O trabalho é a estrada
Altemar Vitor Gadotti, 40 anos, há nove tem uma profissão comum no Brasil, mas que por muitos anos não foi reconhecida. Ser caminhoneiro para ele não é questão de sobrevivência ou de necessidade pessoal, ser um profissional da estrada é, e sempre foi seu grande sonho. Dia 25/07 é comemorado…
Altemar Vitor Gadotti, 40 anos, há nove tem uma profissão comum no Brasil, mas que por muitos anos não foi reconhecida. Ser caminhoneiro para ele não é questão de sobrevivência ou de necessidade pessoal, ser um profissional da estrada é, e sempre foi seu grande sonho.
Dia 25/07 é comemorado o dia do motorista e, o dia que não é nem feriado, nem data muito lembrada todos os anos, não passou em branco no Jornal de Pomerode, que foi até Altemar para conversar um pouco e descobrir algumas das suas muitas histórias de estrada. O motorista viaja, na maioria das vezes para o nordeste, e percorre as distâncias em vários dias. Deixa em casa, a mulher e dois filhos.
Ildo Hoeft é o gerente de tráfego da empresa onde Altemar trabalha, e esteve presente na entrevista, contribuindo para o andamento da mesma, com a visão de quem trabalha também diariamente com a vida na estrada. Segundo ele, sua vida é 24h a estrada, porque mesmo ele estando em casa, fica com a cabeça nos motoristas que estão rodando o Brasil.
JP. De onde surgiu essa paixão por dirigir?
Altemar. É um sonho desde pequeno, um desejo trabalhar com caminhão, mecânica. Até tentei trabalhar em outros lugares, fiz cursos, sou formado, mas a paixão me leva pegar a estrada. Nela eu me sinto livre, tenho a sensação de liberdade!
JP. O que te motiva permanecer tanto tempo longe?
Altemar. É a família. Apesar de não estar com ela o tempo todo, são por eles que estou trabalhando. Enquanto eu tiver um trabalho que me proporcione tranquilidade de saber que eles estão em casa bem, eu vou continuar.
JP. Como você mata a saudade da família?
Altemar. Até eu que nem era tão ligado a minha, fico na angústia. Eu amo o transporte, gosto do que faço, tenho o desejo de fazer isso sempre, mas o que mata é a saudade deles, e pra resolver só o celular. Tenho fotos deles no caminhão, mas abro o celular pra vê-los também, e sem ele eu acho que não aguentaria.
Ildo. Tem inclusive motoristas que já andam com computador no caminhão para conversar com as famílias.
JP. Qual foi o lugar mais longe? E o mais bonito?
Altemar. O mais longe foi Fortaleza, e o mais bonito eu achei João Pessoa, as praias lá são lindas. Mas todo o litoral brasileiro é lindo, pra quem já viu como eu, não esquece nunca.
JP. Qual a parte mais difícil de ser motorista?
Altemar. É o medo do assalto.
JP. E esse medo, fica onde?
Altemar. A gente tem medo da reação do bandido com o motorista. Eu esses dias fui assaltado, e os bandidos não me fizeram nada, me trataram normalmente. Na hora não caiu a ficha, mas a gente teve muito medo. Eles não fizeram nada, só roubaram a carga, mas eram ladrões especializados, nós temos medo de outro tipo de ladrão, aqueles que querem roubar apenas o motorista, porque pra eles não importa nada, e não custa nada acertar a gente.
Ildo. Existem dois tipos de bandido. Esse último é o especializado em carga, para ele, é melhor não fazer mal ao motorista já que ele não quer chamar a atenção, ele só quer a carga. Já o assaltante de motorista não conta até dez e acerta a bala neles, e esse é o pior tipo, o bandido que assalta o motorista.
JP. Tem noção de quantos km já percorreu?
Altemar. Foram tantos, não da pra contabilizar.
Ildo. Eles percorrem normalmente sete mil km por viagem, tem motorista que chega a fazer 15 a 20 mil km por mês, mas cada um faz de uma viagem e meia a duas por mês.
JP. Você trocaria essa vida na estrada por qualquer outra?
Altemar. Não, eu amo a estrada, eu amo dirigir. Enquanto minha família me apoiar, eu vou continuar nessa vida.
JP. Existe um perfil do novo motorista?
Ildo. Existe um manual do que pode e não pode fazer. Acabou aquela coisa de que motorista de carga é sujo, anda mal vestido. Hoje em dia eles têm tecnologia, usam celular, computador, coisa que não tinha antes. Eles só param em postos autorizados, tem mecânicos a disposição, se apresentam bem aos clientes, estão sempre limpos. Mas tipo físico não existe, é uma verdadeira salada!
Perguntados ainda sobre os vários perigos da estrada, ambos nos contaram dos medicamentos para ficar mais tempo acordado, como rebite, que 90% dos motoristas utilizam. Segundo os entrevistados, é difícil conseguir entregar a mercadoria no tempo que o cliente pede, e para conseguir atender aos prazos, só com auxílio de medicamentos.
Altemir retornou a Pomerode, depois da sua última viagem na sexta-feira, 23/07. Nessa mesma semana ele já embarcou para a próxima, que começou na quarta-feira, 28/07, e ainda deve durar um bom tempo pelas rodovias brasileiras.