Momento de Guerra
Em Santa Catarina, os primeiros colonos alemães aportaram em 1829, na atual cidade de São Pedro de Alcântara. No entanto, essa colônia fracassou. A grande colonização germânica no estado só ocorreu um pouco mais tarde, a partir de 1850, quando a colônia de Blumenau foi criada por Hermann Blumenau deste ano. Acompanhado por outros 17 alemães, Hermann achou um clima da região agradável.
Em Santa Catarina, os primeiros colonos alemães aportaram em 1829, na atual cidade de São Pedro de Alcântara. No entanto, essa colônia fracassou.
A grande colonização germânica no estado só ocorreu um pouco mais tarde, a partir de 1850, quando a colônia de Blumenau foi criada por Hermann Blumenau deste ano. Acompanhado por outros 17 alemães, Hermann achou um clima da região agradável, cortada pelo rio, propícia para a fundação de uma colônia.
Em 1860, ele vendeu a colônia para o governo imperial e, em 1880, Blumenau torna-se município, contando com 15.000 habitantes, em sua maioria alemães. Em 1851, inicia-se a colonização de outra região de Santa Catarina, a partir da fundação da Colônia Dona Francisca, atualmente Joinville.
Entre 1850 e 1888, chegaram à região 17.000 colonos alemães, em sua maioria protestantes, agricultores sem recursos, comerciantes e artesãos. A partir dessa colônia, os alemães se expandiram e colonizaram todo o norte de Santa Catarina.
Para gerirem suas comunidades, esses imigrantes utilizavam o modelo que conheciam da Europa. O resultado foi a formação de núcleos de etnias e tradições exclusivamente europeus nessas colônias. Antes da Segunda Guerra, por exemplo, só se falava alemão na região. As escolas adotavam livros que vinham direto da Europa; as igrejas ministravam o luteranismo evangélico (entre os alemães) ou o catolicismo (entre os italianos); jornais noticiavam em língua estrangeira – na década de 30, um terço dos periódicos no Brasil era escrito em alemão.
Toda a aproximação dos governos brasileiro e alemão se processou no período que antecedeu a guerra, e foi aprofundado nos dois primeiros anos do conflito. Depois desse período – marcado por grandes vitórias nazistas no campo de batalha – a situação começou a se inverter. A pressão do USA para que o Brasil entrasse na guerra a favor dos aliados foi muito forte. Somada à campanha antifascista desenvolvida pelo povo em todo o país, fez com que Getúlio rompesse relações com os Estados que compunham o Eixo.
Com a entrada do Brasil na guerra, em 22 de agosto de 1942, a ligação natural e expiatória desses imigrantes com o perigo alemão tornou a língua uma questão de segurança nacional. Dez dias depois, em 2 de setembro, já haviam sido presos 350 simpatizantes do Eixo em Santa Catarina, segundo o jornal A Gazeta. Residências de alemães e lojas comerciais com nomes germânicos foram apedrejadas, e ser alemão passou a ser motivo de chacota. Os imigrantes – que tinham vindo ao longo do século XIX e XX, importados pelo governo do Brasil – justamente para embranquecer a raça brasileira – passaram a ser vistos como traidores e racistas, e sua imagem foi demonizada para formar um imaginário de medo na população.
Declarações colhidas registram a imagem perversa do homem alemão na imaginação das crianças. Nela também era incutida a visão aterradora do bombardeio, caindo sobre as suas famílias, o pavor de serem raptadas pelos alemães.
Iniciou-se uma verdadeira caça às bruxas. Falar, cantar ou escutar canções alemãs, possuir um rádio, sendo alemão, italiano ou japonês, tudo isto estava proibido. O governo tentava dar fim a qualquer impulso de formação de um Estado paralelo no sul do país. Blumenau era uma ameaça à nacionalização do Brasil. Primeiramente, o problema era ser estrangeiro e, portanto, não patriota. Com a iminência da guerra, o problema passou a ser o germanismo. Uma simples suspeita poderia justificar uma prisão, num país onde o habeas-corpus estava suspenso. E as delações passaram a ocorrer sistematicamente, em um cotidiano que se tornou o de manter os ouvidos atentos onde amigos tornam-se inimigos e as relações passam a ser de tensões e medo de ser delatado. As contas bancárias dos alemães e descendentes foram bloqueadas, milhares perderam seus empregos legalmente, pois o Estado mandava dar prioridade aos brasileiros natos no mercado de trabalho.
Depois da guerra, as tradições alemãs voltaram à região, em particular a Blumenau. Na verdade, os anos 50 e 60 conheceram uma espécie de revanche do germanismo exacerbado. Hoje existe a Festa Pomerana, a Oktoberfest, o Stamntisch, a Schutzenfest, e várias outras manifestações de exaltação aos costumes germânicos. Mas a história da opressão nacional, do medo, do silêncio imposto continua na memória de quem viveu estes momentos.