30 anos de uma tragédia
Quem vivenciou aqueles momentos, nunca mais os esquecerá. A enchente que acometeu Blumenau, no ano de 1983, teve uma duração de 32 dias.
Quem vivenciou aqueles momentos, nunca mais os esquecerá. A enchente que acometeu Blumenau, no ano de 1983, teve uma duração de 32 dias, do dia 05 de julho até 05 de agosto, com o nível do Rio Itajaí-Açu atingindo sua marca maior no dia 09 de julho, com 15,34 metros. Segundo o Cientista Social e Pesquisador da História, Adalberto Day, criou-se daí em diante, um estigma de cidade das enchentes. Mas o tempo passou, e nem sempre a primeira impressão é a verdadeira. Hoje somos uma cidade alegre, com festas populares, turismos, e a nossa Oktoberfest criada em 1984 para levantar o ânimo dos blumenauenses. Povo ordeiro e trabalhador nunca se deixou abater pelas intempéries, que impiedosamente castigaram os blumenauenses. Mas a marca daqueles dias de julho de 1983 está na memória de muitas pessoas, inclusive de pomerodenses, que tiveram participação ativa naquele episódio.
Como foi a cidade mais atingida, Blumenau dependeu de cidades vizinhas para a sua recuperação. E Pomerode não ficou de fora, auxiliando aqueles que mais precisavam, neste momento difícil da história do Vale do Itajaí.
Relatos lembram que o pátio da Paróquia São Ludgero serviu como base para o pouso e decolagem dos helicópteros do Exército Brasileiro, que faziam o transporte de mantimentos e pessoas, já que por terra era praticamente impossível. Uma das testemunhas, o comerciante Sílvio Schroeder, conta uma passagem que, apesar de inusitada, marcou bastante. A força do vento do helicóptero era tamanha que uma das portas dos fundos do hotel da nossa família, que era de madeira, foi arrancada. Além disso, eu e mais alguns amigos, pudemos ajudar em serviços voluntários, como encher garrafas de água e preparar sanduíches, que eram enviados a Blumenau. Inclusive, na época, o então Secretário de Turismo, o saudoso Francisco Canola Teixeira solicitou que um carro de som percorresse as ruas de Pomerode, solicitando ajuda ao povo blumenauense, relata.
Outro que vivenciou na pele esses momentos foi Naldi Roloff que, na época, trabalhava na Hass Calçados. Ele conta que as águas subiram muito rápido e que se não fosse pela agilidade dele e de outros parceiros, como José Corrêa, a loja em Blumenau teria todos os seus móveis e utensílios perdidos. Estávamos jogando bola no Floresta quando soubemos da enchente. Neste momento, foi solicitado que nos deslocássemos até lá para tentar salvar as coisas da loja, localizada na Rua XV de Novembro. Em um primeiro momento, tivemos que tirá-las do térreo e colocá-las no primeiro andar. Só que isso não foi suficiente, pois as águas subiam muito rápido e tivemos que repetir o processo, passando tudo para o segundo andar, conta.
Naldi diz que ele e seus amigos ficaram ilhados em Blumenau por uma semana, com mantimentos e água escassos. A única maneira de sairmos do prédio era à nado ou com canoas, para buscar alimentos em pontos mais altos da cidade. Devido ao racionamento, nós praticamente comíamos apenas uma vez por dia. Era uma cena chocante ver tudo coberto pela água e as pessoas sem saber o que fazer. A enchente de 1983 vai ficar gravada para sempre em minha memória.
Só que a história não acaba por aí. Depois de uma semana, voltamos a Pomerode, arrecadamos alguns mantimentos e voltamos para Blumenau, onde permanecemos por mais dois dias. Em alguns pontos, a água baita no peito, mas nós levávamos as coisas no braço, procurando ajudar quem mais precisava. Apesar de todo o sofrimento, sei que ajudamos de alguma maneira os desabrigados, finaliza.
A solidariedade do povo pomerodense ficou evidenciada em uma das fotos retratadas nesta reportagem, na qual veículos, inclusive do Exército Brasileiro, saíam de nossa cidade, com alimentos e roupas para os atingidos por esta tragédia que completa, este mês, 30 anos.
O que dizer de 1983? – O comentário da enchente pela visão de um acadêmico de jornalismo, André Luiz Bonomini – Jamais poderíamos nós, geração dos anos 1990, reclamar que nunca vimos tamanha destruição em Blumenau depois da catástrofe acontecida em 2008. Até ali foram várias pequenas cheias durante os anos que culminaram a tragédia de cinco anos atrás. Vimos sofrimento, famílias sem lar, sem entes queridos, estávamos assustados e por um momento os mais ligados na história se perguntavam: Será que foi assim mesmo em 1983, ou teria sido pior?
E aí que fica a pergunta que faço depois de 30 anos passados da maior enchente que Blumenau teve notícia neste século: O que nós, a tal geração Y pode dizer do que foi sofrido por nossa cidade em 1983?
Muitos vão me chamar de louco, dirão há, você não nasceu pra sentir o que foi, e tantas sandices mais. Mas não é preciso ir muito longe para tirar conclusões e se espantar com o que aconteceu naqueles meses de julho e agosto daquele ano. Provas do que foi aquilo tudo se encontram em todos os cantos da nossa vida. Pais, tios, avós, TV e rádio, uma visitinha ao Arquivo Histórico, internet, redes sociais… Não tem desculpa para não saber o que se viveu, o que se sofreu e o que se trabalhou naquele ano difícil para reerguer uma cidade praticamente debaixo de lama.
E outra pergunta, como o Vale não consegue esquecer tamanha tragédia, mesmo ainda se curando das cicatrizes de 2008?
Vamos por partes. 1983 já começara chovendo. Foram se seguindo algumas pequenas enchentes em meio a água que desabava. Julho não seria diferente, com tanta chuva no ar não tinha jeito de algo grande acontecer. E aconteceu. Por um mês praticamente os blumenauenses dividiam sua vida na cidade amada com água, lama e estragos, para não falar dos 70 que perderam suas vidas na tragédia.
Arrepia imaginar as imagens que as fotos e os poucos arquivos de TV disponíveis pelos meios de comunicação tinham para registrar o que acontecia em Blumenau naquele mês. A água tomava o prédio da recém-inaugurada prefeitura, as ruas como a XV, ponto comercial totalmente perdido embaixo de lama. Muito se perdeu nas empresas como a Teka, casas em bairros tradicionais ou sumiam na água, ou boiavam no rumo do rio. Era como uma guerra, em que a população não podia lutar contra o Itajaí-Açu.
Mas, o que não dá mesmo pra esquecer, felizmente, são as histórias de luta e coragem de muitos que deram o sangue embaixo das turvas águas para salvar vida, trazer conforto e estender o braço a quem precisa. Os hospitais fazendo o possível mesmo sem energia elétrica para salvar vidas e manter as que estavam internadas. Soldados do 23º Batalhão mostrando o significado do slogan do exército brasileiro – Braço Forte, Mão Amiga – indo a todos os lugares e se mobilizando numa verdadeira força-tarefa atrás do alívio. Abrigos, que se estendiam em escolas, igrejas, Clubes de Caça-e-Tiro, onde tantas famílias procuravam conforto e fuga das águas…
E a comunicação? Como acadêmico de jornalismo fica impossível não deixar de imaginar os esforços, tanto de jornalistas como o dos radioamadores, para tentar levar informações e coordenadas a todo o canto do Brasil. Os valentes profissionais de rádios e da TV Coligadas (RBS Blumenau em 1984) que faziam malabarismos na água para buscar as imagens do que acontecia em nossa região, colocando o pé na lama, voando e recorrendo as confiáveis bateras, tudo pela informação precisa e de caráter de socorro em uma cidade as escuras.
E os radioamadores, ah! Pessoas incrivelmente dispostas ao trabalho. Que transformaram simples shacks separados pela cidade numa incrível rede de solidariedade, transmitindo coordenadas e informações de canto a canto, seja da prefeitura ao 23ºBI, ou ao Ceasa, ou a Vila Itoupava. Onde estivessem, estavam em trabalho constante, escrevendo seus nomes como verdadeiras vozes de Blumenau.
Nomes como Tontini, Alda, Dalto, Boos, Nóbrega, Motta… E tantos outros cuja memória não ajuda nesta hora, estão grifados como grandes colaboradores em meio ao caos. As águas subiam, desciam, subiam, desciam… Só não saía a persistência do blumenauense em querer dizer em sua teimosia aceitável que Não! Eu vivo aqui e daqui não saio, e foi assim. Viria outra em 1984, mas uma enchente para um blumenauense, muitas vezes seria como um dia após o outro, pela tamanha vontade de vencer.
Concluindo todas estas coisas que vi e falei acerca de 1983, sem contar as que ainda não sei e que ainda muito quero saber, a resposta do que posso falar desta tragédia é que: A enchente de 1983 não foi um momento apenas de choro, tristeza, morte e desolação ao observar as águas caudalosas do Itajaí-Açu a cruzar a cidade. Muito, além disso, foi um verdadeiro teste de fogo a todo o blumenauense que, mesmo sem contar com os meios mais eficientes, brigou contra a corrente para dizer que não iria sair de sua querida cidade, arregaçou mangas e se pôs ao trabalho no socorro do próximo, na informação e na mensagem precisa. E ergueu com todo o custo a cidade que hoje vemos, e que ainda luta em quaisquer calamidades que lhe venha a ocorrer.
As lições aprendidas em 1983 (podem muitas ter se esquecido) serviram de regra para outras cheias, para 2008, e ainda podem servir para qualquer luta que Blumenau ainda tenha que lidar com o rio a sua volta. Creio que este comentário sobre a enchente não seja o mais correto e o mais próximo do que foi a calamidade de 30 anos atrás. Mas é o melhor que pude me aproximar, com meus 23 jovens anos, do que o blumenauense sente ao lembrar desses dias. Algo que o Vale jamais esquece, é verdade, mas que aprontou a região para qualquer contenda futura contra as forças da natureza, as únicas que o querem tirar a vontade de brigar pela sua terra.
Para finalizar, as frases de José Nóbrega que vale sempre lembrar: A enchente é assim: O rio destrói, o rio constrói. O rio sepulta, mas também edifica. O rio, água lodosa como o fogo, retempera a alma deste povo imbatível: o blumenauense.