Adeus especial
Sendo uma interrupção na unidade social, a morte passa, desde sempre, por ritos funerários que antecedem a despedida de alguém querido. E, antigamente, essa tradição era cultuada de uma maneira diferente das atuais.
Sendo uma interrupção na unidade social, a morte passa, desde sempre, por ritos funerários que antecedem a despedida de alguém querido. E, antigamente, essa tradição era cultuada de uma maneira diferente das atuais.
O cemitério de Pomerode ficava próximo da comunidade escolar e, na época, não havia pastor para efetuar o enterro. Para ir ao enterro os homens usavam um terno escuro com gravata preta e, em sinal de luto, amarravam uma fita preta no braço ou na lapela. As mulheres usavam vestidos pretos, além de ficar um ano ser ir a festas. Quando alguém morria de repente, vestidos brancos eram tingidos de preto.
Naquela época, também, os caixões eram produzidos por marceneiros que os pintavam na cor preta, que tinha cheiro de creolina. Depois disso, o caixão era transportado até o cemitério de carroça.
A antropóloga Joana Bahia escreveu sua tese de doutorado sobre as crenças e tradições dos pomeranos, os quais são nossos imigrantes, em algumas situações. Uma delas é o velório, onde ela afirma que sobre a morte e o morrer, os pomeranos possuem uma gama de narrativas. Uma das crenças fazia referência ao gavião-cova (hakaloch) que prediz a morte ao cantar perto da casa, assombrações, conversas com os mortos, noções de pureza e perigo nos ritos mortuários também faziam parte das crenças. Elas são socialmente construídas e expressam as representações coletivas acerca da vida e da morte, conta em sua tese.
Nessas antigas teorias, para restabelecer a ordem no mundo dos vivos, eram necessários ritos funerários que marcavam e delimitavamm a passagem. Da mesma forma que havia o convidador para o rito de casamento, também existia o Gräwnisbirar, parente (homem) da família do morto que anunciava a morte de casa em casa e convidava a todos para participarem do sepultamento. O convite era feito do portão, não se entrava na casa, nem cumprimentava ninguém, pois o convidador representava a extensão da imagem do morto. Na casa, os relógios eram parados e os espelhos cobertos. Uma das mulheres mais idosas lavava o morto. Uma jovem não poderia lavar, pois perpetuaria a marca da morte. Além do morto, a casa e todos os objetos eram purificados com água. Ao final, a água era jogada bem longe de tudo e de todos, pois oferecia perigo, explica.
A sepultura era aberta no dia seguinte. Os sinos batiam três vezes no decorrer do rito. A primeira vez quando se iniciava a escavação, a segunda no meio do trabalho e a última quando estava tudo pronto. Uma vez iniciado o funeral, não se podia parar, pois onde se parasse era consenso de que daquela redondeza sairia a próxima pessoa a falecer. Também não se podia seguir atrás do morto, especialmente as crianças e as mulheres grávidas que seguiam por um outro caminho, relata antropóloga.
Segundo a antropóloga, a manutenção do dialeto, dos costumes matrimoniais, das práticas mágicas que acompanhavam os ritos de passagem, a reinvenção das festas comunais, a continuidade de elementos da narrativa mágica e fantástica das histórias orais campesinas de origem pomerana são elementos evocados no momento em que demarcam as diferenças de identidade existentes entre os pomeranos e os outros imigrantes de origem alemã, finaliza.