PARAJASC: uma competição onde todos saem vencedores
Feche os olhos. Pense em um mundo onde todas as pessoas são iguais. Visualize este lugar irradiado por harmonia, por luz, por cumplicidade, por solidariedade e compreensão. Neste local não existem grandes problemas e sim, imensa força de vontade de superá-los. É um mundo repleto por corajosos, vencedores, por pessoas…
Feche os olhos. Pense em um mundo onde todas as pessoas são iguais. Visualize este lugar irradiado por harmonia, por luz, por cumplicidade, por solidariedade e compreensão. Neste local não existem grandes problemas e sim, imensa força de vontade de superá-los. É um mundo repleto por corajosos, vencedores, por pessoas únicas e por isso, especiais. Imaginou? Pelo menos tentou visualizá-lo? Você acha que é utopia e que não existe um local assim? Engana-se, ele existe, dentro de cada um de nós, ou pelo menos deveria existir.
Para alguns se encontra em um cantinho escondido de nossos corações, de nossas essências. Está lá, encoberto pelo preconceito e pela ignorância. Destape-o, deixe-o aparecer, abra a sua mente e absorva a experiência que será relatada aqui, na sequência desta reportagem.
Um grupo de pomerodense composto por atletas com limitações físicas e intelectuais, acompanhado por uma delegação formada por profissionais habilitados em suas respectivas áreas e por integrantes da Fundação Promotora de Eventos, Esporte e Lazer (FUNPEEL), participou de duas competições muito importantes para o município em dois sentidos, social e esportivo. De 26/04 a 01/05 aconteceu o PARAJESC e de 01 a 07 deste mês, o PARAJASC, ambas as competições na mesma cidade, São Miguel do Oeste, onde nossos talentos pomerodense vivenciaram tudo o que está descrito no primeiro parágrafo desta matéria.
Conviver com estas pessoas especiais, conhecer suas histórias de vida, o amor de suas famílias, a copreensão daqueles que as cercam, a energia que emana de seus sorrisos, não deveria ser uma oportunidade e sim um objetivo de vida. Grande parte das pessoas que desconhecem o universo da deficiência, quando se depara com casos como o de Charles, Dani, Valdir, Alex, Ilsanora e tantos outros personagens desta história, acaba pensando: “Como sou injusto. Tenho dois braços, duas pernas, enfim, nenhuma deficiência física, nem intelectual, e reclamo da vida, sou infeliz. Eles (os especiais, os diferentes), mesmo com todos estes problemas são felizes, não reclamam da vida, se superam diariamente”. Outros pensam: “Como é fácil ser feliz”.
São tantas as histórias, tantos relatos marcantes e comoventes, mas ao mesmo tempo insuficientes para demonstrar através de palavras o que a convivência nestas duas competições significou para estas pessoas. Frank Fred Utch, Gerente de Esportes da Funpeel, diz que uma das situações que mais o deixou emocionado foi quando Valdir Hackbarth, que compete na modalidade “atletismo deficientes intelectuais”, disse, três dias após a competição de 2010, que já estava começando a arrumar sua mala para o PARAJASC deste ano, reflexo do quão importante foi para ele participar de tal evento.
“É preciso ter corações. Não basta um só”
Vilmar de Ramos, presidente da APODEF (Associação Pomerodense de Deficientes Físicos) e atleta da modalidade “bocha deficientes físicos andantes”, participou pela segunda vez da competição. Disse que embora já tivesse escutado de vários colegas que a experiência era maravilhosa, só constatou na prática o quanto estar entre iguais a ele durante tantos dias, movido pelo mesmo objetivo, significaria em sua vida. “Percebi que temos que ter corações e não coração nesta competição. Lá é o nosso mundo, não vimos tristeza, ninguém fala mal do outro. Formamos em uma semana uma família. A cena que mais me marcou foi ver o colega Laércio Volkmann – Medalha de bronze na prova de lançamento do dardo e medalha de bronze na prova arremesso de peso, sendo premiado. Ver a alegria dele ter conseguido, de ter se superado, não tem preço”.
O presidente da APODEF teve uma de suas pernas amputadas em decorrência de um acidente de moto há dois anos. Antes disso, Vilmar conta que sua vida era bem diferente, que não se envolvia com esportes e nem mesmo com nenhum trabalho voluntário, de cunho social. “Precisei perder algo para dar valor ao resto. Digo para as pessoas que a minha vida é muito melhor agora do que antes. Quando tinha minhas duas pernas reclamava de qualquer unha encravada. Hoje não reclamo mais, se tenho alguma dificuldade, luto até conseguir superá-la”.
Após iniciar uma série de sessões de fisioterapia, resolveu participar da APODEF e foi na entidade que teve seu primeiro contato com a Professora Ilsani Baptista, responsável pelos treinamentos em Pomerode. “Comecei em uma modalidade e não deu certo. Depois fui para a bocha e me adaptei. Gostaria de pedir para as pessoas acordarem, aqueles que como eu tem uma deficiência. Não podemos ficar trancados em casa, temos que viver.Tenho um amigo que é amputado como eu que chegou a pensar em se matar. Neste caso, uma palavra de consolo, de incentivo, foi suficiente para ele retomar sua vida. Temos que aceitar o que acontece conosco. Pego a minha muleta e vivo minha vida. Não dependo dos outros, olho para frente e sigo. Faço coisas hoje que não fazia quando tinha duas pernas. Hoje agradeço a Deus tudo o que aconteceu comigo pois me transformei em uma pessoa melhor”.
Amizades verdadeiras que superam as diferenças
Lisbete Marina Belzer Rosa, tesoureira da APODEF, mãe do jovem de 18 anos, Alex, conta que seu filho participou neste ano do PARAJESC nas modalidades de lançamento de peso e pelota e que o maior ganho para ele foi no que diz respeito a valorização pessoal e a autoestima. “No primeiro ano ele não conseguiu nenhuma medalha, mas mesmo assim adorou participar. Acompanho o Alex por ele ser surdo, acabo servindo como intérprete para ele. Além desta deficiência ele não tem o braço direito e tem déficit de aprendizagem. Lá, acabou vendo que existem várias pessoas como ele. Que todos competem da mesma maneira. No PARAJESC não tem essa questão de coitadinho, todos estão juntos em prol do mesmo objetivo e isso é extremamente positivo”.
Enquanto relatava a experiência vivenciada por ela e seu filho, Lisbete mostrava-se orgulhosa de cada avanço, de cada conquista, como por exemplo, os momentos de distração e lazer que Alex desfrutou ao lado dos vários amigos que ele fez, alguns com limitações físicas e intelectuais como ele e outros não. “Nunca vi ele brincar tanto quanto lá. Nunca vi ele vibrar tanto quanto na competição do Bocha deficientes físicos, paralisado cerebral, quando seu amigo, Charles Frank Ferhmann (Medalha de ouro na disputa individual da categoria BC1), ficou campeão. E tem outras relações de amizades, como no caso do Frank, que ele acabou adotando, que não tem explicação. Pessoas tão diferentes e que conseguem estabelecer laços afetivos tão intensos”.
Como mãe Lisbete diz que aprendeu a ser mais firme, de ver seu filho como uma pessoa igual as demais. “Aprendi a deixar ele mais solto, mais independente. Espero estar ensinando as outras pessoas que não devemos desistir. Dificuldade existe em tudo que é lugar. A maior deficiência está em nossas cabeças. Diferente do que é para a maioria das mães, que se depara com a deficiência de seus filhos, eu escolhi ser mãe de um menino especial. Não fazia ideia do que enfrentaria pela frente, tinha a experiência profissional de trabalhar com estas pessoas, mas ser mãe é bem diferente. Meu esposo chegava em casa e me via chorando, por não saber como lidar com determinadas situações. Ele me questionava, dizia que eu já sabia como seria, mas na prática era bem diferente, bem mais difícil do que eu imaginava. Olhando para o passado vejo que foi uma caminhada fantástica. Sempre fui uma pessoa muito tímida, muito envergonhada, e com o Alex acabei superando esta timidez”.