Aprendendo a comer
Profissionais de nutrição e da educação trabalham em conjunto em prol da alimentação saudável.
Preparar um prato colorido, saudável, nutritivo e ainda por cima, gostoso, não é tarefa fácil. Ainda mais quando se trata de agradar mais de três mil crianças e adolescentes. Mas essa é a realidade das cozinheiras da rede municipal de educação, que trabalham em parceria com a nutricionista Aline Pruner. Ela é a responsável por montar as cargas nutricionais das refeições dos alunos que frequentam as escolas e Centros de Educação Infantil da cidade.
E se “comer, comer, é o melhor para poder crescer”, comida saudável é o que não falta; pelo menos se tratando da alimentação organizada pela Secretaria de Educação de Pomerode. Segundo Neuzi Schotten, Secretária de Educação do município, diz que há uma preocupação muito grande com a nutrição dos estudantes. “Além dos alunos do ensino regular, temos as crianças e bebês dos CEI’s e agora os alunos do Turno Livre, que passam mais tempo nas escolas e, consequentemente, se alimentam mais vezes no recinto”, explica.
Uma refeição por dia é servida nas escolas para alunos da Ed. Infantil e Ensino Fundamental. Os almoços também são servidos para os estudantes Turno Livre; Bilíngue; Empreendedorismo; Projeto Diferentes Ritmos de Aprendizagem. Já as crianças dos CEI’s, recebem cinco refeições ao dia (café da manhã; almoço; hora da frutinha; lanche da tarde; jantar).
Mas o trabalho não é fácil. Para conseguir elaborar o cardápio adequado, que é adaptado para cada escola e além disso, para cada criança que necessite de uma alimentação diferente, nutricionista e merendeiras precisam trabalhar juntas com a Secretaria de Educação.
O trabalho é sistemático e composto por várias etapas, entre elas, a adaptação, “tanto dos alunos e das escolas, como dos próprios pais”, conta Neuzi.
Um dos passos deste trabalho, foi a pesagem e medição dos estudantes, no ano passado, feito por estagiárias do curso de Nutrição da Furb. Dos 3.075 alunos da rede, 2.294 passaram por essa avaliação, ou seja, 75% dos estudantes foram verificados pelas acadêmicas, para ver em que categorias de obesidade, sobrepeso, normalidade e magreza acentuada deveriam ser inseridos.
O resultado da pesquisa ficou assim:
Geral – IMC/Idade
Eutofria 69,83%
Magreza 2,27%
Risco Sobrepeso 1,09%
Sobrepeso 13,99%
Obesidade 11,25%
Obesidade Grave 1,48%
Magreza Acentuada 0,09%
De acordo com dados repassados pela nutricionista, no ano de 2011, o Governo Municipal fez investimento em torno de R$ 644.000,00; 67 itens alimentícios foram adquiridos através de licitação, sete tipos de frutas para escola (dois tipos por semana, de acordo com a sazonalidade), oito tipos de frutas para os CEIs (semanal e também de acordo com sazonalidade) e 19 tipos de hortaliças ao longo do ano para as unidades educacionais, além da produção da horta.
Além disso, uma estratégia utilizada para fazer com que as crianças tenham alimentação saudável, é a agricultura familiar, introduzida em Pomerode desde 2010. O objetivo desse projeto é adquirir produtos de maior qualidade e menor uso de agrotóxicos. Porém, não é qualquer agricultor que pode participar do fornecimento dos alimentos. De acordo com Aline, “se enquadram em agricultura familiar, as famílias que possuem 70% da renda provenientes da agricultura”.
Estratégias de Educação Nutricional
Sabe-se que implantar uma política de alimentação adequada, não é fácil. Principalmente quando algumas crianças não têm hábitos nutricionais ideais em casa. Por isso, professoras, nutricionista, pais e alunos trabalham juntos. Em sala de aula, as professoras ensinam a alimentação saudável, através da contextualização do tema alimentação. Além disso, a Secretaria de Educação Envolvimento de todos os agentes além do nutricionista e o aluno, focando na formação dos Auxiliares de Serviços Gerais Escolar. “O cardápio também é muito importante para as crianças. Elas precisam ser atraídas pelo prato; por isso é essencial que eles sejam criativos e saborosos”, explica Aline.
Outra medida adotada, de acordo com Neuzi, é através do “currículo escolar”, com o tema: Alimentação saudável na escola/CEI. “Também realizamos o acompanhamento de projetos que envolvam alimentação e palestras com os alunos quando o professor já está trabalhando o tema em sala de aula”, frisa Neuzi. Reuniões e orientações com professores e auxiliares de CEIs e reunião com pais também são realizadas periodicamente. “Esse é um dos passos mais difíceis: conscientizar os pais, que não é necessário mandar o lanche de casa. Na escola há a disponibilização de uma alimentação saudável que supre todas as necessidades nutricionais dos filhos”, completa.
Sabendo da importância de incentivar uma alimentação saudável, as unidades de ensino, principalmente os CEIs, realizam atividades em que as crianças tem a oportunidade de degustar diferentes frutas. As crianças, durante o trabalho, mostram animação ao saborear várias frutas. “Elas manipulam estes alimentos, observam suas texturas, tamanhos, cheiros e lógico, ao final, todos podem sentir o sabor das furtas. Temos a consciência que: “criança que come fruta é criança saudável, e criança saudável é criança feliz!”, diz a professora Vera Lúcia de Oliveira, do CEI Ruth Kock.
Formação continuada de auxiliares de serviços gerais
Desde 2006 os Auxiliares de Serviços Gerais Escolares participam de Formação Continuada. Os encontros são mensais, numa carga horária de 40 horas/ano. Para motivar ainda mais estes profissionais, anualmente é promovido o “Concurso de Aproveitamento Integral de Alimentos da Alimentação Escolar”. São três categorias: Pratos Quentes; Bolos e Pães; Sucos, Geléias e Chás. A premiação é em dinheiro para as unidades escolares premiadas, para que esse valor possa ser revertido em investimentos como móveis, equipamentos e/ou utensílios de cozinha.
Além disso também, as melhores refeições são inclusas nos cardápios das escolas e CEIs.
A merenda nossa de cada dia
Dona Rose chega cedo à escola Duque de Caxias, no Ribeirão Areia. Às seis da manhã, ela literalmente coloca a mão na massa e começa a preparar a alimentação dos 250 alunos da unidade de ensino. E cada dia, apesar do cardápio pronto, ela diz que tenta inovar em alguma coisa, para fazer com que as crianças gostem de comer de tudo. E ela conta que busca em livros de receita, jornais e revistas, sempre alguma coisa que é possível adaptar para as receitas da escola. E para quem pensa que a merenda escolar é apenas, sopa, arroz, feijão e macarrão, se engana. Ela conta que já trabalha há 14 anos como cozinheira nas escolas, e que antigamente, realmente era assim. “Muitas coisas vinham prontas, como o feijão batido que a gente só colocava água e cozinhava, ou as sopas de pacote também; mas hoje mudou muito e prá melhor”, conta Dona Roseli Maria Weck André.
Há dois anos trabalhando no Ribeirão Areia, ela conta que quando chegou à escola, havia um balde onde as crianças depositavam os restos de comida. “Mas quando eu cheguei tirei logo o baldinho, ajudei a ensinar as crianças a comerem tudo. A gente agora, coloca um pouco no prato, se a criança quiser mais, vai lá e repete, mas mesmo que ela não goste do sabor, convencemos ela a comer tudo por que é importante prá saúde dela”, ensina o segredo e comemora: “Hoje o balde não existe mais”.
Outra curiosidade que ela conta, é que muitos pais vem perguntar o que é feito na escola para que os filhos comam saladas, frutas, verduras e legumes, pois em casa o mesmo não acontece. Ela explica que fala carinhosamente com os pais, mas conta a eles que deve-se incentivar, calmamente a alimentação e não “empurrar” os alimentos.
E o que chama a atenção, é que em outros casos, pais e mães pedem receitas de determinados alimentos, já que os filhos contam que na escola a comida estava muito boa. “Outro dia, uma mãe perguntou qual era a carne que eu tinha feito, por que a criança pediu para fazer em casa, a carne marronzinha. Era só carne de panela, mas não coloquei extrato de tomate, nada, só temperei e preparei a carne no próprio molho”, contou.