Geral

Voluntários de Pomerode

Pouca gente sabe mas quem ingressa no corpo de bombeiros, além de correr riscos de vida, não ganha nada além do prazer de ajudar e ter a sensação de dever cumprido

1 de junho de 2015

A tarde corria tranquilamente, era uma quinta-feira quente, a chuva prometida para essa data ainda não dava sinais que de fato chegaria a Pomerode. Estava no escritório com os chefes de socorro do Corpo de Bombeiros da cidade Márcio Schbert, 38 anos e Walmir Fischer 50 (que já foram voluntários), o bombeiro voluntário Carlos Eduardo Demuth, de 25 anos, e a voluntária ainda em treinamento, Raquel Timóteo, de 38 anos, conversando sobre as experiências acumuladas por causa da profissão. O telefone já havia tocado algumas vezes, mas nenhuma delas anunciava um chamado. Naquele dia, duas ocorrências foram atendidas pela manhã (a média de ocorrências diárias é de 3 a 4). Uma na frente do hospital de Pomerode, de uma gestante sofreu um ataque epilético. Ela já tinha a doença, mas quando engravidou o médico lhe recomendou que parasse de tomar os remédios, então veio a crise. O mais curioso é o fato da mulher estar em frente ao hospital e ainda assim os bombeiros precisarem ser acionados. Márcio explicou que isso acontece porque os funcionários do hospital não podem efetuar atendimentos fora das dependências da unidade. A outra ocorrência foi um acidente de trânsito entre uma moto e uma bicicleta.

Apenas no fim do dia, quase seis horas da tarde, um chamado aconteceu. Outro acidente de trânsito, em Testo Central, envolvendo um carro e uma moto. Saímos de ambulância, Márcio na direção, o voluntário Adelino Harmel ao lado, e atrás, Raquel e eu. A voluntária mostrou que tem habilidade, manteve-se intacta no seu lugar com a maior naturalidade, parecia não sofrer as mesmas ações físicas das leis de empuxo sofridas por mim (impossível não mencionar as ações físicas para quem está numa ambulância em socorro). Colocou as luvas e a máscara calmamente, enquanto a ambulância me jogava para todos os lados. No caminho passamos por outro acidente, um carro bateu em um ônibus, não era o nosso acidente. Fomos mais adiante e encontramos o motociclista caído na beira da SC-421 com vários curiosos em volta (esse sim era o nosso). O carro cortou a via e se chocou com a moto que seguia sentido Pomerode, apenas o motociclista foi ferido, o condutor do veículo estava ao lado, teria de aguardar a polícia. O socorro foi iniciado com a avaliação da situação, em seguida a vítima, Antonio Carlos Albuquerque, de 38 anos, teve seus ferimentos limpos, foi colocado na maca e levado para o interior da ambulância, onde seus sinais vitais foram aferidos. A vítima estava consciente, não havia suspeita de fratura. Partimos para o hospital.

Acidentes de trânsitos são ocorrências comuns, os bombeiros já atenderam diversas. Algumas bastante graves com cadáveres dilacerados Em frente ao posto Mime pegamos um homem, vitima de acidente de trânsito, que estava com a cabeça aberta, massa encefálica espalhada, o corpo todo quebrado, parecia feito de gelatina conta Fischer. Teve outro caso de um homem que vinha de Testo Alto de moto, e perdeu o equilíbrio em uma curva e caiu. Ao ser socorrido, os bombeiros não compreenderam como foi possível que estivesse vivo, as pernas da vítima estavam dobradas para trás, na altura das costas, não sabiam nem como pegá-lo. Foi levado para o hospital, mas não resistiu e faleceu. Teve também o caso recente, na serra que liga Pomerode à Jaraguá entre um caminhão e uma caminhonete, no qual o condutor da caminhonete faleceu na hora. Mas segundo Fischer, o mais trágico foi o da família inteira que faleceu. Foi num domingo a tarde. Uma caminhonete (o condutor estava sozinho e também morreu) se chocou com um carro e o pai, mãe, duas crianças e um adolescente não resistiram. A família voltava de um sitio e trazia muitas frutas. Uma das crianças foi soterrada pelo alimento. Os bombeiros achavam que só havia quatro pessoas, mas ao iniciar a retirada das vitimas, encontraram a quinta, de aproximadamente sete anos.

Uma história que também chamou atenção, foi a de um garoto de 14 anos que faleceu num acidente de parapente. O pai tinha levado dois filhos para fazer o voo com um instrutor e antes da decolagem, uma das presilhas que sustenta quem está de carona no equipamento soltou e o garoto escorregou enquanto estavam planando. O instrutor até tentou segurar e diminuir a altura, mas quando conseguiram descer a trinta metros do solo, o jovem, que praticava o esporte pela primeira vez, despencou. As buscas começaram logo, mas a mata era fechada e desconhecida e com o fim do dia foram suspendidas. A procura foi retomadas apenas no dia seguinte, com o nascer do sol. Primeiro avistaram um galho grosso de árvore partido, depois o celular e por último a vítima sem vida. O pai ficou arrasado lamenta Fischer.

Mas, quando se pensa em bombeiros, lugares incendiados é a primeira coisa a vir na memória, e a equipe de Pomerode já controlou alguns. Márcio lembra-se de um incêndio de grandes proporções que consumiu o Galpão Nicoleto. Foram necessários três caminhões para controlar, uma parede e parte do telhado caíram, colocando em risco a vida dos profissionais e voluntários que atuavam no controle, mas ninguém se feriu. Outro foi na Lojas Marli, no centro de Pomerode, provocado por luzes de natal. Era fim de ano e Fischer ficou 18 horas direto no local do incêndio. As chamas não se espalharam para os arredores porque houve o cuidado de jogar água na parede da casa ao lado. Teve uma situação, em que Fischer foi recebido a pedradas por um morador de uma casa em chamas. O cidadão não queria que apagassem o fogo e jogou pedras em cima das pessoas que tentavam ajudar. Havia vários vizinhos sentados em cima de baldes, dispostos a ajudar, mas o dono da casa não deixava lembra. Algo improvável ocorreu em 2010, quando a chuva tomou conta de Pomerode e vários lugares foram inundados. Nesse dia, os bombeiros foram para a base ficar de plantão, mas para a surpresa deles, houve um incêndio numa padaria debaixo da chuva. Saíram para resolver o problema e quando retornaram, uma enchente havia inundado a sede do Corpo de Bombeiros. E o pior, na época, recolhiam-se cobras que posteriormente era enviadas ao Instituto Butantã em São Paulo, e todas as cobras escaparam com a enchente. A sede além de estar com mais de um metro e meio de água, estava repleta de serpentes. Das 56 que estavam presas, apenas 36 foram recuperadas. Curiosamente, um fato parecido aconteceu um ano depois. Novamente a chuva tomava conta da cidade e outro incêndio começou.

A segurança é o aspecto fundamental no salvamento. Os bombeiros precisam, antes de tudo avaliar se eles não correm perigo, para depois poderem iniciar as medidas. No caso de um incêndio, por exemplo, é preciso que a eletricidade esteja desligada. Houve um acidente em que um carro bateu em um poste e a vitima ainda estava viva, mas não pode ser socorrida pois a energia estava ligada. Os bombeiros dependem muito do trabalho de outras instituições para agir. Em uma situação de risco, se alguém falha, vira uma bola de neve. Quem está em torno pode até se revoltar, achar que não estamos fazendo nosso trabalho. Mas se entramos numa situação de risco, nós, além de não conseguir salvar a vítima, podemos sofrer as consequências, explica Márcio.

Ser bombeiro significa ser versátil, pois nunca se sabe em que situação você precisará se envolver para salvar alguém. Esses profissionais passam periodicamente por cursos de qualificações de todos os gêneros. Aliás, apenas para se tornar um voluntário é preciso passar por uma qualificação que dura um ano. O voluntário se torna aluno e faz provas sobre cada tema que aprende, só se torna um voluntário quem realmente estiver disposto a isso. Quem de fato tem o instinto prestar ajuda. Muita gente desiste no meio do curso. Quando decidi entrar para a corporação, fui convidado por um amigo. Iniciamos o curso juntos e no fim de todos que começaram só eu terminei, até meu amigo desistiu, conta o voluntário Carlos. Os voluntários trabalham na corporação, sem receber nenhum salário, um dia por semana e todos têm outras profissões fora dali.

O lado mais interessante em ser bombeiro é ajudar, contribuir para o bem da comunidade. Fischer já participou até de um parto. Uma garota de 13 anos grávida estava sendo levada para o hospital e a criança começou a nascer dentro do carro. A equipe foi acionada e Fischer chegou a tempo de cortar o cordão umbilical, com o bisturi do kit parto, um acessório de primeiros socorros, para essas situações. Hoje em dia a mãe da criança passa e mostra a filha para ele e diz É essa a criança que você ajudou a nascer. Em outra situação, também de parto, alguém fez um chamado da rua Ribeirão Souto e essa rua tem uma bifurcação, mas a continuação dos dois lados segue com o mesmo nome e a mesma numeração. Chegaram na casa errada perguntando sobre o parto. Os moradores ficaram assustados, mas lembraram que havia uma mulher grávida no outro lado da bifurcação. Quando chegaram na casa certa, a criança já estava até limpa.

Há também o resgate dos embriagados. Existem dois alcóolatras que já viraram fregueses do 193. Um deles é um homem que bebe demais e pega no sono por ai. As pessoas chamam os bombeiros avisando que alguém está desmaiado na rua, quando chegam é o mesmo homem, dão uma cutucada, ele levanta e vai embora. Também tem uma mulher de 45 que já chegou a beber álcool do posto de gasolina. Um dia ela foi encontrada completamente embriagada, carregando três litros de cachaça, ela dizia que já havia consumido outros três. No caminho para o hospital ela repetia que o bombeiro estava apaixonado por ela e depois emendava três litros.

O Corpo de Bombeiros também realiza ações sociais, como palestras em escolas e instituições, sobre segurança. A escola entra em contato com eles, sugere um tema e logo é atendida. Além disso, há um projeto voltado para crianças que acontece aos sábados. As crianças ganham noções de primeiros socorros e lições de cidadania. Muita coisa ainda há de ser feita. Até agora já foram quase 19 anos de prontidão em ajudar.

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