Pomerode nos ares
Pode parecer clichê, mas o sonho do homem voar vem desde os tempos da mitologia. Misturado com as crenças, chegar aos céus pode dar a sensação de estar mais próximo de Deus. Por tudo isso, voar fascina a humanidade. Leonardo Da Vinci projetou o que Santos Dumont, o Pai da…
Pode parecer clichê, mas o sonho do homem voar vem desde os tempos da mitologia. Misturado com as crenças, chegar aos céus pode dar a sensação de estar mais próximo de Deus. Por tudo isso, voar fascina a humanidade.
Leonardo Da Vinci projetou o que Santos Dumont, o Pai da Aviação, realizou e desta forma possibilitou que muitos alcançassem o antes inimaginável.
Essa obstinação por romper barreiras e se consagrar nas alturas leva muitos a investirem na carreira de piloto e comissárias de bordo. Seja na aviação civil ou militar, Pomerode está repleta de representantes voando pelo céu do planeta. Mais até do que às vezes pensamos.
Com muitos representantes trabalhando como comissários de bordo e agora até tendo uma mulher nos quadros de cadetes da Força Aérea Brasileira (FAB), Pomerode pode dizer que está no mapa da aviação brasileira.
Veterano no céu
Ele ainda não se diz um veterano, mas com 15 dos seus 32 anos dedicados à Aeronáutica Brasileira e aproximadamente três mil horas de voos, o pomerodense, Geancarlo Jandre, tem experiência de sobra para falar dos encantos e desafios que é se confrontar com os limites do céu e da terra.
Apaixonado por voar, ele é um dos pilotos do 1º Esquadrão do 10º Grupo de Aviação e pilota aeronaves AMX, ou caças e tem a patente de capitão.
Mas para chegar até aqui não foi fácil. Primeiro superou todas as etapas para quem quer se tornar um piloto da Força Aérea Brasileira (FAB) e concluiu o curso da Escola de Preparação de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena (MG).
Depois cadenciou a vontade de apoiar e trabalhar para a população brasileira e seguiu adiante no sonho, tanto que hoje fala com orgulho das operações de combate ao narcotráfico que realiza nas fronteiras brasileiras. “Um dos grandes fatos nesses meus anos de piloto é quando participei de operações junto ao Ministério da Defesa, na região Norte no combate a entrada de drogas no país”, revelou o piloto.
Muitas dessas operações foram concluídas com sucesso e com o desfecho esperado. E como o próprio capitão define dentro da diplomacia. “Felizmente nunca precisei usar da última instância em uma operação, que é abater uma aeronave. Antes disso por Lei temos que esgotar todos os trâmites da diplomacia”, comemora.
A solução do problema de maneira pacífica é que o capitão espera para sua carreira. “Pretendo chegar a Coronel e espero nunca ter que ir para uma situação real de conflito, apesar de saber que sou preparado para isso. A Guerra é o fim da Diplomacia e acho muito mais importante quando participamos de operações de paz”, falou com propriedade de quem já deu suporte para as Tropas de Paz da ONU, no Haiti.
O começo
Geancarlo entrou na aviação inspirado pelo instinto de liberdade e a vontade de ajudar a nação a superar desafios. Também se espelhou no Tenente Coronel Hardt, amigo da família de Geancarlo que acabou servindo como exemplo para o piloto, ainda quando estava no primário. Ingressou no curso básico da EPCAR em 1996 e hoje está baseado em Santa Maria, Rio Grande do Sul.
Pioneira
Não dá para tratar de forma diferente a primeira mulher de Pomerode a pilotar uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB). O nome dela é Betina Hardt, 18 anos, que está no segundo ano do curso de aspirante a oficial aviador da Academia da Força Aérea de Pirassununga (SP). No mês de maio ela conseguiu o que nenhuma mulher de Pomerode antes havia realizado, pilotar um avião da FAB e seguir na sua preparação para se tornar uma oficial da Força Aérea Brasileira.
Sobrinha de aviador, Betina, optou pela carreira aeronáutica pelas as benesses e segurança que a profissão proporciona. Voar não era seu sonho de adolescência, pois pretendia seguir a carreira de bióloga. Porém, o destino a levou para os ares e nos céus descobriu a sensação de liberdade, que é ver o mundo de cima.
Betina está na Base Aérea de Santa Maria e ainda está radiante com a experiência do primeiro voo. “Foi uma sensação de dever cumprido e de que todo esforço valeu a pena. É muito gratificante quando você vê que decolou e pousou com segurança”, explicou a cadete.
A ansiedade pela execução do voo perfeito não é só de Betina, mas também de todos os familiares que torcem pelo sucesso da piloto. “Não estamos ali fazendo um voo de passeio. Há missões a serem cumpridas e caso falharmos três vezes em voos diferentes, podemos colocar em risco nossa permanência no curso e jogar fora um sonho”, declarou, explicando toda a tensão que passa antes de decolar e a preocupação que tem em ligar para a família a cada etapa realizada com sucesso.
O sonho
Betina não está só nessa empreitada feminina por um universo tão masculino e diz que a cada dia crescem o número de mulheres interessadas em seguir a carreira de piloto. “Hoje já deve ter umas 22 mulheres voando pela FAB”, afirmou. Porém, Betina não quer para por aí. Seu desejo é concluir o curso e se especializar em pilotar outra aeronave, as Asas Rotativas, ou helicópteros como é popularmente conhecido. “Não tinha começado o curso ainda, mas quando vejo as imagens dos resgates feitos em 2008 quando Santa Catarina foi atingida pelas enchentes e deslizamentos, fico muito emocionada e ciente de que gostaria muito trabalhar nesse tipo de operação”, confessou, lembrando que na Amazônia os trabalhos humanitários das forças armadas brasileiras também a atrai bastante.
para alcançar o sonho não faltará dedicação e Betina garante que mesmo que precise estar em uma operação mais arriscada espera estar sempre preparada para cumprir sua missão. “Acho difícil nós precisarmos agir em uma situação de guerra, mas caso isso acontecesse tenho certeza que estaremos pronto, pois recebemos constantemente treinamento de campanha”, afirmou a jovem.
Inspiração e sensação
A cadete descreveu a sensação de voar como algo muito gostoso e apaixonante. E disse que tudo lá de cima é muito bonito. Mas ainda assim, o dever cumprido não sai da cabeça, diante da superação que lhe foi exigida para chegar até aquele momento. “Pensei lá em cima: eu consigo fazer isso. Só ouvir o motor do avião naquela imensidão do céu é maravilhoso. Um presente de Deus poder ver a liberdade por esse ângulo”, confessou Betina.
Do voo inicial a sequência na carreira, inspiração não irão faltar. Seja pelas paisagens que do alto irá avistar, quanto de filmes de guerra ou clássicos como “Top Gun” que assiste, sempre terá de onde tirar motivação para superar os desafios e cumprir com esplendor suas missões. E como diz no filme Tropa de Elite: “Missão dada é missão cumprida”, lema que Betina segue a risca.
Santos Dumont a “La” Pomerode
Para que todos os entrevistados acima possam à sua maneira viver a sensação de voar é preciso que haja uma pessoa projetando e criando essas aeronaves. É justamente essa carreira escolhida pelo jovem de Pomerode, Rodrigo Anderson Koch, 22 anos, que cursa Engenharia Mecânica-Aeronáutica, no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Fã de aviões desde criança ele cursa o quarto ano, dos cinco que fazem parte da formação de Engenheiro Mecânico-Aeronáutico e sonha em atuar nessa área em empresas como Embraer, Air Bus e Boeing.
Apesar de estudar em um instituto militar, Rodrigo optou por seguir na carreira civil e nela pretende atuar projetando aeronaves e equipamentos para as mesmas.
Mas se pensarmos em Brasil, o mercado nessa área não é tão pujante, apesar de ter a Embraer como uma das principais fabricantes de aviões do mundo. Porém foi justamente o crescimento da empresa nacional, que motivou o jovem a ingressar neste mercado. “Procurei onde havia curso nesta área e vi que tinha aqui no ITA ou na USP, de São Carlos. Passei no vestibular e segui nos meus estudos”, contou.
Futuro
Rodrigo ainda analisa que área específica quer atuar dentro da engenharia aeronáutica, mas diz que gostou bastante de atuar na área de projeto de Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT). “Ainda estou em uma fase de descobrir diversas áreas de atuação, porém achei muito interessante o VANT, principalmente por ser objeto de extremo interesse para área de aviação militar”, declarou.
Seguro
O fato de saber projetar uma aeronave e conhecer todos seus procedimentos deixa Rodrigo seguro na hora que entra em um avião. Tanta confiança, leva o jovem brincar com os amigos. “Quando tem mais alguém comigo, vou dizendo todas as etapas, inclusive a hora que eles devem começar a se preocupar. Isso porque muitos torcem quando o avião decola com sucesso, mas a parte mais perigosa de um voo é a descida”, explicou.
Sonho de menina
Mesmo nunca tendo entrado em avião, foi com nove anos de idade, que a então pequena Carla Sell, hoje com 37 anos, decidiu o que queria fazer quando fosse adulta. A motivação e a descoberta vieram de uma viagem feita pelo pai, que aguçou sua curiosidade de saber como era olhar o mundo de cima.
Desde então começou a se preparar e procurar saber informações sobre a profissão que queria seguir. “Até parar de ir para a escola de bicicleta eu parei. Porque meu pai disse que para ser comissária não podia ter cicatriz na perna. Com medo de cair e ficar com alguma marca fui um mês a pé, até minha mãe me explicar que existia meias que encobriam qualquer marca”, contou a comissária.
Depois disso, nunca desistiu do sonho, assim com afirma categoricamente que após 12 anos de carreira, espera ficar mais “80” trabalhando como comissária.
Porém, antes de subir pela primeira vez em um avião, Carla foi em busca de estabilidade e para isso concluiu o curso de administração. Com um curso superior completo, no dia seguinte a formatura, foi em busca da escola preparatória para comissária. “Tinha meu porto seguro, com a faculdade de administração e a experiência dando aulas de alemão. A partir daí estava pronta para ir em busca do meu sonho de menina. Fiz o curso em Curitiba e quando ingressei na profissão percebi que tinha nascido para aquilo”, garantiu a Carla.
Fazer as pessoas chegarem ao seu destino, sãs e salvas, é o que dá mais prazer para essa veterana dos ares. “A gente é tudo dentro de uma aeronave e com a experiência conseguimos pelo olhar do passageiro saber o motivo daquela viagem. Às vezes só no olhar sabemos se ele está indo para um enterro de familiar e nessas horas que temos que usar nossa sensibilidade para quem sabe durante o voo amenizara dor do passageiro”, explicou.
Casada com um bancário e uma vida estável em São Paulo, Carla disse que nada faz mudar de opinião sobre a carreira que escolheu. “Meu marido sabe que sou apaixonada pelo que faço e por isso acabamos adaptando nossas vidas aos meus voos. Muitas vezes nosso domingo cai numa terça-feira”, disse.
Medo passa longe
Com tantos anos na profissão, poderíamos pensar que Carla Sell, alguma vez tenha sentindo medo e pensado em abandonar tudo. Engana-se quem pensa isso. Ela já até passou por situações de pânico dentro da aeronave, mas nada que fizesse abandonar a carreira. “Já aconteceu em voo do Rio de Janeiro para Natal, de uma mulher dizer que iria jogar o avião no chão. Acendeu cinco vezes o cigarro no banheiro e dizia que “Satanás” estava ali dentro. Tomamos todas as medidas cabíveis e informamos ao piloto que não havia necessidade de um pouso urgente. Quando chegamos ao destino a Polícia Federal já esperava pela passageira, que foi detida e conduzida para averiguações. Fora isso nunca tive uma situação de risco e mesmo quando acontece acidentes com outras aeronaves, não sinto medo de continuar voando”.
Paixão
Como contamos a história de Carla na aviação, é uma paixão de infância e para ela o sucesso foi conquistado porque sempre gostou de lidar com pessoas não importando a idade. Talvez por isso, se interessou tanto quando o pai contava de sua experiência em um avião quando ela tinha nove anos de idade. De lá para cá são três décadas passadas e 12 anos de carreira, mas sem nunca se desfazer de um dos amuletos que fizeram a pomerodense nunca desistir de seu sonho. “Tenho uma Barbie Aviadora que está até hoje na casa da minha em Pomerode”, finaliza a comissária.