Editorial
Os avanços da medicina moderna causam espanto aos mais esclarecidos e instruídos culturalmente. Os tempos atuais são separados por uma longínqua linha cronológica que ainda recordamos. Quem imaginava ouvir falar anos atrás de célula-tronco? Procedimento para reconstituição do hímen? Implantes absurdos de silicone, que garanta vaga no guines book? Transplante…
Os avanços da medicina moderna causam espanto aos mais esclarecidos e instruídos culturalmente. Os tempos atuais são separados por uma longínqua linha cronológica que ainda recordamos. Quem imaginava ouvir falar anos atrás de célula-tronco? Procedimento para reconstituição do hímen? Implantes absurdos de silicone, que garanta vaga no guines book? Transplante de rosto que garante o resgate da cidadania de um individuo acometido por uma tragédia?
Na última semana, a imprensa internacional noticiou dois acontecimentos que podem, através de seus extremos, promover uma reflexão positiva. De um lado, a busca desesperada pela perfeição, que siga, rigorosamente, os padrões estipulados pelo mundo da moda, das revistas fashion, das clínicas de cirurgias plásticas, enfim, do universo do ser bela, indiferentemente do conteúdo e dos riscos a qual o ser humano é capaz de se submeter. De outro, a vergonha, o medo de sair em público e ser alvo de chacota. O temor de se olhar nos espelho e constatar verdadeiras deformidades. Trata-se de pessoas que tiveram suas vidas mudadas, de uma hora para outra, em decorrência de uma fatalidade. Que tiveram seus corpos deformados, desfigurados, resultando não somente em problemas estéticos, mas físicos, sociais, e principalmente, psicológicos.
O primeiro caso é referente a Sheyla Almeida Hershey, 30 anos, modelo que ficou conhecida por tentar obter o título de mulher com as maiores próteses de silicone no mundo, e que está sofrendo com uma infecção que apareceu após a última operação de implante de prótese de silicone e corre risco de morte. Os médicos não descartam a possibilidade de retirar seus seios para evitar que as bactérias cheguem à corrente sanguínea e se espalhem por seu corpo. A modelo, que tem dois filhos, declarou estar arrependida de ter realizado tantas operações para aumentar os seios. Ao todo foram 30 cirurgias plásticas, nove delas para aumento de seios que hoje tem 3,5 litros. Ela pretende deixar agora apenas 1 litro de silicone caso se recupere.
A segunda matéria retrata a triste história, mas com final feliz, de um jovem espanhol, Oscar, de 31 anos, submetido em março ao primeiro transplante total de face e que mostrou nesta segunda-feira pela primeira vez às câmeras seu novo rosto. Oscar teve a face desfigurada após um acidente há cinco anos e ficou com dificuldades para respirar, engolir e falar. Com o transplante, o jovem recebeu não somente um novo rosto, mas o resgate de sua cidadania. Ele já é capaz de beber líquidos e comer alimentos pastosos e recuperou o tato na maior parte do rosto. Segundo os médicos, eles procuraram reconstruir a face de modo a que ela lembre mais as feições que Oscar tinha antes do acidente do que as do doador.
O homem (ser) é descontente por natureza. Quem é alto, quer ser baixo. Quem é magro, quer ser um pouco mais gordinho (não muito, pois aí já é demais). Quem tem cabelo liso, quer ter crespo. Quem tem seios fartos, faz cirurgia para retirar parte deles, e corrigir a coluna. Quem não os tem, coloca silicone. Quem tem a pele clara, gostaria de ser mais bronzeado. E por aí vai…
O problema não está em melhorar a aparência. O problema é a preocupação exacerbada em ser belo e o esquecimento imperdoável de o ser internamente. O renomado e eterno Vinícius de Moraes já dizia: “As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”.
Beleza abre portas, beleza torna tudo mais fácil, beleza proporciona certas vantagens. Contudo, é imprescindível estar na “moda”. Na moda da solidariedade, da educação, da amizade, do amor sincero, e principalmente, na moda de aceitação, quando aprende-se, verdadeiramente, a conviver com imperfeições, pequenos defeitos, mas que não sejam de conduta.