Meio Ambiente

Barulho de barcos e turistas prejudica comunicação dos peixes e pode ameaçar recifes de corais, aponta pesquisa

Ruídos provocados por embarcações e atividades turísticas podem afetar alimentação, reprodução e defesa territorial dos peixes, comprometendo o equilíbrio dos ecossistemas marinhos

20 de julho de 2026

Foto: Edmar Paz/Divulgação

O barulho causado por motores de embarcações, como lanchas e motos aquáticas, além da movimentação de turistas no mar, pode comprometer a comunicação entre os peixes e afetar diretamente o equilíbrio dos recifes de corais. É o que revela uma pesquisa desenvolvida por cientistas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A pesquisa identificou que a poluição sonora subaquática interfere na emissão e na percepção dos sons utilizados pelos peixes para se comunicar. Essa alteração pode impactar comportamentos essenciais para a sobrevivência das espécies, como alimentação, reprodução, defesa de território e interação em grupo.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores monitoraram áreas de intensa atividade turística nas praias de Carneiros e Tamandaré, no litoral de Pernambuco. Durante o estudo, foram registradas 80 horas de gravações subaquáticas, acompanhadas por censos visuais realizados por mergulhadores para identificar a quantidade e as espécies de peixes presentes.

Ao todo, foram encontradas entre 18 e 23 espécies de peixes, sendo que somente na Praia dos Carneiros foram contabilizados cerca de 1,4 mil indivíduos.

Sons desapareceram em áreas com maior presença humana

A pesquisa identificou nove tipos diferentes de sons produzidos pelos peixes. Em locais com maior movimentação de embarcações e turistas, três desses sons deixaram de ser registrados.

O fenômeno ocorre porque o ruído contínuo gerado por motores acaba mascarando os sinais acústicos emitidos pelos peixes, dificultando a comunicação entre eles. Em alguns casos, os animais também reduzem ou interrompem a emissão de sons em resposta ao excesso de barulho.

Esse efeito pode comprometer atividades fundamentais para a sobrevivência das espécies, já que muitos peixes utilizam sons para localizar parceiros, defender territórios, organizar comportamentos em grupo, buscar alimento e identificar possíveis predadores.

Impacto vai além dos peixes

Além de alterar a comunicação das espécies, o estudo constatou uma redução na complexidade acústica dos recifes, indicador utilizado para medir a diversidade e a variação dos sons presentes no ambiente marinho.

Os pesquisadores alertam que os peixes recifais desempenham papel fundamental na manutenção da saúde dos recifes de corais, contribuindo para o controle de algas, o equilíbrio das cadeias alimentares e a preservação dos próprios corais.

Por isso, qualquer alteração em seu comportamento pode gerar impactos indiretos sobre atividades econômicas que dependem desses ecossistemas, como a pesca artesanal e o turismo.

Problema pode ocorrer em outras regiões do Brasil

Embora o monitoramento tenha sido realizado no litoral pernambucano, os pesquisadores destacam que esse tipo de impacto pode ocorrer em qualquer região onde exista intenso tráfego de embarcações ou grande fluxo de turismo náutico.

Segundo o estudo, áreas de recifes em outras partes do país também podem sofrer consequências semelhantes, dependendo da intensidade do ruído, das características do ambiente e das espécies presentes.

Medidas simples podem reduzir os impactos

Os pesquisadores ressaltam que ainda não existem limites universalmente definidos para níveis seguros de ruído em ambientes recifais voltados à proteção dos peixes. No entanto, apontam que algumas ações podem minimizar os impactos da poluição sonora.

Entre elas estão a organização das rotas de embarcações, a redução da velocidade em áreas ambientalmente sensíveis e o controle da concentração de atividades turísticas sobre determinados recifes.

A pesquisa reforça que considerar o ambiente sonoro na gestão das áreas costeiras pode contribuir para a preservação dos ecossistemas marinhos e dos serviços ambientais que eles oferecem à sociedade.

Fonte: Agência Brasil

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