Artigo
Entre o final da década de 50 e meados da de 60, o Brasil experimentou uma efervescência cultural que jamais se repetiu.
Cultura em tempos criativos
Entre o final da década de 50 e meados da de 60, o Brasil experimentou uma efervescência cultural que jamais se repetiu.
Nessa época, que se estende dos “anos dourados” aos “anos de chumbo”, Jobim, Vinícius, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Baden Powell, Ronaldo Bôscoli lançaram a Bossa Nova, que conquistou o mundo e influencia a MPB até hoje. Surgiu o Cinema Novo, com Glauber, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, Ruy Guerra e Luiz Carlos Barreto, lançamentos literários, com Jorge Amado, Fernando Sabino, João Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, sem falar na ousada arquitetura de Oscar Niemeyer e na contundência dos teatros Opinião e Arena. Às vésperas da “era de chumbo”, chegava da Bahia a Tropicália, com Caetano, Gil, Tom Zé, Betânia e Gal, conciliando a bossa nova com o baião nordestino e a música pop americana. Assim, abriram novamente portas e janelas, rearejando o ambiente e dizendo que tudo valia. Logo depois, o ar se tornaria asfixiante e nada valeria. Pouco antes de sua morte, em 16 de julho de 1974, o dramaturgo brasileiro Oduvaldo Vianna Filho lamentava: “Há uma geração em silêncio”, referindo-se à censura da ditadura militar.
Em seu enciclopédico livro “Criatividade e Grupos Criativos”, o sociólogo italiano Domenico de Masi faz uma exaustiva pesquisa histórica na tentativa de esclarecer o mistério das grandes concentrações de genialidade que ocorreram no tempo e no espaço. “Como explicar tantos arquitetos, filósofos, escultores e escritores na Atenas de Péricles? E por que tantos pintores, escultores, arquitetos, historiadores e poetas, todos juntos, na Florença dos Médicis? Por que tantos psicólogos, físicos, filósofos, escritores, pintores, designers, arquitetos e músicos, de novo, todos ao mesmo tempo, na Viena de Klimt e Musil?”, indaga ele antes de dar início à sua viagem através da história, o que lhe permitiu esboçar algumas conclusões ao final das 705 páginas.
Certamente, os “anos dourados” de JK tem algo a ver com a efervescência cultural concomitante ao seu período de governo, assim como os “anos de chumbo” tem muito a ver com a carência de novos ícones, sem que nada de novo surgisse durante mais de trinta anos.
Neste sábado, 14 de julho, o mundo das artes celebra os 150 anos de nascimento do pintor austríaco Gustav Klimt.
Na sociedade vienense do final do séc. XIX e das primeiras décadas do séc. XX florescem dezenas de personalidades criativas. Wagner, Olbrich e Loos, na arquitetura; Freud, Adler e Reich, na psicologia; Strauss, Mahler e Schönberg, na música; Klimt, Schiele e Kokoschka, na pintura; Musil, Kraus, Zweig, Schnitzler e Hofmannsthal, na literatura; Hoffmann, Moser e Flöge, no design; Wittgenstein, Mach e Schlick, na filosofia. Muitos historiadores têm afirmado que o nascimento do Modernismo se deu na Viena da virada do século.
É nesse ambiente efusivo e permissivo, que recusava a tradição acadêmica, que viceja a rebeldia e a singularidade de Klimt. Influenciado pelos mosaicos bizantinos que conheceu em Ravena, Itália, ousou inserir ornamentos moderníssimos, com pó de ouro, em seus quadros. Nas obras dessa fase dourada, realismo e abstração se confrontam entre os motivos geométricos repetidos, deixando transparecer apenas algumas partes essenciais realistas, que permitem o seu entendimento.
Confiscado pelo regime nazista em 1938, “O Retrato de Adele Bloch-Bauer I” é a quarta tela mais cara já vendida até hoje – 135 milhões de dólares, em 2006.
Entre o final da década de 50 e meados da de 60, o Brasil experimentou uma efervescência cultural que jamais se repetiu.
Nessa época, que se estende dos “anos dourados” aos “anos de chumbo”, Jobim, Vinícius, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Baden Powell, Ronaldo Bôscoli lançaram a Bossa Nova, que conquistou o mundo e influencia a MPB até hoje. Surgiu o Cinema Novo, com Glauber, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro, Cacá Diegues, Paulo César Saraceni, Leon Hirszman, Ruy Guerra e Luiz Carlos Barreto, lançamentos literários, com Jorge Amado, Fernando Sabino, João Guimarães Rosa, Ferreira Gullar, sem falar na ousada arquitetura de Oscar Niemeyer e na contundência dos teatros Opinião e Arena. Às vésperas da “era de chumbo”, chegava da Bahia a Tropicália, com Caetano, Gil, Tom Zé, Betânia e Gal, conciliando a bossa nova com o baião nordestino e a música pop americana. Assim, abriram novamente portas e janelas, rearejando o ambiente e dizendo que tudo valia. Logo depois, o ar se tornaria asfixiante e nada valeria. Pouco antes de sua morte, em 16 de julho de 1974, o dramaturgo brasileiro Oduvaldo Vianna Filho lamentava: “Há uma geração em silêncio”, referindo-se à censura da ditadura militar.
Em seu enciclopédico livro “Criatividade e Grupos Criativos”, o sociólogo italiano Domenico de Masi faz uma exaustiva pesquisa histórica na tentativa de esclarecer o mistério das grandes concentrações de genialidade que ocorreram no tempo e no espaço. “Como explicar tantos arquitetos, filósofos, escultores e escritores na Atenas de Péricles? E por que tantos pintores, escultores, arquitetos, historiadores e poetas, todos juntos, na Florença dos Médicis? Por que tantos psicólogos, físicos, filósofos, escritores, pintores, designers, arquitetos e músicos, de novo, todos ao mesmo tempo, na Viena de Klimt e Musil?”, indaga ele antes de dar início à sua viagem através da história, o que lhe permitiu esboçar algumas conclusões ao final das 705 páginas.
Certamente, os “anos dourados” de JK tem algo a ver com a efervescência cultural concomitante ao seu período de governo, assim como os “anos de chumbo” tem muito a ver com a carência de novos ícones, sem que nada de novo surgisse durante mais de trinta anos.
Neste sábado, 14 de julho, o mundo das artes celebra os 150 anos de nascimento do pintor austríaco Gustav Klimt.
Na sociedade vienense do final do séc. XIX e das primeiras décadas do séc. XX florescem dezenas de personalidades criativas. Wagner, Olbrich e Loos, na arquitetura; Freud, Adler e Reich, na psicologia; Strauss, Mahler e Schönberg, na música; Klimt, Schiele e Kokoschka, na pintura; Musil, Kraus, Zweig, Schnitzler e Hofmannsthal, na literatura; Hoffmann, Moser e Flöge, no design; Wittgenstein, Mach e Schlick, na filosofia. Muitos historiadores têm afirmado que o nascimento do Modernismo se deu na Viena da virada do século.
É nesse ambiente efusivo e permissivo, que recusava a tradição acadêmica, que viceja a rebeldia e a singularidade de Klimt. Influenciado pelos mosaicos bizantinos que conheceu em Ravena, Itália, ousou inserir ornamentos moderníssimos, com pó de ouro, em seus quadros. Nas obras dessa fase dourada, realismo e abstração se confrontam entre os motivos geométricos repetidos, deixando transparecer apenas algumas partes essenciais realistas, que permitem o seu entendimento.
Confiscado pelo regime nazista em 1938, “O Retrato de
Adele Bloch-Bauer I” é a quarta tela mais cara já vendida até hoje – 135 milhões de dólares, em 2006.