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PARAJASC: uma competição onde todos saem vencedores

Feche os olhos. Pense em um mundo onde todas as pessoas são iguais. Visualize este lugar irradiado por harmonia, por luz, por cumplicidade, por solidariedade e compreensão. Neste local não existem grandes problemas e sim, imensa força de vontade de superá-los. É um mundo repleto por corajosos, vencedores, por pessoas…

17 de junho de 2011

Feche os olhos. Pense em um mundo onde todas as pessoas são iguais. Visualize este lugar irradiado por harmonia, por luz, por cumplicidade, por solidariedade e compreensão. Neste local não existem grandes problemas e sim, imensa força de vontade de superá-los. É um mundo repleto por corajosos, vencedores, por pessoas únicas e por isso, especiais. Imaginou? Pelo menos tentou visualizá-lo? Você acha que é utopia e que não existe um local assim? Engana-se, ele existe, dentro de cada um de nós, ou pelo menos deveria existir.
Para alguns se encontra em um cantinho escondido de nossos corações, de nossas essências. Está lá, encoberto pelo preconceito e pela ignorância. Destape-o, deixe-o aparecer, abra a sua mente e absorva a experiência que será relatada aqui, na sequência desta reportagem.
Um grupo de pomerodense composto por atletas com limitações físicas e intelectuais, acompanhado por uma delegação formada por profissionais habilitados em suas respectivas áreas e por integrantes da Fundação Promotora de Eventos, Esporte e Lazer (FUNPEEL), participou de duas competições muito importantes para o município em dois sentidos, social e esportivo. De 26/04 a 01/05 aconteceu o PARAJESC e de 01 a 07 deste mês, o PARAJASC, ambas as competições na mesma cidade, São Miguel do Oeste, onde nossos talentos pomerodense vivenciaram tudo o que está descrito no primeiro parágrafo desta matéria.
Conviver com estas pessoas especiais, conhecer suas histórias de vida, o amor de suas famílias, a copreensão daqueles que as cercam, a energia que emana de seus sorrisos, não deveria ser uma oportunidade e sim um objetivo de vida. Grande parte das pessoas que desconhecem o universo da deficiência, quando se depara com casos como o de Charles, Dani, Valdir, Alex, Ilsanora e tantos outros personagens desta história, acaba pensando: “Como sou injusto. Tenho dois braços, duas pernas, enfim, nenhuma deficiência física, nem intelectual, e reclamo da vida, sou infeliz. Eles (os especiais, os diferentes), mesmo com todos estes problemas são felizes, não reclamam da vida, se superam diariamente”. Outros pensam: “Como é fácil ser feliz”.
São tantas as histórias, tantos relatos marcantes e comoventes, mas ao mesmo tempo insuficientes para demonstrar através de palavras o que a convivência nestas duas competições significou para estas pessoas. Frank Fred Utch, Gerente de Esportes da Funpeel, diz que uma das situações que mais o deixou emocionado foi quando Valdir Hackbarth, que compete na modalidade “atletismo deficientes intelectuais”, disse, três dias após a competição de 2010, que já estava começando a arrumar sua mala para o PARAJASC deste ano, reflexo do quão importante foi para ele participar de tal evento.

“É preciso ter corações. Não basta um só”
Vilmar de Ramos, presidente da APODEF (Associação Pomerodense de Deficientes Físicos) e atleta da modalidade “bocha deficientes físicos andantes”, participou pela segunda vez da competição. Disse que embora já tivesse escutado de vários colegas que a experiência era maravilhosa, só constatou na prática o quanto estar entre iguais a ele durante tantos dias, movido pelo mesmo objetivo, significaria em sua vida. “Percebi que temos que ter corações e não coração nesta competição. Lá é o nosso mundo, não vimos tristeza, ninguém fala mal do outro. Formamos em uma semana uma família. A cena que mais me marcou foi ver o colega Laércio Volkmann – Medalha de bronze na prova de lançamento do dardo e medalha de bronze na prova arremesso de peso, sendo premiado. Ver a alegria dele ter conseguido, de ter se superado, não tem preço”.
O presidente da APODEF teve uma de suas pernas amputadas em decorrência de um acidente de moto há dois anos. Antes disso, Vilmar conta que sua vida era bem diferente, que não se envolvia com esportes e nem mesmo com nenhum trabalho voluntário, de cunho social. “Precisei perder algo para dar valor ao resto. Digo para as pessoas que a minha vida é muito melhor agora do que antes. Quando tinha minhas duas pernas reclamava de qualquer unha encravada. Hoje não reclamo mais, se tenho alguma dificuldade, luto até conseguir superá-la”.
Após iniciar uma série de sessões de fisioterapia, resolveu participar da APODEF e foi na entidade que teve seu primeiro contato com a Professora Ilsani Baptista, responsável pelos treinamentos em Pomerode. “Comecei em uma modalidade e não deu certo. Depois fui para a bocha e me adaptei. Gostaria de pedir para as pessoas acordarem, aqueles que como eu tem uma deficiência. Não podemos ficar trancados em casa, temos que viver.Tenho um amigo que é amputado como eu que chegou a pensar em se matar. Neste caso, uma palavra de consolo, de incentivo, foi suficiente para ele retomar sua vida. Temos que aceitar o que acontece conosco. Pego a minha muleta e vivo minha vida. Não dependo dos outros, olho para frente e sigo. Faço coisas hoje que não fazia quando tinha duas pernas. Hoje agradeço a Deus tudo o que aconteceu comigo pois me transformei em uma pessoa melhor”.

Amizades verdadeiras que superam as diferenças
Lisbete Marina Belzer Rosa, tesoureira da APODEF, mãe do jovem de 18 anos, Alex, conta que seu filho participou neste ano do PARAJESC nas modalidades de lançamento de peso e pelota e que o maior ganho para ele foi no que diz respeito a valorização pessoal e a autoestima. “No primeiro ano ele não conseguiu nenhuma medalha, mas mesmo assim adorou participar. Acompanho o Alex por ele ser surdo, acabo servindo como intérprete para ele. Além desta deficiência ele não tem o braço direito e tem déficit de aprendizagem. Lá, acabou vendo que existem várias pessoas como ele. Que todos competem da mesma maneira. No PARAJESC não tem essa questão de coitadinho, todos estão juntos em prol do mesmo objetivo e isso é extremamente positivo”.
Enquanto relatava a experiência vivenciada por ela e seu filho, Lisbete mostrava-se orgulhosa de cada avanço, de cada conquista, como por exemplo, os momentos de distração e lazer que Alex desfrutou ao lado dos vários amigos que ele fez, alguns com limitações físicas e intelectuais como ele e outros não. “Nunca vi ele brincar tanto quanto lá. Nunca vi ele vibrar tanto quanto na competição do Bocha deficientes físicos, paralisado cerebral, quando seu amigo, Charles Frank Ferhmann (Medalha de ouro na disputa individual da categoria BC1), ficou campeão. E tem outras relações de amizades, como no caso do Frank, que ele acabou adotando, que não tem explicação. Pessoas tão diferentes e que conseguem estabelecer laços afetivos tão intensos”.
Como mãe Lisbete diz que aprendeu a ser mais firme, de ver seu filho como uma pessoa igual as demais. “Aprendi a deixar ele mais solto, mais independente. Espero estar ensinando as outras pessoas que não devemos desistir. Dificuldade existe em tudo que é lugar. A maior deficiência está em nossas cabeças. Diferente do que é para a maioria das mães, que se depara com a deficiência de seus filhos, eu escolhi ser mãe de um menino especial. Não fazia ideia do que enfrentaria pela frente, tinha a experiência profissional de trabalhar com estas pessoas, mas ser mãe é bem diferente. Meu esposo chegava em casa e me via chorando, por não saber como lidar com determinadas situações. Ele me questionava, dizia que eu já sabia como seria, mas na prática era bem diferente, bem mais difícil do que eu imaginava. Olhando para o passado vejo que foi uma caminhada fantástica. Sempre fui uma pessoa muito tímida, muito envergonhada, e com o Alex acabei superando esta timidez”.

Conhecendo seus limites
Margareth Ripp Butzke, mãe da atleta Daniela Butzke – medalha de bronze na prova dos 50 metros costas, na modalidade “natação deficientes intelectuais” – atua como secretária da APODEF. Ela relata que Dani, como é conhecida por todos, nunca fez natação com o objetivo de competir, pelo contrário, o foco era apenas o lazer e qualidade de vida. “Quando surgiu a oportunidade da Dani participar de uma competição, vimos a alegria dela de estar entre os iguais. O PARAJASC e o PARAJESC foram muito importantes para ela, bem como, o brasileiro, realizado em São Paulo. Lá a Dani foi somente com a professora. Fiquei desesperada. Imagina uma adolescente de 15 anos em um lugar como este, sem os pais, por uma semana, com 1.400 pessoas? Mas acabou dando tudo certo. Foi mais difícil para mim e meu esposo do que para ela”.
Além de mãe de uma adolescente especial, Margareth é Diretora do Colégio Doutor Blumenau, instituição de ensino onde Dani estuda. “Nunca colocamos a Dani na APAE, optamos pela escola regular, o que sempre me estimulou ainda mais, como educadora, para proporcionar a socialização dos especais. Depois deste convívio, acabei percebendo que para ela é importante esta convivência”, complementa.
Margareth explica que a síndrome de sua filha foi constatada logo que ela nasceu e que o mais importante para o desenvolvimento de Dani foi a aceitação da família e o amor destinado. “Criamos a Dani para ser independente e ela sempre participou de tudo, nunca a privamos de nada. Neste ano ela termina a 8ª série e vai junto para a viagem da turma de quatro dias para o Rio Grande do Sul. E sempre foi assim. Ela sempre foi motivo de orgulho para nós e não de pena. Não colocamos limitações. Seguimos as orientações de terapeutas e médicos que nos diziam que o limite é dela, ela é que precisaria estabelecer, que não disséssemos a ela até onde pode ir. E todas as conquistas, por menores que fossem, eram comemoradas”.
Dani surpreendeu sua família em tudo, pois superou muitos obstáculos. “Hoje vemos o quanto cada minuto dedicado foi importante. Foi muita estimulação. Quando ela era menor, era submetida a uma lista de ‘istas’ – cardiologista, oftalmologista, pneumologista, enfim, tudo que é especialidade. Hoje colhemos o que semeamos nesses anos. Durante alguns anos vivemos para ela, pensando nas necessidades dela e não nos arrependemos disso. E quando olhamos para trás, temos a sensação de que poderíamos ter feito ainda mais por ela. Sempre ouvimos muito dos médicos que a Dani se desenvolveu tão bem devido a essa atenção e estímulo. E isso é algo importante para qualquer pai, mãe. Uma criança quando amada e estimulada, cresce feliz e, futuramente, os pais poderão colher o investimento feito na infância. Além disso, a Dani é muito querida pelas pessoas. Todos gostam dela e relatam isso, pois ela tem um carisma incrível”.
Sobre a sua relação com a APODEF, Margareth conta que nunca pensou, ao aceitar o convite de Simone Webber (ex-presidente da associação), que gostaria tanto desse trabalho. “A primeira coisa que pensei foi: como vou dar conta disso entre tantas atribuições que já tenho? Naquela época estava terminando o mestrado, sou filha, diretora de escola, mãe, enfim. Mas sou assim, se for para participar é pra valer, não para ter apenas o nome constando, me envolvo mesmo e arregaço as mangas. Bem, aprendi que há tempo para tudo na vida. E até agora não perdi nada, só ganhei. Ganhei amigos, muitos! Pessoas queridas e especiais. Ganhei vivências que são imensuráveis, experiências que estão fazendo a diferença na minha vida pessoal e profissional. Sou outra pessoa. Mais humana, mais serena, me importo menos com pequenas bobagens. De repente começou a fazer parte da minha vida algumas rotinas que antes eu não me dava o direito. Voltei a fazer atividade física, pois fiquei com vergonha de ter tudo ‘perfeito’ e não fazer nada por não ter tempo. Desacelerei, pois me dou o tempo de permanecer uma semana fora do meu trabalho para acompanhar os jogos. Parar por uma semana, passar uma semana longe, numa cidade distante, seria impossível para mim em outras épocas. Nem iria considerar essa possibilidade. Hoje vejo que há muitas coisas importantes na vida, mas a prioridade é a gente que estabelece. E respeitar as diferenças já se tornou uma frase pronta, muitas vezes dita sem pensar. Para respeitar, é preciso conviver. Por isso a inserção na escola regular é tão importante. Precisa ser aprimorada, mas é fundamental. Por isso é importante passar uma semana no PARAJASC ou outros eventos. E conviver com a diferença nos torna especiais”.

Várias histórias, mesmos sentimentos
Um casal de jovens especial que se formou na competição, uma senhora que na primeira edição dos jogos disse não mais que dez palavras e que agora é uma das atletas mais comunicativas, um atleta que no meio da prova de natação para de nadar e pergunta para o árbitro qual o seu nome, foram alguns dos episódios relatados com muito bom humor pela delegação.
Frank Fred Utch, Gerente de Esportes, conta que um dos casos interessantes desta edição foi de um aluno da APAE, Silvio Tiedt, que incorporou a função de segurança da equipe. “Ele é tão carinhoso, tão especial, que queria nos proteger. Perguntava para todos que entravam no alojamento e saiam para onde iriam e o que fariam. Chegou a nos pedir um caderno e uma caneta para descrever suas atividades diárias”. Outra situação que chamou sua atenção foi o bom-humor do grupo. “Quando Charles Frank Ferhmann foi competir, faltando duas bolas de bocha, ele já estava com o título garantido. Pelo regulamento o atleta não pode desistir de arremessar. Ficamos torcendo para que ele não lançasse as bolas próximas das que havia definido a partida. Ele estava tão tranquilo e certo do que estava fazendo que chegou a encenar o arremesso, mas deixou as bolas caírem próximas a ele de propósito para ganhar a medalha. Uma situação típica para tantos atletas, mas para ele, um atleta especial, algo que nos comoveu”.
O grupo conta que um dos atletas tinha sua marca registrada e a cada ponto conquistado, desenhava em seu imaginário a marca do zorro. “São ações simples que marcam a nossa vida de uma forma que não tem explicação. É um bom dia sincero, um abraço terno. A maldade não existe no coração destas pessoas. É o meu sexto PARAJASC e tenho certeza que mudei muito como pessoa. Nas competições de atletas que não têm deficiência, no momento que a equipe perde, todos vão embora, lá não, é diferente, eles torcem por seus adversários, o importante não é ganhar e sim participar.”, complementou Frank.
Margareth Ripp Butzke ressalta que é importante as pessoas se conscientizarem em relação às deficiências físicas, que muitas vezes, não são oriundas do nascimento e sim em decorrência de fatalidades, de acidentes. “Devemos nos perguntar até quando teremos uma perna, um braço, se um dia não teremos que aprender a viver sem uma parte de nosso corpo. A pior deficiência, como sempre digo, não é a física, é aquela que está no interior das pessoas, que as fazem ser indiferentes aqueles que um dia podem ser tão próximos”.

O esporte como foco secundário
Em entrevista com a equipe técnica de profissionais da FUNPEEL, que compôs a delegação do PARAJASC, foi ressaltado que “a prática esportiva é uma forma que os portadores de limitações físicas e intelectuais dispõem para redescobrir a vida de uma forma ampla e global”.
Selvino Anderson Junior e Carlo Wachholz, ambos gerentes da FUNPEEL, participaram da delegação assessorando os atletas e demais integrantes da comitiva.
Conforme o presidente da Fundação, Arlindo Ewald, promover a integração social, levando os atletas a descobrir que é possível, apesar das limitações físicas, ter uma vida normal e saudável, é o foco principal do trabalho desenvolvido.
Frank Fred Utch, Gerente de Esportes, ressalta que “a atividade física pode transformar o dia-a-dia de um atleta especial e ainda fazer bem para a saúde do corpo e da mente. Não importa se o atleta tem como objetivo jogar profissionalmente ou de forma amadora. O importante é procurar uma modalidade esportiva que seja adequada as suas condições e limites”.

Mantendo a proximidade
A relação entre os alunos que participaram do PARAJESC e do PARAJASC foi tão intensa que despertou na APODEF o sentimento de proporcionar outros momentos de integração. Um piquenique será agendado para o próximo mês e uma série de atividades estão sendo incluídas no calendário da associação até o final do ano.
Margareth Ripp Butzke, em nome da APODEF, ressalta a importância do trabalho desenvolvido pela FUNPEEL e fundamental apoio da Prefeitura. “Sem o incentivo e apoio nada disso seria possível. O projeto só existe e é real devido a esta parceria”.
O Prefeito Paulo Pizzolatti responde aos agradecimentos dizendo que é uma obrigação e um dever da Administração “proporcionar o contato destes atletas pomerodense com um mundo verdadeiramente pluralista, onde as pessoas sabem respeitar e conviver com as diferenças sejam elas quais forem. Contudo, cabe igualmente a nós, construir uma sociedade que seja baseada nestes pilares, que respeite o próximo e ofereça a ele condições de inserção”. Complementa relatando que “as pessoas com deficiências física e mental não querem que sintamos pena ou compaixão, mas sim que as estimulemos, que ocorra a demonstração que apoiamos sua luta pela democratização das oportunidades de acesso, não só no universo esportivo, mas para que tenham uma existência digna e positiva”.

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