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Numa intrigante coincidência, este domingo lembra a morte e a vida de dois gênios argentinos, que pertencem a toda humanidade.
Gardel & Messi
Numa intrigante coincidência, este domingo lembra a morte e a vida de dois gênios argentinos, que pertencem a toda humanidade. Será o domingo de recordar a voz única, inconfundível, inexcedível, inimitável de Carlos Gardel, e o estilo único, veloz, coreográfico, certeiro, milimétrico de Lionel Messi.
A morte de Gardel, há 77 anos, ainda comove os argentinos, como se tivesse acontecido na semana passada. A vida comportada e discreta de Messi, seus dribles, seus gols, sua regularidade, suas vitorias consecutivas são um bálsamo para as dores e aflições da outrora potência e hoje empobrecida nação platina.
Certa vez, a teóloga alemã Dorothee Sölle dava uma entrevista quando o jornalista lhe fez uma pergunta inusitada: – Como a senhora explicaria a um menino o que é felicidade? De bate-pronto, ela devolveu-lhe: – Não explicaria. Daria uma bola para que jogasse.
Lionel Messi, conhecido como “pulga”, graças à sua mirrada estatura, começou a jogar bola na equipe Abanderado Grandoli quando tinha apenas quatro anos, e já se sobressaía ao lado de garotos de sete anos. Em 1994, aos 7 anos, começou sua carreira jogando pelo Newell’s Old Boys. Quando tinha onze anos, detectou-se um problema hormonal que retardava seu crescimento. Por um ano e meio, submeteu-se a um tratamento que consistia em injeções alternadas em cada perna toda noite.
Para fugir dos efeitos da crise econômica que assolava a Argentina, a família resolveu mudar para a Espanha, onde uma parenta, que vivia na Catalunha, os acolheu.
Um olheiro do Barcelona o recomendou para testes no clube. Com treze anos e 1,40 de altura, saiu-se bem contra garotos dois anos mais velhos. O presidente Joan Gaspart e o diretor desportivo Carles Rexach hesitavam em adquirir o jovem, pois teriam de custear não só as despesas do tratamento, mas também a mudança familiar. Só se convenceram após Rexach observar Messi jogar contra uma equipe de jogadores bem mais velhos.
“Eu o contratei em 30 segundos! Em meus 40 anos de futebol, jamais havia visto coisa semelhante. De cinco situações de gol, converteu quatro. Seu primeiro contrato eu assinei, simbolicamente, em um guardanapo”, disse Carles Rexach.
Em 20 de março de 2012, a revista France Football apontou Messi como o jogador mais bem pago do mundo – R$ 25,2 em salários, R$ 3,6 em prêmios e R$ 50,2 em publicidade, totalizando R$ 79 milhões.
Há quem considere esses valores absurdos, mas quem gosta de futebol e enche os olhos ao vê-lo tratar a bola com tanta intimidade e carinho, colada ao pé esquerdo como por encanto, dando seus arranques imparáveis, como se fintasse os buracos da rua onde jogava quando era pequeno, cada centavo parece merecido.
E o mais incrível (especialmente quando o comparamos com outros esportistas que desperdiçam seus talentos) é que Messi continua parecendo aquele menino de rua que chega ao campo de boné virado para trás e pergunta timidamente se pode jogar. Nesse quesito, ele só pode ser comparado com Pelé. Quanto à bola que joga, compara-se a craques como Garrincha, Didi, Nilton Santos, Di Stéfano, Maradona, Puskas, Cruijff, Beckenbauer e poucos outros.
Certa vez, o ex-jogador Valdano fez uma comparação interessante entre os estilos de futebol argentino e brasileiro. O argentino se basearia mais em fintas de corpo, não necessariamente em contato com a bola, baseado em simulações, em simulacros, onde o corpo do jogador leva o adversário a ser iludido, desequilibrado, desfeiteado e ultrapassado; o brasileiro seria a ginga, baseada no drible com a bola, no contato refinado do pé com ela e da sua capacidade técnica de controle e domínio da mesma. O estilo brasileiro, a ginga, estaria relacionado ao samba, enquanto o estilo argentino estaria relacionado ao tango.
Gardel, certamente, gostaria da correlação.
Por: Luiz Henrique da Silveira
Senador da República