Artigo
O poeta do povo
Toda a vez que viajo a Moscou, toda manhã vou caminhar na Praça Vermelha. Mesmo quando a temperatura está abaixo de zero, saio da embaixada brasileira por volta das sete horas da manhã e sigo até o Kremlin. No trajeto, ao lado do jardim da Igreja da Ascensão, onde se casaram, as estátuas de Alexander Pushkin e Natália Gontcharova reproduzem seu casamento.
Pushkin não é apenas o maior poeta russo. É a maior unanimidade daquele povo. É incrível como as pessoas recitam as suas poesias nos cafés, no metrô, nas ruas, nas praças, em todo lugar. E como se emocionam ao falar do duelo em que foi morto. O duelo ocorreu em 1837, há um século e muitas décadas, mas os russos descrevem os detalhes (o local, as pistolas, os tiros) como se a trágica morte de Pushkin tivesse ocorrido ontem.
Ele pode ser considerado o Camões da literatura russa. Numa época em que a elite czarista lia e escrevia em francês, ele foi o primeiro a publicar seus livros na língua pátria, influenciando fortemente a maioria dos compatriotas que o sucederam, como Gogol, Tolstoi e Dostoievsky.
Pouca gente sabe, mas Pushkin, embora de tradicional família russa, pertencente à nobreza mais antiga, era mulato, como o nosso Machado de Assis. Seu avô materno, Abraham Petrovich Aníbal, era um príncipe etíope, que chegou à Rússia depois de ser escravo dos otomanos.
Embora tenha morrido muito jovem, aos 36 anos, deixou uma obra vasta, em que se destaca a famosa ópera “Boris Goudonov”, que relata, com grande força e realismo, a vida dramática desse Czar, e o romance em versos “Yevgeni Oneguin”, musicado por Tchaikovsky. Em 2011, a coreógrafa Deborah Colker adaptou o livro para seu espetáculo de dança “Tatyana”, que pudemos assistir no Festival de Dança de Joinville do ano passado.
Em janeiro de 2006, quando o governo russo sustou as importações da nossa carne suína, fui urgentemente a Moscou para tentar modificar aquela decisão. Na noite que antecedeu a audiência com o ministro da Agricultura, o embaixador Roberto Colin e eu fomos ao Teatro do Kremlin, onde teríamos a chance de ver a célebre peça “Yevgeni Oneguin”.
A temperatura era de menos 27 graus. O vento gélido criava uma sensação térmica de uns cinquenta abaixo de zero, a mesma temperatura que derrotou as tropas de Napoleão, em 1812, e as de Hitler, em 1944. Era tamanho o frio que eu imaginei que no megateatro, que oferece seis mil lugares, teriam apenas cinco brasileiros amantes da música de Tchaikowsky e da poesia de Pushkin (especialmente o nosso diplomata Roberto Colin). Pois o teatro estava lotado! Umas mil crianças e outro tanto de jovens! Cambistas na rua vendendo os últimos bilhetes! Nenhum lugar vago! E não eram turistas. Os russos lotam, diariamente, os mais de cem teatros de Moscou.
Tenho dito e repetido que uma cidade sem cultura é apenas um depósito de gente, sem destino e sem futuro! Nenhuma obra, seja pública ou privada, perpetua-se como a de caráter cultural. E a Rússia de Pushkin é um belo exemplo disso.
Neste sábado, 26 de maio, o mundo comemora os 213 anos de nascimento de Alexander Sergueievitch Pushkin, o maior poeta romântico russo.
Por: Luiz Henrique da Silveira (Senador da República)