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Funcionários públicos com orgulho

O ofício de servidor público muitas vezes é mau visto pela sociedade, mas aqueles que durante décadas se dedicaram a função sabem que fizeram de tudo e deram seu melhor enquanto estiveram exercendo o ofício público. São justamente personagens como os dois que iremos apresentar para celebrar o dia do…

16 de junho de 2011

O ofício de servidor público muitas vezes é mau visto pela sociedade, mas aqueles que durante décadas se dedicaram a função sabem que fizeram de tudo e deram seu melhor enquanto estiveram exercendo o ofício público. São justamente personagens como os dois que iremos apresentar para celebrar o dia do Funcionário Público Aposentado, comemorado no dia 17 de junho, que devem servir de exemplo para todo cidadão que presta um concurso e ingressa nesta carreira.
Exemplos de paixão pelo ofício e comprometimento com suas funções, que atravessaram décadas e superaram as mudanças temporais e por isso merecem todas as homenagens nesta data. Casos como o de Christian Frahm, que do alto de seus 82 anos, curte o descanso em sua casa no Testo Alto, mesma comunidade que se beneficiou com a dedicação desse mestre da educação.
Sim! Mestre, com M maiúsculo. Não de canudo na mão e cheio de pompa, mas de sabedoria que formou muitos cidadãos de bem de Pomerode.
Um dos mais antigos, aposentados do município, Christian começou no ofício de professor das séries iniciais, quando Pomerode ainda pertencia a Blumenau e a partir daí foram 32 anos de trabalhos.
Hoje cuida da roça em sua casa e reclama das dores no joelho, mas não tira da memória os sacrifícios que fazia para dar conta do trabalho. “Íamos debaixo de chuva e com água até o joelho dar aulas e ficávamos o dia inteiro encharcados. Sem contar que não éramos somente professores. Dividíamos nosso tempo com funções da secretaria e até merenda já tive que fazer”, revela o ex-professor.
Saudades ele sente, tanto que quando se aposentou em 1981 continuou ministrando aulas na igreja. “Não ficava satisfeito estando longe dos alunos”, declarou. Porém, como está a educação atualmente no Brasil, o octogenário preferiria não ter que encarar novamente a função. “Antigamente os alunos ajudavam os professores e acima de tudo nos respeitavam. Hoje eles botam a escola abaixo”, lamenta. O respeito e educação que o aposentado se refere são valores que tem até hoje. “Atualmente não tem mais disso, mas no meu tempo tirávamos o chapéu como reverência às pessoas. Até os alunos faziam isso. Eu continuo tirando para todas as minhas visitas”, declara.
Visitas essas que Christian recebe a cada aniversário. São ex-alunos que não perderam a admiração pelo mestre e sempre enfeitam a casa e trazem as felicitações ao ex-professor.

Outros tempos
Christian começou em 1949 na Escola Doutor Amadeu da Luz e depois foi para a Bonifácio Cunha, onde lecionou de 1957 a 1981. Lá trabalhou com o professor Rodolfo Hornburg, que foi seu mestre antes de fazer o curso que o habilitou para lecionar. Eram tempos mais difíceis, onde os alunos pouco sabiam o português e isso dificultava aprendizado. Sem contar que o sistema de avaliação era bem diferente. “Naquela época o exame era feito uma vez no final do ano e era aplicado pelos inspetores, municipal e estadual. Lembro que da minha turma de 69 alunos, 70% tiveram aprovação e seguiram adiante”, fala orgulhoso o ex-professor citando a felicidade dos alunos com aquele feito.

Reconhecimento
Christian Frahm não vai mais a escola que lecionou, mas se orgulha de ter deixado uma semente lá. Não falamos da única filha de Christian e sim da atual diretora, Marilise Behling, que hoje é responsável pela gestão do educandário. “Fico muito satisfeito quando vejo meus ex-alunos hoje com famílias formadas e tendo sucesso. Os que eram bem comportados trilharam esse caminho que me deixa orgulhoso, com o caso da Marilise”, confessa.

Opinião formada
Trajetória parecida com a de Christian tem o também aposentado do município, Gehard Ehlert, 84 anos. Com quase 47 anos de labuta no magistério, ele se aposentou em 1992 após ter passado por algumas escolas da cidade. Apreciador de um bom “papo”, não deixou passar nenhum detalhe de sua história e dos momentos vividos dentro de sala de aula.
Forte em seus posicionamentos lamenta que algumas coisas tenham mudado para pior, pelo menos a seu modo de ver o ofício de funcionário público.
E é justamente sobre as exigências atuais para se tornar um servidor público que Ehlert é incisivo em suas críticas. “Não concordo com essa história de concurso público, como manda a Constituição. No meu tempo tínhamos amor e dedicação ao que fazíamos. Hoje o professor até se esforça para conseguir entrar para a carreira pública, mas muitos se acomodam depois que estão nela. Sei que muitos têm competência, mas a estabilidade às vezes os acomoda e isso prejudica o bem maior, que são os alunos”, critica o ex-professor.
Mesma opinião contrária, Ehlert tem com a questão do nepotismo e para isso ele contou uma longa história de quando sua esposa, Edle, entrou para o magistério e tornou-se sua assistente em sala de aula. “Tinha três turma para cuidar em um dos turnos e não estava mais dando conta, por isso pedi um auxiliar e recebi o apoio da comunidade, que indicou a minha esposa para o cargo. Para que ela pudesse assumir a função foi exigido comprovações por meio de exames de aptidão e qualificação, bem acima do normal. Até o prefeito disse, depois, que nem ele faria melhor. Somente depois disso ela pode se tornar minha assistente”, declarou defendendo que a competência tem que ser levada em consideração acima de qualquer coisa.

Tempos difíceis
Se hoje o salário de professor é digno de piadas, tamanha desvalorização que a classe recebe, naqueles tempos pode-se dizer que era ainda pior. “Ganhávamos 50 mil Réis, uma miséria. Éramos obrigados a ter outro ofício para sobreviver e sustentar a família. No meu caso trabalhava na lavoura”, recorda.
Porém, o filho de professor sabia que tinha vocação para lecionar e seguiu adiante mesmo com tantas dificuldades.
Ensinou seus filhos e muitos moradores das comunidades que passou e até hoje é conhecido na rua como professor.
Tratava a todos de igual para igual. “Nem mesmo meus filhos tinham regalias. Em casa era pai, na sala de aula professor como para todos os outros”, destaca.
Essa postura lhe rendeu apoio e gratidão de muitos pais de alunos, quando Ehlert precisou de ajuda para o tratamento de seu filho que faleceu de câncer. “A comunidade me apoiava, assim como as autoridades municipais que chegaram até me oferecer transporte para ir acompanhar em Curitiba o tratamento do meu filho”, declarou.
São essas ações que faziam o ex-professor superar as adversidades, mas hoje ele acredita que está tudo muito diferente. “Se fosse para ser professor hoje eu negaria. Os alunos nos respeitavam e nós recebíamos apoio das autoridades. Hoje somos tratados pior que cachorro de caça”, reclama.

Homenagem
No domingo, 12 de junho, Gehard Ehlert participou da solenidade em comemoração aos 25 anos da Escola de Educação Básica Almirante Barroso, na qual lecionou e foi um dos primeiros professores. Lá ficou extremamente feliz ao se deparar com ex-alunos, entre eles Ademiro Volkmann, que segundo Ehlert palestrou para os presentes. “Lutamos 12 anos para conseguir a escola básica. Ela era promessa de muitos políticos. Na comemoração dos 25 anos tínhamos lá os alunos da primeira turma de 5ª série, de 1986, entre eles o Ademiro. Fiquei admirado ao saber que ele concluiu sua faculdade e está muito bem, assim como outros tantos”, enalteceu.

Vocação
Ehlert garante que seguiu na carreira por vocação e talvez por isso, seja difícil falar qual disciplina mais gostava de ensinar. “É mais fácil perguntar o que eu não gostava”. Dada a sugestão, seguiu a pergunta: “O que o senhor não gostava?”, foi questionado. Resposta na ponta da língua: “desenho e cartografia. Nunca gostei, nem quando era aluno”, revelou o ex-professor que diz que nunca foi durão e sempre teve respeito pelos seus alunos “sempre fui um amigão das crianças”, concluiu.

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