Geral

Carta de amor e fé

No ano de 1999, Schwester Anita escreveu, a punho, carta de nove páginas que conta trechos de sua história. O
documento foi encontrado após seu falecimento

6 de novembro de 2015

Schwester Anita Guenther foi sinônimo de bondade, amor e perseverança. Viveu em muitos lugares e, em cada um deles, aprendeu e deixou histórias. A pomerodense faleceu no mês de outubro e, em Pomerode, deixou marcas para toda a eternidade.

Após seu falecimento, uma carta foi encontrada e, nela, momentos vividos pela Diaconisa. O documento data de 12 de outubro de 1999. Confira na íntegra.

Recordações da minha vida

“Como tu queres, Senhor, sou teu.
Tu és oleiro, barro sou eu.
Quebra e transforma – até que enfim
Tua vontade se cumpra em mim”
(George C. Stebbins)

Meu nome: Anita Guenther. Nasci em Pomerode dia 08 de julho de 1920.

Passei por tantas coisas, tantos lugares neste mundo, tempos bons e difíceis que se torna impossível escrever tudo em detalhes.

Mas antes de começar, quero lembrar de uma coisa: Quando nasce uma criança, Deus já tem um plano pronto para essa vida nova, e é Ele que guia e acompanha-nos, aonde quer que seja. Por isso é importante para cada pessoa: Devemos ficar sempre naquele lugar, onde Ele nos coloca, pois somente lá conseguimos cumprir a nossa missão na terra.

Frequentei a primeira escola em Pomerode da Comunidade Evangélica, dos seis aos 15 anos. Naquela época estudamos só na língua alemã, com umas aulas semanais em português. Um dos meus primeiros professores e pastores foi, principalmente, o Pastor Kurt Friege, que marcou sensivelmente a minha vida. Com ele tivemos um ótimo ensino confirmatório.

Após a confirmação, ajudei em casa, trabalhando na roça. Participei também da Juventude e do “Turn und Sportverein Jahr”, mas tudo isso não me deu a satisfação completa, parecia que Deus tinha outro plano para mim.

Passavam-se os anos. Quando tinha 22 anos de idade, resolvi ir a Blumenau para trabalhar no Hospital Santa Catarina. Não era aquilo que meus pais queriam, mas me deixaram à vontade. Desde o primeiro momento me senti em casa no Hospital e com o trabalho me senti feliz e realizada, apesar de não ser fácil. Com outras moças já começamos a fazer um curso de trabalhos manuais e também o básico de enfermagem.

Lá no Hospital aprendi pela primeira vez o que significa servir ao próximo, servi-lo em todas as suas necessidades quando doente. Não é fácil, mas me deu uma satisfação imensa no coração.

Trabalhei lá com as Diaconisas de Wittenburg, da Alemanha, até agosto de 1944. Como essas Irmãs me deram um bom exemplo no servir aos doentes com dedicação e muito amor, me senti chamada a seguir seu exemplo e ser Diaconisa.

Em 1939 já tinha sido a inauguração da nossa Casa Matriz de Diaconisas em São Leopoldo. Com Magda Maier, que trabalhava no Johanna – Stift em Blumenau, fomos a São Leopoldo em outubro de 1944. Naquela época uma viagem de três dias.

Agora começou uma vida completamente nova. Ficamos nos primeiros anos numa pequena antiga casa, que era uma vez do Clube dos Atiradores. No início éramos quatro moças e já recebemos o nosso traje no mesmo mês e também começamos com as aulas diversas: estudo bíblico, ética profissional, enfermagem e outras mais. Gostei de lá. A nossa Superiora era a Diaconisa Klara Schöfer e o nosso Pastor foi por muitos anos o Pastor Johannes Raspe.

Eu me senti bem nesta pequena família, mas como Magda e eu já tínhamos uma noção na enfermagem fomos transferidas logo em dezembro de 1944 para o Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, porque lá havia falta de Irmãs.

Após um ano fui enviada para Sinimbú, um Hospital pequeno, e na época muito precário. Porém, me acostumei em pouco tempo. Nunca pensamos em reclamar no nosso campo de trabalho, queira ou não, simplesmente tínhamos que obedecer as ordens dos Superiores, cuja dedicação aceitamos como a vontade de Deus.

As primeiras férias ganhamos só depois de dois anos. Mesmo assim, não me lembro de ter sofrido muito de saudades de casa, dos meus pais, dos irmãos, dos meus cachorros e gatos, pois tinha tanta coisa para estudar e fazer, que nem deu tempo para pensar. Para mim, além de tudo, ainda entrei no curso para estudar a língua portuguesa, que eu não sabia. Até o começo do curso de auxiliar de enfermagem já consegui acompanhar todos os estudos. Em novembro de 1948 fizemos o exame de auxiliar de enfermagem no qual passei bem.

Cada ano tínhamos um retiro espiritual de três dias na Casa Matriz. Lembro com gratidão dos dias de confraternização com as outras Irmãs, onde todas unidas, oramos, refletimos sobre textos bíblicos e trocamos as nossas experiências no campo de trabalho. Foram dias abençoados e nós voltamos alegres e com novo ânimo para o trabalho.

Os tempos passaram, dias bons, dias difíceis, mas com Deus ao lado deu para superar tudo. Em fevereiro de 1949 fui enviada para o Hospital em Agudo. Naquela época um Hospital pequeno e simples. A Superiora Diaconisa Ella Harz. Foi um tempo bom entre este povo humilde e pobre. Parece que me agarrei sempre de novo nos campos de trabalho, de uma maneira que a despedida cada vez foi muito dolorosa.

Em janeiro de 1951 fui enviada para Hamburgo Velho, para substituir a Irmã Lisolette Scholz, que viajou para Alemanha.
No serviço social lá na Comunidade senti um amor e uma dedicação toda especial. Foi um tempo muito feliz e de plena realização. Mas meu caminho continuava, tinha ainda outras tarefas na minha frente.

Em fevereiro de 1952 começou a “Rüstzeit” o tempo de preparo para a Ordenação ao Ministério Diaconal. A Ordenação teve lugar e dia, 09 de março de 1952. Foi um dia todo especial, festivo, mas há momentos na vida que não dá para escrever, fica entre Deus e a gente, porque é “Terra Santa”.

Comigo foram ordenadas as Irmãs Magda Moiser e Hedig Schäffer. Em março, nasci mais uma vez para o Hospital Moinhos de Vento, mas logo em julho de 1952, num culto festivo, houve a minha instalação na comunidade de Novo Hamburgo. Com isso se cumpriu finalmente meu grande desejo: trabalhar na Comunidade e no serviço social.

E mais uma vez uma grande alegria Deus tinha preparado para mim: em maio de 1956 tive o grande privilégio de viajar para Alemanha, para participar de um curso de aperfeiçoamento em “Gemeindearbeit”.

A Irmã Margarethe Hellwig e eu viajamos num navio italiano, o “Augustus”. Foram 15 dias no mar, que maravilha! O curso foi realizado na Casa Matriz em Kaiserswerth. Escrevi um diário que deu, no final, um livro inteiro. Devia anexar nas minhas recordações, mas quem será que tem vontade e interesse em ler tudo isso!?

Em Frankfurt am Haim participei do grandioso “Dia da Igreja” (Kirchentag) cujo tema era: “Lasset mich versöhnen mit Gott”. Também aqui não há palavras que possam expressar a emoção que nos deram esses dias abençoados. Após o curso trabalhei um mês como Gemainde – Schwester em Langenburg e um mês na clínica psiquiátrica em Kaiserwerth.

Em outubro a volta para o Brasil, muito feliz e enriquecidas espiritualmente. Aqui voltei para o meu trabalho na Comunidade em Novo Hamburgo até 1960. Foi um tempo inesquecível e maravilhoso, mas o caminho da vida não parou por aí. Em 1960 fui encaminhada à Fundação Evangélica.

Depois de 10 anos, deixar a querida Comunidade foi doloroso demais. Devia outra vez começar um trabalho completamente novo, sem um preparo especial. Além de ser “Hausmutter”, tinha que dar aulas de enfermagem e alemão. Esses anos talvez foram os mais difíceis, mas, para mim, muito proveitosos, pois tinha uma oportunidade de melhorar o português, com o qual estou em pé de guerra até hoje em dia.

Fiquei na Fundação Evangélica seis anos. Lá, um dia recebi uma carta de Pomerode do Pastor Liesenberg. Ele pediu, insistindo, que fosse urgente a Pomerode para assumir a direção do Hospital e Maternidade Rio do Testo.

No Hospital, houve divergências entre a diretoria, Pastor e Irmãs, por causa disto as duas Irmãs Frieda Klaus e Ilse Krieck tinham deixado o trabalho e o Hospital ficou sem Irmãs. Eu fiquei na dúvida. O que fazer? Tinha certeza que após este incidente, a Casa Matriz jamais mandaria outra vez Irmãs para este campo de trabalho.

Eu me senti chamada para ajudar o nosso Hospital na minha terra Natal. Pedi a direção da Casa Matriz para me liberar para ir a Pomerode e recebi a resposta “não” e isso era definitivo. Pela primeira vez na minha vida estava disposta a não obedecer as ordens da Casa Matriz. Mas a decisão não foi fácil.

Um lado a minha Casa Mãe, que eu amava. E no outro, a minha querida Pomerode, que precisava de mim. Pedi a Deus para me dar um sinal de qual o caminho certo: Abandonar a Casa Mãe, tirar o meu hábito, que já era uma parte de mim. Ou deixar o meu Hospital e a minha Comunidade em Pomerode em mãos?

E Deus me deu a resposta. Um dia a enfermeira Sélia Gruhle veio me visitar na Fundação perguntando se eu iria para Pomerode. Eu falei sobre os problemas pessoais nos quais me encontrava. Sélia disse: “Eu estou disposta a ir para Pomerode, mas só se você também for”.

Foi essa a resposta que Deus me deu. Foi uma decisão muito difícil, não observar as ordens do Pastor e Irmã na Casa Matriz, mas as vezes encontramos situações na nossa vida, em que vale mais obedecer a Deus do que os homens.

Porém, no último dia na Fundação, chegou o Pastor Pommer (que substituía o Pastor Raspe) e disse, que ele havia falado mais uma vez com a direção da Casa Matriz e eles deram a licença de ir a Pomerode, mas a condição era de antes substituir a Irmã Maria na Maternidade Elisabeth Köhler, que queria viajar para Alemanha por um ano.

Como o Pastor Liesenberg já tinha, além da Irmã Sélia, também temporariamente a Sra. Hanni Leopold, de Corupá, isso se tornou possível.

O tempo em Blumenau foi muito útil e mesmo necessário para mim. O administrador me ensinou como administrar um Hospital, pois disto não tinha a mínima noção. Por outro lado, aprendi muito como parteira e o trabalho na Maternidade. “Como os caminhos de Deus são maravilhosos e perfeitos!”. Quando Ele nos dá uma tarefa, Ele nos dá também a capacidade de realizá-la.

Trinta de outubro de 1967. Finalmente em Pomerode. Neste mês de outubro já faz 32 anos entre lutas, alegrias, dificuldades, mas sempre sentindo a bondosa Mão de Deus em tudo que realizamos. Na época, o Hospital era pequeno e com poucas possibilidades de tratar e cuidar os nossos doentes com a dignidade que merecem. Graças ao Pastor Liesenberg já existia um aparelho de Raio X e uma Maternidade nova e também quartos para os funcionários no segundo andar.

Mas não ficamos desanimados. No primeiro tempo sempre vinha um médico da Vila Itoupava para atender os doentes. Porém, mais tarde, assumiu o Dr. Horst W. Bernhardt a direção do Hospital.

Aos poucos chegaram mais clientes e, muito devagar, mas continuamente, se mostravam pequenos progressos. Sélia e eu, com nossos poucos funcionários, continuamos com perseverança na luta diária. Agora já conseguimos fazer reformas na casa. Mais tarde foi feito o Centro Cirúrgico, depois a Pediatria e o prédio para o aparelho de raio X. Construímos também um salão comunitário no terreno ao lado.

Além de ser administradora do Hospital, tinha que fazer muitas outras coisas. Agora podia enfrentar tudo que já tinha “ensaiado” antes nos campos de trabalho anteriores. Era presidente do nosso grupo de Oase,Orientadora Paroquial de mais três grupos, Conselheira da Fundação Cultural, Conselheira da diretoria da Comunidade Evangélica, Fundadora e Orientadora do Grupo Folclórico Pomerano e mais outras tarefas.

O tempo não para. Em julho de 1991 recebi outra vez uma passagem para Alemanha. Dessa vez tive a possibilidade de conhecer a terra Natal dos meus antepassados: Pommern.

Conheci a igreja em Arnhausen e a escola que meu avô frequentava nos primeiros anos. Conheci também a aldeia de Farbezin, onde nasceu a Oma Guenther.

Quero finalizar aqui, apesar de ter muitas e muitas recordações ainda numa longa vida de quase 80 anos. Gostaria de mostrar com tudo isto como Deus nos usa como instrumentos nas suas mãos. Porém, para sermos aptos para esta grande missão, Ele deve nos preparar e formar. Somos barro nas mãos dele e Ele que nos forma. Isto dói sim, dói muito e a própria natureza se revolta contra a transformação, mas quando achamos que Ele exige demais de nós, Ele dá-nos em dobro. Jamais nos abandonará no caminho da vida enquanto nós o seguirmos.

“Como tu queres, Senhor, sou teu.
Tu és oleiro, barro sou eu.
Quebra e transforma – até que enfim
Tua vontade se cumpra em mim!”.
(George C. Stebbins)

Anita Guenther, diaconisa aposentada
Pomerode, 12 de outubro de 1999

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