BOICOTE
É justo uma cidade inteira pagar por fatos isolados?
“Trabalhei oito anos na Secretaria de Turismo, me empenhando, junto a minha equipe, para elevar o nome da cidade que tanto amo, para que? De uma hora para outra estão sujando à nossa honra, manchando a nossa história, ferindo a nossa moral”. Com os olhos lacrimejados, foi com esta frase que a vice-prefeita, Gladys Siewerdt, recepcionou os empresários que foram convocados para participar de uma reunião organizada a pressas, na Prefeitura, juntamente com representantes de entidades municipais, na manhã de terça-feira (20/04).
O encontro foi agendado pelo Prefeito Paulo Pizzolatti com o objetivo de reverter à imagem negativa vinculada ao município de Pomerode, após matérias sensacionalistas e tendenciosas terem sido publicadas em jornais de circulação regional e pela mídia televisiva e radiofônica de Santa Catarina, bem como, de outros estados brasileiros. O conteúdo destas matérias versava entre a puxada de cavalos realizada no último domingo em Pomerode, as agressões registradas por ambas as partes, manifestantes e organizadores, e entre um possível boicote a Pomerode.
As páginas centrais do Jornal de Santa Catarina, espaço publicitário mais cobiçado em um veículo de comunicação impresso, de alto valor mercadológico, foram preenchidas com palavras de desrespeito, com depoimentos de pessoas que sem refletir, expuseram sua opinião para milhares de leitores, intitulando o povo pomerodense, que aqui nasceu ou que adotou a cidade como sua, de bárbaros, covardes, burgueses, suicidas, retrógados, entre outras palavras de significado pejorativo, que certamente ferem mais do que arranhões e empurrões.
Vivemos em uma sociedade regida por uma Constituição Federal que nos garante o direito da liberdade de expressão, de divergir de opinião. Ser contra ou a favor da puxada é um posicionamento pessoal, cada pessoa, norteada por seus princípios e valores, tem direito a escolher o que julga ser certo ou errado.
Muito espaço foi destinado durante anos a esta e outras discussões, cabendo a decisão final aos magistrados. Permitir, autorizar, deixar acontecer, não são, neste caso especificos, atribuição do Poder Executivo ou Legislativo. É ao Ministério Público que cabe tal decisão, tendo como base as Leis que regem nosso Estado Democrático de Direito.
Em vários pronunciamentos, anteriores e posteriores ao fato, a Prefeitura se manifestou declarando que a puxada é um evento organizado por um grupo privado, na sua maioria composto por agricultores. Ao contrário do divulgado, Pomerode não oficializou o evento. O calendário de eventos não é um documento Oficial da Prefeitura de Pomerode, pois o mesmo é organizado pelas entidades do município para evitar sobreposição de datas.
O comportamento da Administração tem sido de respeito às Leis, e a decisão do Ministério Público e da Justiça, que estabeleceu um Termo Circunstanciado que determina normas para a realização do evento em Pomerode. “Ressalto o comprometimento na defesa ao meio ambiente, na proteção aos recursos hídricos e na defesa aos animais, que tanto o Ministério Público e a Justiça têm demonstrado em suas decisões, e de nossa Administração, que tem tratado as questões ambientais com muita responsabilidade. Lembro ainda que a autorização do evento não é uma prerrogativa da Prefeitura”, explicou o prefeito Paulo Pizzolatti.
A história de Pomerode sempre foi marcada por personagens que deram seu sangue e suor para que o município atingisse o grau de desenvolvimento dos dias de hoje. O povo pomerodense é citado como exemplo em diversas áreas, entre elas, a educação, cultura, economia. Atraímos milhares de turistas anualmente por nossos vales e montanhas, por nossos rios, por nosso zoológico que tão bem recebe seus animais, por nossos museus e teatro, pela gastronomia ímpar e sim, pela educação e carisma de nossa gente.
Quando Pomerode era apenas mata, quando aqui nada havia se edificado, nossos bravos antepassados imigrantes, juntamente de seus animais, entre eles os cavalos, abriram picadas a fora, para aos poucos, fazer desta terra, indiscutivelmente, um dos melhores locais do mundo para se viver.
A redação do Jornal de Pomerode recebeu nos últimos cinco dias mais de 100 e-mails e correspondências, de pomerodenses e de pessoas dos quatro cantos do país, se manifestando contra ou a favor da puxada. Publicar todos eles seria inviável, seria dar espaço para uma discussão onde todos estão certos, e ao mesmo tempo, todos estão errados. Redundância? Utopia? É possível avaliar? Como já divagava um grande filósofo da literatura internacional, em outras palavras, existe a minha verdade, a sua verdade e a verdade verdadeira.
Por unanimidade entre os membros da equipe Jornal de Pomerode, composta por pessoas de diferentes etnias, crenças e valores, que em comum tem a paixão pela comunicação e pelo município de Pomerode, carregado até mesmo em sua razão social, foi selecionado o e-mail da leitora Divaine Laís, cujo conteúdo segue na íntegra: “Obviamente o episódio ocorrido foi lamentável. Porém, seria isso motivo suficiente para julgar uma cidade inteira? Um Estado inteiro? Esse tipo de situação não deveria acontecer, mas acontece! E não é por isso que devemos divulgar por aí, "fazendo de conta" que essa é a única coisa que acontece em Pomerode. Muito fácil julgar nossa cidade desse jeito. Até antes disso, Pomerode era nacionalmente conhecida, pelo lindo zoo que temos, pelas belas matas que nos cercam, pela educação de nossas escolas e pela cultura germânica sempre presente. O povo de Pomerode não merece ser crucificado pelo que ocorreu. Culpem àqueles que agrediram, que machucaram e que se fazem donos da verdade. Se for para julgar uma cidade inteira por um fato ocorrido, então me avisem onde vocês todos moram, pois eu vou pra lá. Já que lá, ninguém nunca fez nada errado! Não estou defendendo o que essas pessoas fizeram, pois sou totalmente contra violência aos animais. Porém, não admito que a minha cidade, que tanto amo, seja punida por isso! E respondendo ao comentário de alguns: viver em SC não é nada difícil! Em Pomerode, menos ainda! Para falar a verdade, não trocaria por nenhum outro lugar nesse mundo!”.
Condenar uma cidade, seus moradores, cultura e riquezas por um único episódio, por uma única atividade isolada, é massacre, e isso a população de Pomerode não deve e nem pode permitir. É justo condenar um país inteiro como a Espanha por suas touradas? É justo fazer campanha para que ninguém mais visite o Rio de Janeiro por seus arrastões, por atos de vandalismo como a pichação feita recentemente no Cristo Redentor? É justo boicotar Blumenau e sua gente pelo acontecido no último Stammtisch, quando um grupo de pessoas alcoolizadas acabou provocando uma briga de grandes proporções? É coerente deixar de ir a Jaraguá, pois foi registrada recentemente uma fuga de presos? Manifestações devem existir, mas não ao ponto de denegrir a imagem de uma cidade e de seu povo.
A imprudência das publicações que divulgaram negativamente o nome de Pomerode foi tão séria, que abriram espaço para dizer que puxadas aqui são realizadas para que o povo pomerodense não fique entediado e se enforque. Quantos munícipes sentiram-se ofendidos, quantas pessoas baixaram suas cabeças, quantas foram vítimas de chacota?
A mídia se voltou para a cidade mais alemã do Brasil, deixando no ar a pergunta, quem é a maior vítima nesta história? O cavalo? As pessoas, de ambos os lados, organizadores e manifestantes, que saíram feridas no último domingo? A população de Pomerode como um todo?
Estádios de futebol registram diariamente brigas absurdas entre torcidas que resultam na morte de envolvidos e vítimas, que estavam no local apenas buscando distração, torcendo por seus times. O que aconteceu é semelhante, porém, manchou a história de uma cidade inteira.
Os agressores e agredidos irão responder judicialmente. A coerência está fugindo das mãos de muitos. A reunião citada anteriormente foi recheada por vários depoimentos interessantes de nossos representantes municipais, da sociedade organizada. Indiferentemente da classe, unanimes foram dois fatos. O primeiro deles, que um trabalho conjunto deverá ser feito por todos os pomerodenses para que o nome da cidade seja limpo. O segundo, que cabe a todos os cidadãos desta tão amada terra, erguer suas cabeças, estufar o peito, e dizer aos quatro cantos: “Sou pomerodense sim, com muito orgulho. Amo minha terra e venero a história de meu povo, de meus antepassados. Foi-se o tempo da Inquisição, onde bruxas eram queimadas na fogueira. Que a Justiça puna os responsáveis, que a Justiça seja feita. Mas que não, em momento algum, permitamos um boicote ao nosso povo, um boicote ao que produzimos com carinho e dedicação, características de cidadãos ímpares e ordeiros que somos”.