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Hobsbawn: Historiador ou Profeta?

1 de junho de 2015

Se houvesse um Prêmio Nobel para a História, há muito tempo ele já teria sido laureado. Falo de Eric Hobsbawm, o historiador marxista, reconhecido internacionalmente, que completa 95 anos de vida lúcida e laboriosa neste sábado.
“A Era dos Extremos”, em que discorre sobre o século XX, que, para ele, iniciou na Primeira Guerra Mundial, em 1914, terminando com o fim da União Soviética, em 1991, é sua obra maiúscula, indispensável para quem quer conhecer a interpretação correta dos fatos que marcaram o século passado.
Admiro-o especialmente por sua capacidade de fazer a crítica dos erros do comunismo, apesar de manter-se fiel aos seus postulados. Em entrevista à revista Época, em agosto de 2003, ele afirmava: “É vital o historiador lutar contra a mentira. O historiador não pode inventar nada, e sim revelar o passado que controla o presente às ocultas”. (…) Diz mais: “Em ‘A Era dos Extremos’, eu encaro o problema, o critico e condeno. Não tenho problemas em dizer que a Revolução Russa causou dor e sofrimento à população russa. Porém, o esforço revolucionário foi algo heroico. Uma tentativa de melhorar a sociedade como não se viu mais na história”.
Neste sábado, a morte do romancista inglês Charles Dickens completa 142 anos. Ele tinha uma curiosa definição a respeito desse tipo de pensador, crítico e, ao mesmo tempo, usufrutuário do sistema que critica: “O moralista é como um sinal de trânsito que indica por onde se pode ir para uma cidade, mas não vai”.
Ele segue na esquerda, com mais interesse em Marx do que em Lênin, porque o socialismo soviético fracassou. “Foi uma forma extrema de aplicar a lógica do socialismo, assim como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplicação da lógica do liberalismo econômico. E também fracassou. A crise global que começou no ano passado é, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989”, analisa.
Nesse verdadeiro tratado da História contemporânea, Hobsbawm divide a história do século XX em três eras. A primeira, marcada pelas duas grandes guerras, pelas ondas de revolução global em que a URSS surgia como alternativa histórica para o capitalismo, pela virulência da crise econômica de 1929, pelo surgimento dos fascismos e pelo descrédito das democracias liberais. A segunda, entre 1950 e 1960, pelos anos dourados que, em sua paz congelada, viram a viabilização e a estabilização do capitalismo, responsável pela promoção de uma extraordinária expansão econômica e de profundas transformações sociais. Entre 1970 e 1991, segundo ele, dá-se o “desmoronamento” final, em que caem por terra os sistemas institucionais que previnem e limitam o barbarismo contemporâneo.
Em seu lugar, segundo Hobsbawn, surgiu a brutalização institucional, a influência desmesurada do poder financeiro e a irresponsabilidade teórica da ortodoxia econômica, abrindo as portas para um futuro incerto. Para ele, o mundo está entrando em um período de depressão e os grandes riscos, diante da fragilidade da esquerda mundial, são o crescimento da xenofobia e da extrema-direita.
Torçamos para que o historiador seja um mau profeta.

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