materna, que deixou Berlim antes da segunda guerra mundial, era atriz e muito comunicativa. Ela achou a vida em São Paulo muito rotineira e foi atrás de uma aventura nova: comprou uma casa no estilo BAUHAUS no litoral sul de SP. Levou minha bisavó, que era cozinheira, e a irmã dela e montou lá uma confeitaria, que era frequentada por pessoas descoladas da época. Aos finais de semana, diretores de empresas e pessoas da mídia apareciam para comer seus deliciosos bolos alemães e austríacos. Ela foi pioneira em misturar o tradicional com o regional e criar maravilhosas fusões. Eu ia visitar e ajudá-la todo final de semana e me divertia em ver tanta diversidade, mistura e encontros
JP: Seu trabalho é marcado pela mistura de culturas. Por que considera isso importante na cozinha?
SH: Porque a cozinha sempre foi global, muito antes de surgir a palavra “globalização”. Os povos e ingredientes sempre viajaram desde que o mundo é mundo.
JP: A exposição em canais como a Deutsche Welle e o contato com públicos distantes influenciam seu trabalho?
SH: Sim, sem dúvida. Muito me motivou ver como um programa de televisão como “Com Sabor y Saber” pode ajudar as pessoas a descobrirem novas formas de cozinhar e a procurarem formas mais sustentáveis de viver. Foi muito honroso ter moderado e desenvolvido receitas por quatro anos para esse programa de uma emissora pública alemã seguida por um grande público que fala espanhol nos EUA e na América Latina.
Depois de poucos meses de transmissão já se podia notar a grande repercussão que o programa teve, uma grande responsabilidade para mim. Sempre interagi com o público através das redes sociais, o que me permitiu adaptar-me aos desejos dos expectadores, sem abrir mão daquilo que considero ser a gastronomia de qualidade.
JP: Quais as memórias que você tem de Pomerode, das visitas com a sua família?
SH: A Pomerode que eu visitei várias vezes com a minha família durante a minha infância era aquilo que os alemães chamam de “Sehnsuchtsort”. Isto é, aquele local um pouco real e um pouco idealizado onde projetamos boas emoções. Quando já adulta, nos tempos em que morei em Florianópolis, visitei novamente Pomerode.
As visitas atualizaram as lembranças da infância, mas Pomerode continuou sendo para mim uma “Sehnsuchstort”. Agora, tendo trabalhado e interagido mais diretamente com o povo de Pomerode, essas saudades do passado se transformaram num desejo de voltar mais vezes e conhecer e entender melhor essa cidade tão singular.
JP: Como foi este trabalho junto aos restaurantes, para o desenvolvimento dos pratos do festival?
SH: Foi muito bom e desafiador. Percorremos uma jornada que demandou dos envolvidos no Festival abertura para compreenderem a Alemanha atual e, minha, para entender o recorte alemão que Pomerode representa. Vou chegando ao fim desse processo grata pela maioria dos cozinheiros ter se dedicado com interesse e respeito.
JP: É possível combinar cidades tão diferentes como Berlim e Pomerode?
SH: Certamente que Berlim, uma cidade no coração da Alemanha com a história tão longa e intensa que tem, e Pomerode, muito menor e fundada por imigrantes alemães no Brasil, são muito diferentes. Mas quando se trata de gastronomia e culinária, cozinheiros e apreciadores da boa comida têm os mesmos objetivos: querem inventar e descobrir sabores que sejam únicos, mas que remetam às memórias afetivas. Querem uma comida que não apenas satisfaça a fome, mas que ative os sentidos, as boas lembranças e os bons momentos, respeitando os ingredientes locais e regionais. Nisso Pomerode e Berlim são muito parecidos. O que tentei foi precisamente buscar tanto em Pomerode como na Alemanha juntar e combinar esses paladares e emoções. Foi algo fascinante.
JP: A cozinha alemã de 2025 é muito diferente desta que é entendida como “comida típica” em SC? Do que você encontrou em Pomerode em termos de gastronomia, o que lhe chamou atenção? A cidade tem potencial a ser explorado?
SH: Sim, eu vejo um imenso potencial para Pomerode desenvolver uma culinária própria. Penso que vocês têm literalmente a faca e o queijo na mão e não devem se deixar aprisionar somente pelas tradições, mas aproveitar o momento para criar também algo próprio. Produtos como palmitos com ervas, queijos, cremes e pestos próprios, desenvolver um bolo que só exista aí. Os biscoitos “Lebkuchen” pintados à mão, por exemplo, é algo que quase não se encontra mais na Alemanha e que cada dia haverá menos. Eu desenvolveria uma marca própria pra eles. A Alemanha, como o Brasil, é hoje um país muito diverso. Isto se reflete também na culinária. Há desde a cozinha vegana radical até restaurantes onde se oferece carne com fartura. Aquilo que se entende como culinária alemã no Brasil é mais encontrado nas aéreas rurais da Alemanha. Contudo, a culinária de Pomerode é feita com uma qualidade e uma variedade que é difícil encontrar nessa culinária mais tradicional na Alemanha.
Maria Capai, que me acompanhou na consultoria em Pomerode, e eu somos muito gratas por termos conhecido as Rotas do Enxaimel e do Imigrante, que nos foram apresentadas assim que chegamos em Pomerode. É impressionante a quantidade de bons ingredientes existente ali. Desde os muito artesanais aos produzidos em escala maior, alguns premiados, todos frescos e elaboradas com respeito. Experimentamos queijos, embutidos, conservas de vegetais, biscoitos, bolos… Esses ingredientes podem e devem ser cada vez mais incorporados aos cardápios dos restaurantes para reforçar a identidade local, assim como podem ser organizados em uma rota gastronômica.
JP: Você leva consigo, também, aprendizados desta experiência?
SH: Para mim o contato com a gastronomia de Pomerode tem sido extremante gratificante. Conheci cozinheiras e cozinheiros muito sofisticados e que amam o que fazem. São extremante profissionais e colocam muito afeto e emoção nos pratos que desenvolvem. Além disso, foi muito bom confirmar o que alguns amigos já haviam comentado, ou seja, que em Pomerode são encontrados produtos de excelente qualidade e ainda não conhecidos no resto do Brasil. Por fim, foi muito bem ver mais uma vez como a cozinha une e congrega pessoas. Conheci em Pomerode pessoas que são politicamente muito diferentes entre si, com preferências estéticas muito diversas, mas que, quando se trata da gastronomia, se sentem muito próximos umas das outras.