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ARTIGO

Eu vim de lá…

1 de junho de 2015

O que representa o desenvolvimento de uma cidade? Ou de um bairro? Quais itens são levados em consideração para determinar se um município é grande? Eu acredito que é a mente dos moradores. De nada adianta ter mais de 100 mil habitantes, milhares de quilômetros de ruas asfaltadas, enumerosas lojas se o pensamento de quem ali vive é ainda do sistema colonial.
Venho de uma cidade com uma história linda e emocionante, cidade antiga… dos tempos de D. João VI, planaltos férteis, campos e mais campos de cultivos da terra, planícies e cachoeiras. Venho de uma cidade velha, com cara de nova. Com cara fechada, o povo fechado. Quem chega lá, que é de fora, reclama da dificuldade em se conseguir conversar. Fecham-se as caras, as portas e as janelas. Comunicação não é o forte da cidade. No auge do modernismo, lindos e suntuosos casarões quase centenários foram ao chão para dar lugar a prédios e modernas estruturas.
De tão tacanha, depois de quase um século depois do incêndio do Teatro Municipal, agora uma pequena legião de saudosistas da cultura brasileira, saudosistas de cultura tentam reavivar a necessidade de se ter um espaço direcionado a apresentação de peças teatrais. Falando em ser fechado e falando em teatro… lá existe uma Cia. de Teatro magnífica, criativa e competente, mas que quem mora lá não prestigia o trabalho árduo dos artistas que se viram em ações alternativas para ter um pão, já que nem circo dá certo por lá.
Lá tudo que é de fora é magnífico, utiliza-se muito o ditado “Santo de casa não faz milagres”. Terra de Viscondes, de pajés, de lobos bravos, terra que foi defendida até o fim pelos seus primeiros habitantes, estes que assombravam as comitivas portuguesas, que atacaram a bela mossa que carregava consigo a imagem da Virgem de Belém e que para ela, a cidade rende homenagens até hoje.
Terra de coronéis. Muito se pergunta: Dos “qualé” você é? Eu? Eu sou mais uma dos muitos jovens que cresceram lá, amam a cidade, mas não conseguem enxergar nela uma cidade grande tal qual o número de habitantes, jovens que veem em cidades mais novas, menores, a chance de crescer jovens que sabem que devemos sim respeitar o passado por tudo que vivemos, mas que é preciso ousar, comunicar-se e fazer para que não haja picuinhas coronelísticas, política antiga, em que se fulano foi quem fez, lá eu não mexo. Queremos o bem de todos, o bem para todos.
Por mais incrível que pareça, uma cidade com 20% da população, com 10% do tamanho da cidade que nasci, me acolheu e me surpreendeu. Aqui fui recebida com sorriso no rosto e apesar de um sotaque diferente eu me identifico com a organização, com o clima, o transito, o teatro… O TEATRO!! Talvez não seja a construção apenas de um espaço físico, mas sim a cultura de teatro, a cultura em si não pode, não deve, ser esquecida.
Vi aqui a organização no trânsito e a esperteza de motoristas.
Vi também algumas semelhanças, são tristes, mas semelhanças nem sempre são saudáveis. A demora na conclusão de obras, a preocupação em manter aparências saudáveis à cidade, algumas omissões e a revolta dos moradores, quer dizer, a revolta não é tão similar. Notei ainda algumas preocupações em distinção.
Lá a criminalidade já não assusta mais, e isso dá medo. Na verdade penso que lá ninguém nunca se revoltou contra a criminalidade na cidade, parece que é algo comum, isso sim deve ser cultura depois de tantos casos conhecidos e tratados como normais.
Quero dizer que é saudável não querer permanecer sempre no mesmo lugar e isso é outra das coisas que me identifico aqui. Parar no mesmo lugar, acaba por atrofiar os músculos, ligamentos e nesse caso acho que atrofiamento é contagioso e alastra-se rapidamente das raízes para a cabeça.
Por: Mariana Rudek

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