Editorial
Dizem que águas passadas não movem moinhos. Porém, as águas que passaram pelo Vale do Itajaí neste fim de semana não levaram apenas moinhos, mas também casas, veículos, barrancos, árvores, entre outras estruturas. Basta o céu escurecer para que a população desta região sinta na pele o calafrio da enchente.
Dizem que águas passadas não movem moinhos. Porém, as águas que passaram pelo Vale do Itajaí neste fim de semana não levaram apenas moinhos, mas também casas, veículos, barrancos, árvores, entre outras estruturas. Basta o céu escurecer para que a população desta região sinta na pele o calafrio da enchente. O medo é visível os olhos dos habitantes, que se escondem em suas moradias, sem saber ao certo que fazer.
Foram, ao todo, 72 cidades atingidas pelas fortes chuvas que assolaram o Vale, e mais de 20 mil pessoas desalojadas, sendo colocadas em abrigos públicos ou alojadas na casa de parentes e amigos, que abrem suas portas nestas horas de dificuldade.
Uma ideia que já virou rotina no dia-a-dia dos catarinenses. Se chover, vai dar enchente. Trágico, porém, verdadeiro. Não há um ano que não se presencia uma cheia em Santa Catarina devido a um fator climático que se abstém de apresentação. Em 2008, milhares de famílias presenciaram seus piores momentos em meio à água, à lama e ao sentimento de perda. A perda de uma casa, de um carro, ou outro bem, ou, em outros casos, a perda do bem mais importante do ser humano: a vida.
Em 2011, novamente, famílias passaram pela sensação de desespero, e tiveram de enfrentar as cheias que tomaram conta da região. Mais uma vez houve bens destruídos e vidas perdidas.
Não é à toa que este povo, quando olha para o céu e vê a presença de nuvens escuras, desespera-se, amedronta-se, assusta-se e roga para que estas águas passem sem causar grandes danos à população. E embora, já alertados, já informados e, de certa forma, até conformados com a condição climática que lhes foi apresentada, mais uma vez, o Vale do Itajaí pôde confrontar-se com a situação deplorável de uma enchente.
O que mais assusta é a falta de medidas do governo para buscar diluir as chances de grandes desastres na região. Em 2012, uma verba teria sido supostamente destinada pela Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina) para obras contra enchente, visto a vulnerabilidade desta região em ser atingida por tais fenômenos climáticos. O total de dinheiro tomado foram dois empréstimos no total de R$ 5 bilhões no BNDES e Banco do Brasil. Entretanto, parte do dinheiro, R$ 1,7 bilhão, foi destinada a pagamentos de dívidas da Celesc, aumento de capital do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul), e a criação de um novo fundo para os municípios.
Desta forma, parte da verba destinada para o programa Pacto por Santa Catarina está sendo utilizado para recuperação financeira de autarquias e bancos públicos. Enquanto isso, as obras para evitar as cheias ficarão para o próximo ano.
O destino do dinheiro foi alterada por meio de projetos do Executivo, através da lei 15.855, aprovada em 2 de agosto de 2012 pela Alesc, sem alardes. Assim, foi autorizado o primeiro empréstimo, no valor de R$ 3 bilhões com o BNDES. Esta lei dava destino ao dinheiro a prevenção de desastres naturais (cheias e secas), mas teve as mudanças autorizadas com o aval da Câmara de Deputados, em maço e junho deste ano.
Com tais mudanças, mais de metade do financiamento acabou sendo utilizado para pagamento de uma dívida da Celesc, junto ao mesmo banco BNDES, no valor de R$ 1 bilhão. Foram utilizados mais R$ 200 milhões para o aumento de capital do BRDE e mais R$ 500 milhões para a criação de um fundo de apoio aos municípios, que só pode ser destinado após a criação de uma lei específica.
Enquanto o governo reserva parte do dinheiro que seria destinado para prevenção de desastres naturais no estado para sanar dívidas e alimentar outros projetos e fundos, a população continua a sofrer com as fortes enxurradas que, cada vez mais, danificam estruturas, pioram as situações dos morros e das encostas do Vale.
Não ser feito nada a respeito disso se torna um ato de covardia. Pessoas simples, humildes, que muitas vezes não dispõem do suficiente para sobreviver em situações de normalidade, tem que ver suas estruturas físicas e emocionais sendo abaladas de tal forma. É admirável a solidariedade dos outros para com os necessitados em tal situação, cedendo espaço no aconchego de seus lares para abrigar os desalojados. E comprando, de seu próprio dinheiro, alimentos e produtos de higiene e limpeza para auxiliar os afetados em momentos de dificuldade.
Entretanto, tais iniciativas não podem depender apenas e tão somente da população. Para isso, afinal, são eleitos representantes como prefeitos, vereadores, deputados e senadores. São estes, responsáveis pelo bem estar de seu povo, qual devem zelar para que nada de ruim lhe atinja. Contudo, é visível que não é isso que vem se sucedendo.
Eis que é como diz aquele velho, porém sábio ditado: quando a água bate na bunda, ou se aprende a nadar, ou morre afogado. Mas o povo não quer nem aprendera a nadar, nem morrer afogado. Em verdade, quer que a água passe longe de suas dependências e que não alcance proporções que se torne incontrolável. E para isso, são necessárias medidas, que não vem sendo tomadas.