Um mês depois da enchente
Como Pomerode reagiu a maior enchente de sua história e como esquecer tudo para voltar à normalidade
Prejuízos, medo e lamento são algumas das heranças que ficaram após um mês da fatídica enchente que atingiu Pomerode no dia 10 de março. Somente quem viveu aqueles momentos pode dizer exatamente o que sentiu e o quanto estrago as águas das chuvas causaram em suas vidas.
Destruição que levará tempo para ser esquecida e também recuperada e mesmo demonstrando toda força, o povo da cidade sabe que ainda há muito a ser feito para que a normalidade volte em sua plenitude.
Em algumas ruas, os vestígios da enchente estão mais claros. É possível ver os móveis estragados nas calçadas e casas vazias, como na Rua João Vieira de Campos na área central do município.
Na Associação Comercial e Empresarial de Pomerode (ACIP), os estragos destruíram parte da história da entidade e principalmente uma infinidade de documentos. No mês seguinte ao acontecido, muito ainda está sendo feito para tentar recuperar os dados que estavam nos computadores destruídos pela chuva. Segundo a secretária, Schirlei Maske, o atendimento aos associados está normal, entretanto a recuperação de dados e documentos deve levar um tempo maior que o esperado. “Conseguimos recuperar algumas coisas que estavam em um back-up em Florianópolis, mas sempre iremos descobrir algo que ainda tá faltando”, conta a secretária, que lembrou que ainda não contabilizou os prejuízos porque nem tudo que foi perdido foi readquirido, principalmente quando o assunto é equipamentos eletrônicos.
Falando em valores do prejuízo, o comerciante proprietário da loja de esportes Ewald Sports, Everson Ewald, sabe muito bem o quanto custou no seu bolso os estragos causados pela enchente. “Tive R$ 30 mil de prejuízo e precisei colocar alguns dos meus produtos para serem vendidos abaixo do preço de custo. Isso para minimizar as perdas”, conta Everson, que complementa falando do cheiro de mofo que ainda paira no ar, mesmo após muitas limpezas no local.
A área central foi a mais atingida e surpreendeu porque era uma região imune a esse tipo de ação climática, mas a tempestade de duas horas castigou também os bairros Testo Rega e Wunderwald.
Poder público busca recursos
Um mês após a enchente o poder público municipal vem buscando recursos junto ao Governo Federal para concluir os reparos necessários, principalmente no que diz respeito à recuperação das cabeceiras das pontes. Segundo o Secretário de Governo, Valmor Kamchen, esta semana representantes do município estiveram em Brasília buscando recursos para aquisição de equipamentos para a Defesa Civil. Além disso, recursos para a recuperação de calçamento, pavimentação asfáltica que foram afetados também estão sendo pleiteados.
Procedimentos revistos
Algumas mudanças foram feitas e outras estão por vir, para que o Corpo de Bombeiros Voluntários de Pomerode não seja novamente surpreendido, como foi há um mês durante a enchente. A certeza é que nenhum dos membros da corporação irá esquecer aquele fatídico dia.
Uma das medidas tomadas depois da tragédia foi deixar o mínimo de equipamentos no andar térreo da corporação, para que caso as águas da chuva voltem a invadir o local, os estragos sejam minimizados.
O comando e a central de atendimento também mudaram de lugar e estão seguros no andar de cima.
Porém, a principal mudança após esses acontecimentos foi estabelecer um plano de ação para que não fiquem “ilhados” e impossibilitados de dar respostas rápidas à comunidade. Conforme explicou o comandante da corporação, Vilmar Volkmann, caso ocorra novamente, as viaturas seriam retiradas da corporação e levadas para locais estratégicos, em pontos distintos da cidade, possibilitando o deslocamento e o atendimento às vítimas. “Primeiro tivemos o trabalho de limpar tudo e promover as mudanças internas. O segundo passo será quando identificado o risco eminente disso se repetir, nós posicionaremos a viaturas no Centro e no Texto Rega, de modo que seja possível nosso deslocamento de maneira mais rápida e eficaz”, comentou o comandante.
Outra prerrogativa que está nas orientações que o bombeiro voluntário recebe em seu treinamento é de estar sempre de prontidão para prestar socorro, mesmo que o mesmo não esteja no exercício da função. “Temos que ter bombeiros preparados em todos os cantos do município”, disse Vilmar, que completou: “Vamos iniciar o curso no dia 30 de abril, já que ele teve seu início suspenso por causa dos incidentes”, disse Vilmar.
Não sai da memória
Ela garante que em seus 83 anos de vida nunca viu nada igual e também não esquecerá o que viveu. Esse é o sentimento da aposentada, Bridgida Nava, enquanto mostrava o que sobrou dos móveis que tinha na sua residência na Rua São Joaquim, no Centro, antes da enchente.
Ela saiu pela janela, resgatada pelos os bombeiros, mas teve receio de não conseguir escapar das águas que tomaram sua casa. Hoje na garagem há sofá que está secando no local e foi um dos poucos móveis que resistiram. E realmente é visível que suas roupas e pertences estão espalhados sobre os móveis que não foram destruídos e algumas estantes improvisadas.
Marcas que não se apagam
Não são somente as marcas nas paredes deixadas pela água e os documentos destruídos que mostram os estragos que as chuvas fizeram na estrutura do Corpo de Bombeiros. Na lembrança eles carregam a dúvida que pairou no ar na hora que ficaram ilhados. “Não sabíamos o que fazer. O telefone não parava de tocar, mas não tínhamos como sair. O máximo que conseguimos fazer foi contar com um caminhão que estava combatendo um incêndio. Essa equipe que atendeu dentro do possível”, disse Thomas Eduardo Buse, bombeiro voluntário.
Mas Thomas garante que o aprendizado diante deste acontecimento, lhe servirá como lição. A mesma aprendida pelo subcomandante, Ricardo Akira Shoji, que garante que em uma repetição dos acontecimentos, os membros da corporação, que estiverem em suas casas, novamente serão fundamentais para se priorizar um tempo de resposta.
Porém, o maior prejuízo que a enchente deixou, trata-se de um a coisa muito importante para a comunidade, que é uma das ambulâncias de atendimento. Ela foi totalmente danificada pelas chuvas e o seguro deu como perda total. Agora o pedido já foi feito à prefeitura, para que uma nova seja adquirida para dar suporte ao trabalho. “Se houver dois chamados ao mesmo tempo, iremos ter que dar prioridade ao primeiro chamado. Precisamos da compreensão de todos, pois 97% dos nossos chamados requerem a ambulância”, disse o comandante Vilmar.
Grande lição
Quando lembra o que leu sobre a enchente de março, que dizia que 85% da cidade tinha sido atingida, o dentista Renato Klug, fez a seguinte pergunta: quem está seguro?
Muito afetado pela tragédia o dentista estranhou o acontecimento e se mostra preocupado com os motivos que levaram a cidade a ficar vulnerável às forças das águas do Rio do Testo. Para ele, que mora há 37 anos na cidade, apesar do esforço de todos e da solidariedade, que aflorou no povo de Pomerode, só daqui a dez anos veremos uma recuperação completa. “Empresas e residências atingidas levarão muito tempo para se reerguerem. Sem contar o lado emocional que também é afetado”, explicou o dentista.
Para Renato, a única saída é estudar esse fenômeno de forma especializada de modo que caso isso venha acontecer os efeitos sejam minimizados.
Porém, Renato não acredita que isso acontecerá novamente e tirou uma grande lição disso tudo, que com certeza amenizará qualquer perda futura. “Quanto maior o apego às coisas, maior o sofrimento”, afirma o dentista.