A visão de quem vive os fatos
Perigo, emoção, aventura, tristeza, alegria, medo, dias e noites repletas destas emoções acompanhadas do sentimento de missão cumprida. Sob o sol ou chuva, na claridade ou na escuridão da noite, acompanhados de um rádio tagarela que não toca músicas, apenas números, vozes e ocorrências que os deslocam a todo tipo…
Perigo, emoção, aventura, tristeza, alegria, medo, dias e noites repletas destas emoções acompanhadas do sentimento de missão cumprida. Sob o sol ou chuva, na claridade ou na escuridão da noite, acompanhados de um rádio tagarela que não toca músicas, apenas números, vozes e ocorrências que os deslocam a todo tipo de lugar, asfalto, mato, poeira, ou até mesmo à sua residência.
Cada telefonema é um mistério: um bêbado, um assalto, um desordeiro, uma ajuda. A lua, sempre companheira de suas noites de luta é uma esperança de dias de paz. Assim é o dia-a-dia dos Policiais Militares de todo o país, mas especialmente a realidade dos nossos policiais. Com apenas 19 funcionários na corporação, eles estão todos os dias lutando, nos dias de sol e de chuva, nas rondas, passando na sua casa, no seu bairro, na sua cidade, no seu medo, no seu pensamento, na sua vida. Eles abraçam um dever para que se acentue ainda mais sua segurança e sua felicidade, muitas vezes colocando a própria vida em risco.
Pode parecer moleza para quem assiste esta corrida de velocidade, sirenes e perseguição, mas o risco de uma chuva de balas é enorme. “Coração que dispara, uma lágrima que cai, um amigo que se vai… E deixamos nossos lares, nossas famílias, nosso mundo, nossos sonhos, nossos amigos; por você… Cada vez que escutar uma sirene de viatura, mesmo que distante, mesmo que em seu pensamento, diga: vão com Deus, estou com vocês. Cada vez que uma estrela brilhar mais forte para você, lembre-se que pode ser a vida de um de nós, que num último suspiro tenta dizer: não se esqueça de mim, foi por você” 1º Batalhão de Choque, Tobias Aguiar (ROTA).
Este sentimento de dever cumprido precisa acompanhá-los diariamente, para que os dias dedicados à proteção da sociedade valham a pena. Mas nem sempre é possível prender um ladrão, por exemplo. Geralmente é necessária muita investigação. “A sociedade nos cobra providências, quer ver o ladrão que assaltou sua residência atrás das grades, mas nem sempre isso acontece. Infelizmente estamos cumprindo a lei”, afirma o Tenente Alexandre Kleine, que atua desde junho de 2009 no Batalhão de Polícia Militar de Pomerode.
Mas não é só a sociedade que tem o direito deste sentimento de impunidade. Todos os dias os policiais saem de casa sem saber como será o dia, se voltarão para casa a tempo de dar um beijo de boa noite nos filhos, sem saber se vão conseguir acompanhar sua esposa no supermercado, ou se poderão fazer qualquer outra coisa que nós, muitas vezes, nem percebemos a importância que estas pequenas atitudes tem em nosso dia-a-dia.
Ao sair de casa eles deixam seus pais, suas esposas e filhos, e se dedicam para nos proteger. Porém o que o dia lhes reserva é sempre uma surpresa, muitas vezes triste, que lhes traz um sentimento igual ao de qualquer cidadão.
Alexandre Alberto Kleine, tenente
“Há algum tempo ficamos sabendo que havia três meninas*, de no máximo 14 anos, que estavam se prostituindo em uma praça, aqui de Pomerode. Fomos ao local algumas vezes, porém elas sempre estavam sozinhas e alegavam que estavam à espera do ônibus. São meninas que fizeram parte do projeto Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência) e do Aluno Guia, portanto nós as conhecíamos bem, de certa maneira. Em momento algum, durante a participação delas nos projetos, nós achávamos que elas viriam a um dia se prostituir. Mas sabemos que são meninas com uma base familiar desestruturada. Teve um dia, em uma abordagem, que uma dessas meninas abriu a bolsa para revistarmos e ela tinha preservativos usados dentro da bolsa. É uma situação triste para nós policiais, realmente é algo que choca.
Já tentamos fazer algo para tirá-las dessa vida com a ajuda do Conselho Tutelar, mas sem o apoio da família está difícil”.* Na tarde de quarta-feira (08/06) uma destas meninas foi abrigada e encaminhada para tratamento em Florianópolis.
Luiz David, 2º sargento
“Em dezembro de 1999, eu trabalhava como soldado em Blumenau, após a informação de que dois masculinos haviam assaltado um supermercado, eu e o soldado Alves nos deslocamos ao local. Eles tentaram fugir e houve uma perseguição. Na ocasião um dos fugitivos efetuou um disparo que atingiu meu braço direito, porém não paramos a perseguição.
Os fugitivos se embrenharam no mato e nós fomos atrás. Com a ajuda de outros policiais, que foram chamados para dar reforço, eles foram presos. Eu fui encaminhado ao hospital, e lá eu fiquei sabendo que os policiais que foram para dar o reforço precisaram ser contidos, pois queriam vingança. O meu sentimento de vingança veio antes, quando levei o tiro, tudo que eu queria era prendê-lo, e consegui.
No ano de 2002 comecei a trabalhar em Pomerode, onde em 2003 fui promovido por ato de bravura, e passei a 3º sargento. Em 2008 passei a 2º sargento.
Tudo o que aconteceu comigo serviu para que eu me dedicasse ainda mais à profissão, e acho necessário que esta dedicação exista, pois a criminalidade só aumenta”.
José Kava, soldado
“Estou há anos na PM de Pomerode, vários casos me marcaram, mas lembro especialmente de um que me deixou muito chocado. Na Rua Luiz Abry, na esquina com a XV de Novembro houve um acidente, e fomos chamados no local. Chegando lá encontramos uma menina de sete anos morta. Ela ia para a escola com uma bicicleta de adulto, e ao tentar por o pé no chão ela se desequilibrou e foi atropelada por um caminhão.
Lembro que na época minha filha tinha a mesma idade, fiquei muito chocado com este caso.
Teve outro que eu me recordo também, um acidente na Serra Jaraguá. Era um carro popular, não lembro a marca e modelo agora, ocupado com dois jovens, eles vinham de Curitiba para um velório, se não me engano em Rio do Sul. Porém colidiram com uma carreta que estava descendo a serra. O jovem não resistiu, e a jovem teve ferimentos leves. Ela perguntava muito como estava o segundo ocupante, e nós não podíamos dar informações naquele momento. Lembro que o policial que estava comigo entrou em parafuso, fui obrigado a forçá-lo a ir ao necrotério para ver que o jovem estava realmente morto”.
Lucas, soldado
“Estou há pouco tempo na guarnição, e um fato que me marcou muito foi um linchamento no dia 28 de setembro do ano passado, onde fomos chamados no dia anterior para verificar uma briga de um jovem de 28 anos que tinha discutido com a vizinha por causa de um cachorro. No dia 28 ele estava novamente arrumando confusão e agrediu a vizinha que era idosa e ficou gravemente ferida. Os outros moradores da rua, revoltados agrediram o jovem, e fomos chamados para conter os ânimos na rua Rega II, onde aconteceu o fato.
Quando chegamos ao local o jovem estava sendo agredido pelos populares, foi um linchamento, tivemos que intervir. No momento me recordo que todos ficaram indignados, mas depois nos agradeceram.
São situações em que devemos colocar o dever na frente, não podemos pensar apenas como cidadãos comuns”.
Gilson Schade, soldado
“Diversas vezes fui chamado para auxiliar uma mãe que teve pertences furtados pelo próprio filho*, que é usuário de drogas. O jovem, hoje com 25 anos, não mora com ela, e quando a mãe sai de casa para trabalhar ele arromba a residência e furta objetos. Tem noites que o jovem dorme nos fundos da casa.
Lembro que há umas duas semanas fomos chamado pela quinta vez por esta mãe, que estava muito alterada e falava em se matar, pois não aguentava mais esta situação”. *Na terça-feira (07/06) o jovem foi preso após ser flagrado com uma motocicleta furtada e peças de duas bicicletas.