Anjos prontos para salvar vidas
Desde um pequeno mal-estar, a algo mais grave ou até um acidente onde é requisitado apoio, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) está pronto para lhe atender. Com preparo e regulação médica, o sistema implantado no Brasil em 2006 cada vez mais vai ganhando o respeito e a…
Desde um pequeno mal-estar, a algo mais grave ou até um acidente onde é requisitado apoio, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) está pronto para lhe atender. Com preparo e regulação médica, o sistema implantado no Brasil em 2006 cada vez mais vai ganhando o respeito e a conscientização da população. Aqui no Vale do Itajaí, a base é situada em Blumenau e de lá saem as coordenadas para os atendimentos que acontecem em Pomerode, que tem parceria com a Secretaria Municipal de Saúde.
O que muitos ainda não entendem é que para realizar um bom atendimento, os socorristas do SAMU não precisam estar presentes, pois por telefone o paciente recebe todas as instruções para melhorar e retornar à normalidade.
Isto é bastante frisado pela coordenadora do SAMU no Vale do Itajaí, Maria Beatriz Schmitt Silva, que conta que já ficou ao telefone 45 minutos com uma criança que havia ligado porque o pai estava desmaiado em sua frente e não conseguia passar as informações para que o socorro fosse enviado. “No fim tudo acabou se resolvendo e somente desliguei o telefone, quando percebi que a equipe estava no local e fazendo o atendimento”, disse Maria Beatriz.
A partir do momento que a ligação cai no 192, já se inicia o atendimento do SAMU, que pode ser concluído ou não com a presença da equipe no local da chamada.
Ao todo, aqui na cidade são oito profissionais, sendo quatro técnicos em enfermagem e outros quatro condutores de veículo de emergência, que se revezam em turnos de 12 horas. São eles que estão na frente da ação e lidam com as situações mais adversas no seu dia-a-dia. Momentos de tensão e aflição são comuns para esses heróis, ou anjos da guarda, adjetivo mais apropriado para esses homens e mulheres que se dedicam a salvar vidas e amenizar a dor dos enfermos. Mas para entender um pouco desta profissão e da rotina destes socorristas, somente ouvindo suas histórias para ter uma ideia da importância deste serviço e da dedicação deles.
Emoções à flor da pele
O trabalho desses técnicos em enfermagem e condutores de veículos de emergência acontece em dupla e por isso, suas experiências são vivenciadas em conjunto. Um exemplo disso é um acidente ocorrido com uma criança em um parque aquático em Blumenau. Chamados para o atendimento, o condutor Ronaldo Klowasky, 32 anos, há quatro no SAMU e Élcio Moreira da Silva, 29 anos, há um ano e meio no serviço, se depararam com uma criança com traumatismo crânio encefálico (TCE) e inconsciente. Além da gravidade do acidente, a tensão era grande porque o local era distante do hospital. “Até hoje fico tentando entender como aquela criança bateu a cabeça daquele jeito para causar a sua morte, 15 dias depois de chegar com vida no hospital”, contou Élcio.
Situações adversas e extremas como essa são comuns e por isso esses homens precisam ter um preparo psicológico muito bom para suportar a pressão e os questionamentos que seguem ao fim de cada atendimento. “Quando é criança isso mexe com a gente. Mas não muda a nossa maneira de agir. Porém, quando acontece da pessoa vir a falecer em nossas mãos, nos questionamos se fizemos tudo possível. Isso passa pela nossa cabeça, mas logo vem o conforto da ciência que foi feito o possível e impossível para conduzir a vítima até o hospital com vida e da melhor maneira possível”, salienta Ronaldo.
Casos como esses, mexem com esses profissionais, mas outros tantos que também não passam despercebidos e deixam sua marca, como relembra Ronaldo. “Há três meses fomos chamados em uma residência no bairro Wunderwald para atender uma senhora de 70 anos que teve um tromboembolismo. A colocamos na maca e ela teve uma parada respiratória, que conseguimos reverter e deixá-la no hospital com vida”, contou Ronaldo.
As ações bem feitas são resultado da confiança que eles têm na capacitação que possuem, mas também no trabalho em equipe. Confiança que em um curto espaço de tempo precisa ser passada para o paciente e seus familiares. “Às vezes somos mais psicólogos do que técnicos de enfermagem, pois há situações que somos chamados e temos que convencer a família de que o melhor é a pessoa permanecer em casa, junto aos seus parentes. Isso acontece bastante quando lidamos com doentes terminais”, explica Élcio.
Lembranças
Uma situação ainda mais emocionante viveu a técnica de enfermagem, Franciele Fermo, 28 anos, há quatro trabalhando no SAMU e seu companheiro de plantão, Gilberto Henchel, 41 anos, com o mesmo tempo de casa.
Eles estavam em um dia qualquer em suas casas, quando receberam a visita de um homem emocionado.
Ele foi atendido pela dupla em sua casa no Testo Rega e depois do auxílio que recebeu saiu à procura dos dois para agradecer o atendimento.
Segundo contou Franciele, o paciente deu-lhes de presente uma madeira que, devido a ações do tempo, foi petrificada. Ela sempre a carrega no carro como um amuleto. “Ele disse que não tinha nada de valor para nos oferecer como agradecimento pelo que fizemos e nos deu essa pedra”, contou a técnica em enfermagem.
Com Gilberto o reencontro foi ainda mais forte, como recorda: “Ele entrou na minha casa, me abraçou e começou a chorar, depois perguntou se eu me lembrava dele. Respondi que reconhecia a fisionomia dele, mas não tinha certeza de onde. Daí ele recordou o atendimento”, disse o condutor de veículo de emergência.
O caso nem era tão grave, como explica a dupla, mas o paciente já tinha ido a médicos e não conseguia resolver o problema, que se tratava de uma hemorragia digestiva. Porém as palavras que foram proferidas durante o atendimento mudaram a vida deste homem. “Dissemos a ele que ter fé que poderia curar o problema, seria importante tanto quanto qualquer procedimento médico. Deu certo e tempos depois ele se curou” lembrou.
Mas porque uma madeira que virou pedra simbolizaria aquele ato de conforto que ajudou no tratamento daquela pessoa? Porque ela se trata de uma lembrança que o homem tinha adquirido em Pouso Redondo e por se tratar de algo que sofreu a ação de milhares de anos, representaria o tempo que ele esperava durar a amizade que se iniciou naquela ligação para o 192, em Blumenau.
Memórias da enchente
O trabalho do SAMU é focado nos atendimentos clínicos, mas quando há situações extremas com as vividas em março deste ano aqui em Pomerode, eles são obrigados a dar suporte às demais forças de resgate da região.
Assim, foi marcante para eles a experiência que tiveram durante a enchente, como contou a dupla formada por Fabrício Giovani da Silva, 36 anos, há dois na corporação; e João Cristiano Odorizzi, de 29, que tem o mesmo tempo de SAMU que seu parceiro.
Fabrício, que é condutor de veículo de emergência, relembra que aquele dia exigiu muito mais deles. “Trabalhamos dentro d’água para socorrer as vítimas”. Porém, foi o caso de um senhor, que precisou ser atendido por causa de uma intoxicação, que marcou esses profissionais. “Ele estava inconsciente e fomos chamados para atender um traumatismo crânio encefálico (TCE), porém ao chegar, percebemos que ele tinha se intoxicado com remédios pelo desespero de ver a água entrando em sua casa”, relembra o técnico em enfermagem João Cristiano.
Neste socorro ainda tinha um agravante. A ambulância do SAMU também teve dificuldades de acessos a alguns locais e para que esse senhor chegasse bem ao hospital, foi preciso fazer uma baldeação com outra viatura, só que esta de Blumenau. Desta forma conseguiram levá-lo em segurança para o Hospital Santa Isabel.
Essas memórias estão bastante vivas na cabeça desses profissionais, principalmente porque de alguma forma eles consideram que foram pouco valorizados nessa enchente, pois muitos apareceram como heróis e eles foram esquecidos. “Envolvemos-nos nos resgates desde o início até o dia seguinte. Mas na hora de cumprimentar e agradecer pelo esforço, a própria população esqueceu-se do que fizemos e dedicavam os agradecimentos a todos, menos a gente”, desabafou João Cristiano, frisando que a cidade recebeu apoio do SAMU de Blumenau e Gaspar, assim como dos bombeiros de Ascurra e Indaial.
Reconhecimento que neste caso não veio, mas em contrapartida já foi sentido pela dupla quando fizeram um socorro na serra para Jaraguá do Sul. “Eram seis vítimas e uma delas estava mais afastada e parecia estar morta. Eram várias equipes de resgate e a prioridade foi dada para cinco delas. A sexta vítima que havia sido atirada a alguns metros do local do acidente foi dada como morta. Mas resolvemos conferir se realmente havia falecido. Quando fomos verificar o pulso, vimos que estava vivo e procedemos a remoção para o hospital. Salvamos a vida dele e quando estava internado e soube que nós estávamos na casa de saúde, pediu que fossemos até o quarto para agradecer a gente por ter salvado sua vida. Isso foi emocionante”, declarou João Cristiano.
Consciência
Outra dupla do SAMU em Pomerode, há dois anos na ativa, Anderson Glemboski, 30 anos, técnico em enfermagem e João Augusto Possamai, 40 anos, condutor de veículo de emergência, dizem que há um respeito pelo trabalho deles, mas é preciso haver uma mudança na cultura da população que acha que somente no hospital ou pronto socorro terão seus problemas resolvidos. Há muitos casos que a orientação do médico regulador vai dar o conforto necessário e em outras, a visita dos técnicos do SAMU supre a necessidade naquele momento.
João Augusto ressalta essa falta de compreensão, principalmente quando as pessoas reclamam de dar muitas informações ao telefone para o médico regulador. “Quanto mais perguntas sobre o paciente forem respondidas, mais saberemos para agir quando chegarmos ao local. Todas as informações são importantes e no caminho vamos discutindo os procedimentos que precisamos fazer”, explica João.
Já Anderson explica que há quem não entende o trabalho do órgão e esperam que o procedimento do SAMU seja igual ao de outros socorristas. “As pessoas esperam que façamos o mesmo que os bombeiros, transportando-os direto para o hospital. Há situações que aplicaremos os mesmos procedimentos que a pessoa receberá em uma unidade de saúde. Nós somos o primeiro atendimento e evitamos que os prontos socorros fiquem lotados”, argumenta Anderson.
O SAMU pelo Vale
O SAMU atende a 39 municípios do Vale e Alto Vale do Itajaí. São recebidas, em média por dia, 280 ligações. 40% delas resultam no envio de equipe, sendo 85% atendidas pela equipe básica, que consta do condutor e de uma técnica de enfermagem que é orientada pelo médico da central. Os outros 15% requerem o envio da UTI Móvel, que é acompanhada, além do técnico e do condutor de um médico.
Os trotes representam 6% das chamadas, mas neste caso, os dados atualmente são positivos, já que antes chegava a 30% das ligações recebidas.
Um dado a ser comemorado pela coordenação do SAMU e por todos seus colaboradores é que 85% dos atendimentos são resolvidos no local da chamada, tirando da porta de entrada dos hospitais um grande número de pessoas.
O modelo existente no Brasil do SAMU é um misto do que existe na França e nos Estados Unidos. E conforme a análise da coordenadora do Vale do Itajaí, Maria Beatriz, esse é o segredo do sucesso. Isso porque cada profissional complementa o outro, gerando um atendimento de qualidade seja qual for a circunstância, trauma ou clínico.