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A casa onde mora a solidariedade

“Aqui não tem grades, não tem muros altos. Somos prisioneiros de nós mesmos, dos nossos vícios. Quando decidi que queria deixar as drogas tinha somente uma certeza, não ser internado em um hospício e viver sedado, sob o efeito de medicamentos”. Este é apenas um trecho do depoimento de um…

10 de setembro de 2011

“Aqui não tem grades, não tem muros altos. Somos prisioneiros de nós mesmos, dos nossos vícios. Quando decidi que queria deixar as drogas tinha somente uma certeza, não ser internado em um hospício e viver sedado, sob o efeito de medicamentos”. Este é apenas um trecho do depoimento de um dos internos da Casa da Solidariedade, uma comunidade terapêutica destinada à recuperação de dependentes alcoolistas e de demais substâncias químicas.
Sem enfermeiros e médicos vestindo uniformes brancos correndo de um lado para outro, ministrando doses exacerbadas de remédios para dopar usuários de drogas, a Casa da Solidariedade quebra paradigmas. É diferente da maioria dos Centros de Recuperação, sendo construída em meio a um belo espaço verde. Hortas com legumes, frutas e vegetais dos mais diferentes tipos, são adubadas com estrume derivado dos animais que lá são criados. Algumas cabeças de gado, morangos, flores, alface, salsa e cebolinha, deixam mais colorida a vida de 11 internos, que se dividem para manter a estrutura do local, ao lado da Casa gritos. Não de dor e muito menos de sofrimentos. Gritos oriundos da brincadeira das crianças, alunos da Escola Almirante Barroso.
Foi neste contexto, neste cenário, que conversamos com Fredemar Gilberto Klowaski (presidente) e com a Gerente de Pessoal, Loraine Valentini (Lori). Chuva, véspera de feriado, agitação pelas ruas da cidade. Não na Casa da Solidariedade. Lá era apenas mais um dia especial. Representava 24 horas de sobriedade para 11 homens, que comemoravam internamente terem conseguido, apenas hoje, mais um período “limpos”, distantes do álcool e de outras drogas.

Mesmos problemas, distintos alvos
E foi nesta mesma sala, onde funciona o apertado escritório da Casa, decorado com móveis antigos, desgastados pelo tempo, e que está instalado o único computador do local, que conhecemos o seu José, de 51 anos e Mário, um jovem de 26. Seus nomes não são estes, mas os chamaremos assim nesta matéria para preservar suas identidades e de suas famílias.
Pela Casa da Solidariedade já passaram médicos, advogados, profissionais das mais distintas áreas e formações. Pela Casa, já passaram pessoas favorecidas economicamente e pessoas que vivem na linha da pobreza. Idosos e jovens. Violentos e tranquilos. O vício não escolhe seu alvo, e neste tiroteio para todos os lados, várias pessoas acabam sendo recrutadas para um caminho árduo em busca da desintoxicação, na esperança de retomar a vida.
Chamados para conversar com os jornalistas do Jornal de Pomerode, estavam nervosos, tímidos, envergonhados. Sentados em duas cadeiras de madeira, tinham em seus olhares o receio de contar para desconhecidos os momentos mais tristes e mais conturbados de suas vidas. Só sentiram-se mais seguros, porque estavam acompanhados por seu “anjo”, a “maninha”, como chamam carinhosamente Lori, a quem atribuem a responsabilidade de grande parcela de suas recuperações.

“Fiquei oito anos sem beber, e por achar que um gole só não faria mal, estou aqui novamente”
Seu José toma a iniciativa e inicia seu relato. Conta com saudosismo que era eletricista e que trabalhava em uma empresa importante de Santa Catarina. Tinha uma família maravilhosa, três filhos e uma esposa apaixonada. Aproximou-se da bebida ainda muito jovem, mas achava que enquanto estivesse trabalhando e garantindo o sustento de sua família, jamais teria problemas pelo uso excessivo da bebida. Os amigos começaram a perceber que o “beber socialmente” não fazia mais parte de sua vida e preocupados o alertaram. “Nessa época eu era autossuficiente, sabia o que era bom pra mim. Minha esposa ainda me chamava de amor e dizia que estava infeliz por me ver nos botecos, todos os dias chegando triste em casa. Sabe o que mais me dói? O que mais me deixa triste? É fechar os olhos e saber que eu prometia pra ela e para meus filhos que os buscaria após o serviço, na sexta-feira, para que saíssemos para passear, para jantar em algum lugar. Sei que eles ficavam me esperando por horas e horas, mas eu não ia, não chegava em casa. Parava em um bar qualquer para beber e voltava só na madrugada, fedendo a bebida barata”.
Foi nesta mesma época que seu José começou a beber antes de ir trabalhar. Alterado e com odor a bebida alcoólica, ficava nervoso, temia que alguém o chamasse para conversar e percebesse que ele estava bêbado. “Era mais forte que eu, precisava beber logo pela manhã para encarar o dia”.
Na luta constante contra o vício, José venceu algumas batalhas, mas também acabou perdendo algumas delas. “Perdi minha família e meu emprego. Minha esposa pediu o divórcio e quando assinamos os papéis, no Fórum, ela disse que não queria aquilo, que me amava, mas que estava cansada, que não aguentava mais. Hoje, a única pessoa da minha família que segue acreditando que eu vou me recuperar, que é possível um dia me ver bem novamente, é a minha mãe, ela nunca perdeu a esperança, nunca me negou ajuda e amparo”.
Coração parcialmente cicatrizado, seu José arrumou um novo amor. Passando com sua nova namorada uma temporada na praia, durante uma caminha, iludiu-se pensando: “Estou há oito anos sem beber, acho que consigo tomar uma cervejinha só”. Caindo em tentação disse que parecia que o diabo havia se apossado de seu corpo. E após esse período todo, foi como se tivesse recomeçado o tratamento do zero.
Quando questionado sobre o que sente mais falta agora que está na Casa da Solidariedade, seu José não pensa duas vezes: “Sinto falta da família que perdi, da vida que eu tinha antes”.
Mas nem por isso seu José deixou de sonhar. “Sabem o que mais quero para o meu futuro? Quero me recuperar, me livrar de vez do vício. Depois que estiver saudável quero ajudar as outras pessoas, assim como dona Lori me ajudou. Quero trabalhar como voluntário, ser o ombro amigo de pessoas como eu, que tanto precisam de palavras de carinho e de incentivo. E eu vou conseguir. Tenho certeza disso”.

“Dividi uma cela com 56 presos”
Encorajado após o desabafo de seu amigo, o jovem Mario, com as mãos posicionadas como se estivesse rezando, sentado com o corpo curvado em uma cadeira, inicia nervoso seu discurso. “Não cheguei aqui por vontade própria, cheguei aqui pela Justiça”.
Mario sucumbiu sua vida a alguns vícios: maconha, álcool, crack e cigarro. Diferentemente de seu José, ficava violento quando estava sob o efeito das drogas e era capaz de tudo: bater em sua esposa, destruir objetos de tamanha raiva que sentia e se envolver no mundo do crime.
Aos 26 anos e pai de três filhos, um dos piores momentos foi quando acabou sendo preso por agredir sua esposa. Foi encaminhado ao Presídio Regional de Blumenau, onde dividiu uma cela com outros 56 presos. Ficou preso por três semanas e após pagar fiança foi solto, com a condição de se submeter a tratamento e internação na Casa da Solidariedade. “Eu vi de tudo lá. É mais fácil encontrar drogas dentro do presídio do que nas ruas. As mulheres entram com drogas escondidas nas partes íntimas e depois são improvisados arames para retirá-las. Nunca tinha visto ninguém se injetar na minha frente e no presídio isso era normal. Os presos fumavam crack dentro da cela. Eu queria, tinha vontade, chegava a tremer sem a droga. Mas não tinha como pedir, não os conhecia. Convivi com assassino e todo o tipo de bandido que se possa imaginar. Hoje me arrependo de cada vez que agredi minha esposa, que quebrei o que tínhamos em casa. Mas não era eu, quando estava bêbado ou drogado ficava possuído. Não quero mais isso pra mim. Ela me perdoou, junto com a minha mãe e meus filhos me dá todo o apoio que preciso. Sei que vou me recuperar e quando sair daqui, tudo vai ser diferente”, conta com as lágrimas molhando sua face.
Mario foi transferido para a Casa da Solidariedade em uma noite chuvosa, por volta das 22h. Foi recebido por Lori, que o acolheu em seus braços, transmitindo naquele abraço que tudo seria diferente a partir daquele momento. “Perguntei a ela no outro dia como ela me abraçou daquela forma, eu estava todo sujo, a polícia estava comigo lá, podia ser um bandido. Sabe o que ela me respondeu? Que eu era seu irmão e que ela cuidaria de mim. Ela prometeu e cumpriu. Faz isso até hoje. Fui muito bem acolhido também pelo seu José. Nossas histórias são muito parecidas. Ambos temos três filhos e tenho nele um exemplo. Não quero lutar contra o vício tanto tempo. Espero conseguir me livrar antes, para não perder tempo e poder ver meus filhos crescerem, abraçar minha esposa e minha mãe quando tiver vontade”.
Neste momento todos que estavam na sala durante a entrevista estavam emocionados e comovidos com os depoimentos, principalmente Lori, que tinha sua missão de vida reconhecida por aqueles homens os quais ela tanto ajudou.

Um "anjo" chamado Lori
11 homens de distintas personalidades, mas com a mesma opinião, a importância da presença de Lori na Casa da Solidariedade.
Após a entrevista com Mario e José, os demais internos acabaram adquirindo confiança para se aproximarem. Foi no cantinho destinado ao chimarrão e atividades de lazer que eles começaram a brincar, sorrir e interagir conosco, estranhos e curiosos visitantes. Todos eles teciam palavras de carinho e respeito a Lori, dizendo que se não fosse por ela, eles já tinham abandonado a árdua luta pela sobriedade. “Ela nos ajuda muito e puxa nossas orelhas quando precisa. Não passa só a mão em nossas cabeças, ela realmente se preocupa conosco. Desde que Lori veio trabalhar aqui muita coisa mudou, dá pra ver o carinho que ela sente por essa Casa e por nós, que muitas vezes somos esquecidos e rejeitados até por nossas famílias”, desabafa um dos internos enquanto passa a cuia de chimarrão.
As reformas na Casa foram acontecendo aos poucos. O jardim e a horta receberam uma atenção especial. Uma cortina foi pendurada, armários reformados, mudanças nos costumes também foram implementadas. “Ela nos coloca para trabalhar. Não pode ver ninguém parado. E gostamos disso, nos sentimos importantes, valorizados. Estamos colaborando para melhorar a Casa em que vivemos. Enquanto trabalha conosco vai dando conselhos, falando aquilo que precisamos mesmo ouvir”.
“Eles sentem a diferença de uma pessoa que gosta verdadeiramente deles e daquelas que estão fingindo que gostam. Não acredito que uma pessoa está perdida, que nenhum tratamento adiantará. Com muito amor e dedicação cada um deles é recolocado no caminho do bem e isso, não tem dinheiro no mundo que pague. É a verdadeira sensação de fazer o bem. Não adianta sermos religiosos e achar que somos pessoas boas se negamos a mão ao nosso próximo, a um irmão”, conta Lori.
Seu José complementa dizendo que quando estava afastado da Casa e que pensou em não voltar, Lori ligou mais de 30 vezes em um único dia para ele. “Não tinha vontade de atender ela. Pensava que ela iria desistir como a maioria das pessoas acaba desistindo de nós. Mas ela não, seguiu ligando e mandando mensagem. Foi me buscar em Blumenau, no seu carro. Eu estava triste, de cabeça baixa, mas quando vi lá estava ela, de braços abertos para me receber”.
“Dona Lori é um anjo em nossas vidas. Deus coloca pessoas assim em nosso caminho quando resolve dar um basta em nosso sofrimento”, finaliza Mario.

Convivência em grupo: o diferencial de uma comunidade terapêutica
Conforme o presidente da Casa da Solidariedade, Fredemar Gilberto Klowaski, a convivência entre os pares é um instrumento bastante terapêutico, que também tem por finalidade resgatar a reabilitação psicológica do sujeito. “Um dos mais seguros impedimentos à restauração da saúde é fazer com que concentrem a atenção em si. É preciso desviar a atenção de si e pensar no outro, e dele cuidar. As boas ações dentro do grupo terapêutico beneficiam tanto os que praticam como o que são objetos da bondade”.
Ressalta também que a instituição tem visão holística no tratamento, pois muito íntima é a relação que existe entre a mente e corpo. “Quando um é afetado o outro se ressente. Em resposta ao novo tratamento, foi possível observar que a terapia atual tem produzido ótimos resultados, excelente melhora, como bem-estar físico e mental já a partir da primeira semana na residência”.
Salienta também que a instituição oferece alimentação saudável produzida em sua própria dependência, livre de agrotóxicos, como frutas, verduras, peixes, aves, ovos, leite, queijo e etc. “É preciso considerar que as atividades ao ar livre e longe da cidade, em ambiente campestre, proporcionam saúde ao corpo e a mente e ajudam no tratamento, garantindo mais sucesso na abstinência em relação a modelos tradicionais além da prevenção contra várias outras doenças”.

A estrutura
A Casa da Solidariedade tem capacidade para atender 30 internos. Após 10 anos da sua fundação, segue abrindo suas portas para abrigar homens acima de 18 anos, de diferentes classes sociais e estágios de dependências químicas, mesmo que em alguns casos seja necessário, primeiramente, que os internos passem por um tratamento para desintoxicação.
A Prefeitura Municipal de Pomerode é responsável pelo repasse de subvenções para a instituição e disponibiliza toda a estrutura de Saúde do município. “Quando o interno não tem renda alguma, o município acaba custeando a sua internação e providencia para que ele passe a receber os benefícios do governo, como o afastamento temporário ou aposentadoria. Outros, com melhores condições financeiras acabam auxiliando financeiramente a Casa. Nossos internos estão doentes. O alcoolismo, o vício, é uma doença. É como se você fosse diabético ou cardíaco. Ninguém escolhe se acabar no álcool ou nas drogas”, explica Lori.
Em busca a essa recuperação, a rotina é rigorosa e os horários devem ser respeitados. O café da manhã é servido logo cedo e neste período uma oração é feita. Pedindo paz, sobriedade e forças para enfrentar um novo dia. “Eu sempre falo pra eles que aqui é onde eles vão renascer, se redescobrir e para isso devem ter uma rotina. É uma forma de chamá-los para as suas responsabilidades”.
Outro diferencial da Casa da Solidariedade é o contato com diferentes manifestações religiosas que tem formas distintas de pregar a palavra de Deus, mas o mesmo objetivo, auxiliar no processo de resgate da fé dos internos.
O vice-presidente da Casa é Eduardo K. Coimbra. A estrutura é mantida por quatro profissionais: Daiane (organização e cozinha), Maria Izabel Ribeiro (enfermeira), Roseli Weh (Assistência Psicológica) e Loraine Valentini (Gerência de Pessoal).

Voluntariado
Livros, computadores, móveis para os quartos e demais dependências. Estas são apenas algumas das necessidades da Casa da Solidariedade. O ócio e a falta de estrutura são um dos principais pontos negativos do tratamento destes internos que buscam recuperação.
Quem estiver interessado em colaborar pode entrar em contato com a presidência através do telefone 3387-3446.

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