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“As Meninas de Pomerode”

Uma dança clássica, envolvente, que instiga olhares e rodopia a alma. Uma arte delicada, forte, que necessita de precisão e concentração.

1 de junho de 2015

Os passos, os gestos, os sorrisos. Dentre os rodopios alegres dessas 24 meninas, uma grande preocupação se esconde. O futuro do Corpo de Baile Municipal, que não recebe ajuda do poder público desde 2012 para custear suas viagens e despesas ao longo do ano.

A professora Andrea Ianetta Hradec, que está com o grupo desde o início do projeto, diz que a situação é complicada. As meninas são convidadas a participarem de muitos festivais, mas nem sempre podem comparecer. “Já negamos muitos convites por não termos dinheiro para ir até a competição. Se não fazemos nada para arrecadar verba, não podemos nos apresentar e deixamos de levar o nome da cidade de Pomerode para fora”.

 

O grupo sempre contou com iniciativas públicas para se manter vivo e em funcionamento. Entretanto, desde o ano de 2012, ele não é contemplado com verbas públicas, ficando assim à mercê dos próprio integrantes, que lutam para conseguir sustentar as viagens e figurinos.

Andrea e as mães das meninas do grupo têm feito rifas para arrecadar dinheiro. “O grupo não pode parar agora, as meninas estão conquistando cada vez mais notoriedade, trazendo vários prêmios para nossa cidade, mostrando o balé de Pomerode. Corta-me o coração saber que podemos perder esses talentos e que todo o treinamento até aqui possa não servir para nada”.

A mãe Rubia Dallmann diz-se decepcionada com a postura pública perante um projeto que traz tanto nome para Pomerode. “Este grupo é uma bênção na cidade, uma vez que muitas meninas se revelam aqui e trazem prêmios para o município. Elas estão se destacando cada vez mais. Já não são mais ‘aquelas meninas’ e sim, ‘As meninas de Pomerode’ quando chegam a algum lugar para competir. As outras Cias já conhecem o grupo e sabem do seu potencial”, explica.

A professora diz que, tudo que elas podem fazer para diminuir os custos das viagens, elas fazem, mas mesmo assim, os valores são altos. “Nós nunca ficamos em hotéis, sempre em alojamentos, justamente por ser mais barato. Sempre optamos pelo transporte que nos custará menos. Buscamos sempre diminuir despesas. Por exemplo, quando estávamos em Itajaí, no Festival Meri Rosa, éramos o único grupo que ficava o dia inteiro o hall de entrada do teatro esperando o tempo passar, pois o nosso alojamento era em Navegantes e cada vez que precisávamos usar o transporte custava para nós R$ 150. Como é um gasto a mais, optamos de ficar pela cidade mesmo. Isso não é um problema para nós, mas gostaríamos de ter mais ajuda. Principalmente no figurino e transporte, pois o custeio disso é muito alto. No ano passado, todos os figurinos foram pagos pelas bilheterias do nosso espetáculo. Depois de sete anos, conseguimos enfim criar um uniforme. Pode até parecer algo sem importância, mas em muitos festivais, uniforme e um bom figurino também contam nota, e se o grupo não preenche os requisitos, já está deixando de pontuar”, desabafa.

 

Além disso, as inscrições para os festivais também não são baratas. “Para Itajaí, tivemos de pagar quase R$ 5 mil de inscrição. Agora para São Paulo, são mais R$ 2,5 mil. Fora os R$ 4,4 mil que estamos prevendo para ônibus. São valores muito altos para se tirar do próprio bolso”, conta a professora.

Todos os anos, Andrea precisa apresentar o projeto para a Fundação Cultural. “Eles aprovaram o projeto ano passado. Fiz três licitações. A última foi aprovada. Enrolaram o ano inteiro e no final do ano tive que aceitar metade do salário que havia sido combinado. Este salário é pelas aulas que dou nas escolas. Não recebemos ajuda para o Corpo de Baile. Estamos sempre a mercê de nossas ações. No início do ano, fomos convidadas a participar de um festival em Minas Gerais. Recusamos, pois não tínhamos dinheiro. Há algumas semanas, fomos convidadas para um festival em Torres, no Rio Grande do Sul e novamente recusamos por falta de verba. As meninas perdem com isso, é claro, mas não são só elas. Pomerode também perde com isso, deixando de levar o seu nome para competições fora. É muito triste ver que o poder público não auxilia um projeto que traz benefícios para a cidade,” conta.

Temerosas, as mães não querem que o grupo acabe, mas sabem que a situação está cada vez mais crítica. A professora recebe muitas propostas para trabalhar em outros locais, mas até o momento, decidiu que vai ficar no grupo, pois conhece a dedicação das meninas. “Nós nos preocupamos que algum dia ela se canse e aceite uma dessas propostas. Afinal, todos têm limites. Não queremos que o grupo acabe de maneira alguma, pois o balé se tornou a vida dessas meninas e não desejamos que nenhum sonho seja destruído”, dizem.

A professora Andrea explica que não tem planos de sair do grupo e sim, pretende fazê-lo crescer. “Eu faço isso por amor ao balé e as meninas. Desde o início do projeto até hoje, eu vejo como as coisas caminharam e cresceram. Algumas dessas meninas estão comigo desde o início, no primeiro ano do Corpo de Baile. Elas se desenvolveram aqui. Se tornou um sonho para muitas delas. A vontade de desenvolver uma carreira profissional no balé. Isso é muito gratificante. Mas é difícil sem a ajuda necessária”, conta.

Mesmo sem ajuda vinda do poder público, o grupo realiza ações para conseguir o dinheiro necessário para arcar com os custos. Entretanto, todo o empenho consegue surprir apenas uma parte das necessidades. O resto, são os próprios pais que custeiam, para que o grupo não fique sem participar. Para as mães, é uma honra poder ajudar, mas o gasto é muito alto. “Em um ano, o gasto dos pais com uma bailarina é, por baixo, dois mil reais. Nós gostamos de ajudar, é necessário. Mas também pesa no nosso bolso. Deveríamos ter o apoio do poder público, mas a verdade, é que parece que eles não tem interesse em investir nessas meninas. Entretanto, na hora que elas ganham prêmios, como foi o caso do festival em Itajaí, onde elas trouxeram 13 troféus, não se hesitou em nenhum momento de chama-las de ‘nossas meninas, mas incentivo não há”, concordam todas as mães.

Para Elisângela Meier, mãe de uma bailarina, a dança muda as meninas e traz muitos benefícios para a saúde e comportamento delas. “O balé ajuda na qualidade de vida da minha filha. Hoje ela tem mais concentração, é mais disciplinada, sua postura é melhor. Além disso, com as aulas, ela não tem tempo para pensar em coisas ilícitas, como drogas. Ela cuida da alimentação e mantem o corpo em forma. Por isso, queremos muito que o Corpo de Baile continue. Além de ser o sonho dela”, explana.

Conforme informações, antes o projeto era mantido por meio da Prefeitura Municipal de Pomerode e da Fundação Cultural. De acordo com André Cristiano Siewert, Presidente da Fundação Cultural, o Ballet Cultura está entre os programas que serão contemplados pela Fundação, mas que até o momento, eles ainda não receberam a subvenção proveniente da prefeitura para o apoio destes projetos. O presidente da Fundação Cultural diz ainda que no ano passado, o projeto foi ajudado com um valor em dinheiro. Não sei especificar o valor e a época em que foi pago, mas houve sim ajuda da Fundação ao Projeto Ballet Cultura, diz.

Procurada pela redação do Jornal de Pomerode, a Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte não respondeu as solicitações de contato. Os responsáveis não foram encontrados para responder os questionamentos.

Outra situação que a professora Andrea comentou, foi que, ela pediu o espaço do Teatro Municipal para realizar os espetáculos dos dias 27 e 28 de junho, a fim de custear a viagem para um Festival Internacional, que irá acontecer em Indaiatuba, São Paulo, no mês de julho. Na ocasião, teria sido cobrado o valor do aluguel do teatro, e que a pessoa de Rejane Koch Goede teria conseguido o espaço gratuitamente. Questionado sobre assunto, André informou que a Fundação Cultural não recebeu nenhum pedido de locação do teatro por parte do Projeto. “O que geralmente fazemos, é uma parceria com a bilheteria do espetáculo. Normalmente não cobramos o valor do aluguel. O que cobramos sim, é a taxa de limpeza do teatro. Mas para estes espetáculos, não veio nenhuma solicitação à Fundação. Não se tem o interesse em acabar com o projeto, uma vez que traz muitos benefícios para as famílias envolvidas e também para a cidade em si, que acaba se destacando com o nome delas”, afirma o presidente. Ainda conforme André, o Ballet Cultura deve passar por algumas adequações para se enquadrar nos padrões da Fundação Cultural.

 

Unidas por um sonho – O Corpo de Baile Municipal conta hoje com 24 meninas. Todas com uma paixão em comum: o balé. Algumas, sempre amaram a dança, e outras, descobriram a paixão quando começaram a praticar. Há meninas que já estão oito anos participando com Andrea do projeto.

Para a bailarina Maria Eduarda, o balé sempre foi uma paixão e quando começou a fazer aula com cinco anos, ainda na E.E.B.M Professor Curt Brandes, seu objetivo era entrar para o Corpo de Baile. Chamada por Andrea para integrar o grupo, a menina, que hoje tem 13 anos, continua firme e forte em cima da sapatilha. E tem planos. “Quero fazer do balé minha carreira. Pretendo seguir este caminho, é o meu sonho”.

Já para Ana Carolina, também bailarina, o balé foi uma descoberta. Ela teve seu primeiro contato com a dança aos sete anos, na E.B.M Almirante Barroso. “Quando a professora a convidou para fazer parte do Corpo de Baile foi uma imensa surpresa. Eu não cabia em mim de alegria”. Hoje com 15 anos, a menina (já adolescente) diz que tem o balé como sua paixão, e que pretende leva-lo por toda a via.

Quando quastionadas sobre como se sentiriam se o projeto acabasse, muitas foram as respostas, mas o sentimento dentre todas as bailarinas foi um só. Tristeza. “Eu acho que ficaria meio sem rumo”. “Eu não ia querer fazer mais nada”. “Acho que eu ia entrar em depressão”. “Eu não saberia mais o que fazer”.

Umas mais velhas, outras mais novas. Porém, todas muito unidas, sendo amigas para todas as horas. Quando uma não consegue executar o passo, as outras ajudam-na a conseguir. “Somos uma grande família. A nossa união permite chegarmos onde chegamos”, explicam.

No início, os treinos e ensaios eram feitos no Pavilhão de Eventos. Em 2008 foi prometido uma sala, que seria entregue junto com o Teatro Municipal. Mas ela só foi entregue em 2012 e ainda há problemas. “Por exemplo, quando chove, não conseguimos usar todo o espaço, pois há goteira e o piso fica molhado. Não podemos nos arriscar, pois pode-se escorregar e sofrer uma lesão séria. Muitas vezes já deixamos de ensaiar, comentam. Balé já é arriscado normalmente, imagina em condições precárias”, diz uma das bailarinas.

Elas também temem pelo projeto. “Nós crescemos muito desde que começamos. Não queremos parar agora. Temos muito ainda o que aprender. Nosso desejo é chegar mais longe e conquistar mais prêmios para a cidade. Temos orgulho de levar o nome de Pomerode e desmistificar a ideia de que uma cidade pequena não pode ter nome no balé. Entretanto, sem a ajuda de custo do poder público, é difícil para nós. Sabemos da dificuldade da professora Andrea e de nossos pais em manter o projeto. Mas vamos continuar firmes, e continuar lutando para que eles reconheçam e apoiem nossa dança”, terminam.

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