Editorial
O teste do tempo é impiedoso e não há nada que sobreviva ele. Os crimes mais cruéis, os de motivação imoral, com o passar dos anos, têm seu impacto reduzido, deixam de chocar as pessoas e, alguns, até perdem o sentido.
O teste do tempo é impiedoso e não há nada que sobreviva ele. Os crimes mais cruéis, os de motivação imoral, com o passar dos anos, têm seu impacto reduzido, deixam de chocar as pessoas e, alguns, até perdem o sentido. A revolta que nos causa pode ser uma das maiores, mas um dos maiores escândalos da história de nosso país pode ser lembrada, apenas, como uma mera piada de salão.
Isso porque, mesmo com evidências concretas sobre a culpabilidade dos réus, com a opinião pública clamando enfurecida pela justiça e, aos poucos, voltando a crer em uma política já desacreditada, o resultado, nada mais é, do que o empalhamento dos supostos culpados.
O fato é que o passar do tempo acalma a alma das multidões. E, enquanto o tempo corre, as pessoas tornam-se mais compreensivas e todo o calor do acontecimento e do momento se esvai. As manifestações estão aí para provar que o calor da hora atrai muitos, mas mantém poucos.
Quando o escândalo do mensalão estourou, a ira humana se fez presente em todos os cantos. E, também, alertou os bons advogados que, com certeza, empenharam-se na busca pela amenização dos resultados, como conseguiram.
Os melhores do país estava lá, defendendo José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. Os demais envolvidos também não ficaram para trás e contrataram sua última esperança com possíveis salários exorbitantes. Afinal, recursos financeiros não iriam lhes faltar.
Lidando com o que o homem possui de mais precioso, a honra, a liberdade e o patrimônio, o julgamento aconteceu e, acredite, irá acontecer de novo.
Agora, ficam os questionamentos: Quem recebeu de quem? Há mais gente envolvida nessa história? Por que a voz do povo não é ouvida?
O jornalista João Mellão Neto, faz outro questionamento: O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva jura de pés juntos que de nada sabia sobre o mensalão, apesar de as tramas terem sido tecidas na sala vizinha à dele no Palácio do Planalto. Devemos acreditar nessa versão de Lula? Ou tratar de engoli-la, acreditando na propaganda tão difundida que garante que, com maionese, dá?!.
A dúvida que nos fica, agora, se refere às nossas instituições e à reverência quase sagrada que lhes devemos dedicar. Um sábio norte-americano já afirmou que as instituições de uma nação são algo assim como os cabos de alta tensão: à primeira vista, eles nos parecem frágeis e quebradiços a ponto de nenhum pássaro, por menor que seja, se arriscar a neles pousar. Mas tudo isso é apenas aparência. Basta que ousemos tocá-los para que sejamos implacavelmente fulminados e carbonizados por eles.
Nada disso é lorota. Nos Estados Unidos da América, que escreveram a primeira Constituição do mundo moderno, a Lei Maior é tida como sagrada pelo povo. E ai de quem ouse desafiá-la…! Já a nossa Carta Magna, coitada, foi reescrita dezenas de vezes, com a periodicidade, talvez, de um catálogo telefônico.
Há uma passagem sábia e significativa que nos vem da Grécia antiga. Sócrates, o grande sábio, incomodava as pessoas mais cultas com suas perguntas sempre certeiras e de lógica irrespondível. Em outras palavras, ele as obrigava a pensar. Logo a juventude se acercou do filósofo ateniense e passou a adotar o seu método. Isso foi o início de seu fim.
Após um longo processo, os sábios de Atenas o condenaram à morte. O método escolhido foi lento e doloroso: Sócrates teria de ingerir a infusão de uma planta venenosa conhecida como cicuta (Conium maculatum) e aguardar os tenebrosos efeitos. Seus amigos o cercaram enquanto ele agonizava.
Platão, seu discípulo mais dileto, assistiu a tudo, inconformado. A certa altura, dirigindo-se ao mestre, tratou de questioná-lo: Por que, mestre, você se dispõe a morrer? Nós já lhe preparamos uma rota de fuga segura e você não correrá nenhum risco. Não há ninguém na Grécia que não o receberia de bom grado. Por que, então, ficar aqui?
Meu bom amigo Platão, respondeu-lhe Sócrates, se eu me for, estarei renegando tudo o que venho pregando em toda a minha vida: se os homens bons não obedecerem às leis más, que garantia teremos de que os homens maus venham a respeitar as leis boas?, completa o jornalista.
E enquanto acompanhamos uma das maiores pizzas da história de nosso país, também vemos a esperança de um futuro melhor estar cada vez mais distante.
Esperança de quem sonhava em ver políticos corruptos na cadeia, para servir de exemplo aos demais. Esperança de quem gostaria de contar a história para os filhos e, com soberba, orgulhar-se do seu Brasil.
No entanto, essa mesma esperança foi, agora, guardada dentro do peito para, quem sabe, em uma nova série de protestos, voltar a despertar, pois afinal a esperança é a última que morre, não é?