Acessibilidade!
Eliminar barreiras, proporcionar mobilidade e participação em atividades é o objetivo da acessibilidade. No entanto, nem tão bonita como a teoria é a realidade vivida.
Eliminar barreiras, proporcionar mobilidade e participação em atividades é o objetivo da acessibilidade. No entanto, nem tão bonita como a teoria é a realidade vivida pelas pessoas que possuem alguma deficiência e precisam, diariamente, lutar e se adequar à falta de acessibilidade a qual são impostas.
Simone Weber é pomerodense, mas há dois anos vive em Leipzig, na Alemanha. Em entrevista ao Jornal de Pomerode, Simone contou que os problemas de acessibilidade são encontrados por todo o mundo, mas que muita coisa já foi feita. No entanto, o Brasil ainda peca nesse sentido. A dificuldade com acessibilidade é por todo o Brasil, algumas cidades mais e outras menos, mas é complicado, completa.
E quando lá chegou tomou algumas providências. Minha primeira providência ao chegar a Leipzig foi entrar em contato com uma equipe de esporte, faço atletismo uma vez por semana, treino tênis de mesa. Quando a temperatura está acima dos 17 graus, é hora de sair de handbike e andar pelos parques até o lago. Toda terça-feira percorremos aproximadamente 30km. No inverno, quando não está com muita neve, vamos a museus. Cadeira de rodas e neve não é a melhor combinação, conta.
Quando questionada sobre as principais diferenças entre os dois países, diversos tópicos são citados, mostrando que, infelizmente, o sonho do mundo igual para todos, ainda está longe de se tornar real. Entre os temas, transporte público municipal, acessibilidade no trânsito, as calçadas, banheiros acessíveis e setor da saúde.
No setor de turismo, ainda há muito o que fazer. Os sites de hotéis não disponibilizam informações a respeito dos banheiros, que é o maior problema. Uma simples cadeira de banho com rodas grandes, por favor, e a área do chuveiro sem degrau resolvem praticamente tudo. Abertura de portas, degraus em entrada de comércios, bares…. Não entendo o motivo de fazer portas tão estreitas, é uma economia burra. Tento entender como os hotéis no Brasil farão para receber as pessoas com deficiência durante a Copa, Olimpíadas e Paraolimpíadas. Um exemplo é Brasília, tente encontrar lá acomodação adequada para um grupo de cadeirantes, procure por uma van adaptada para transportar cadeirantes. Absurdo, é a capital do país! Uma coisa que vem me chamando a atenção, tanto aqui quanto aí, e a que devemos prestar mais a atenção é: Todos temos direitos e deveres! É inaceitável que ainda se permita construir ou reformar sem que haja acessibilidade, enaltece.
Para se respeitar mais o cadeirante, o caminho precisa ser iniciado na infância, quando pais educam filhos a respeitar o sinal vermelho, independente de vir ou não carro, ele próprio dando o exemplo. Por sinal, aqui se respeita e muito a opinião alheia, você pode andar como quiser, mas não atravesse a rua em sinal vermelho tendo uma criança presente, você será censurado imediatamente. A grande diferença está em oferecer transporte público eficiente e adaptado, ajudar as pessoas com deficiência a saírem de dentro de casa, vans adaptadas que os levem ao centro, calçadas e rebaixamentos condizentes, banheiros adaptados em pontos estratégicos na cidade, bares, lojas e restaurantes. Desta maneira as pessoas podem se socializar, e assim também haverá inclusão social de maneira mais efetiva. Sei que Pomerode conta com dois ônibus adaptados, mas como se chegar até o ônibus? Como as crianças com deficiência chegam ao colégio? Tem que existir um transporte digno que carregue cada um em segurança, afirma Simone.
As melhorias iniciaram na Alemanha há aproximadamente uns 25 anos. No entanto, ainda há o que melhorar, principalmente na região Leste do país, antiga República Democrática Alemã (DDR), de acordo com Simone. Mesmo aqui na Alemanha ainda são necessárias melhorias, com relação à oferta de moradias adaptadas e a locais de trabalho, por exemplo, explica.
Sempre haverá melhorias a serem realizadas, mas o respeito é fundamental em qualquer situação ou país. Aqui na Alemanha por vezes fico constrangida de tanta gentileza, as pessoas se desculpam mil vezes caso percebam que obstruíram minha passagem, ou a visibilidade. Certa vez caí na rua, por descuido meu, eu ainda estava caindo e já havia dois jovens ciclistas vindo me socorrer. No Brasil acho que não é muito diferente, todos sempre me trataram muito bem, percebo é que há falta de convívio entre as pessoas com e sem deficiência. As pessoas não sabem como se comportar. No comércio, já ocorreu de estar comigo uma amiga andante, procuro uma determinada peça de roupa para mim, e a atendente ao responder se dirige a minha amiga de pé: isto serve nela!… (eu). Ei…estou aqui, eu não ando, mas me comunico normalmente! Isto ocorre pela falta de convívio das pessoas com e sem deficiência, enaltece.
Além de situações como estas, outras tantas acontecem sem que, muitas vezes, sejam percebidas. Me sinto desrespeitada toda vez que quero ir ao banheiro e não consigo entrar pela porta; me sinto desrespeitada sempre que quero atravessar a rua e não encontro um rebaixamento; toda vez que quero estacionar o carro e não há uma vaga na cidade ou pior ainda, quando ela está ocupada por um carro sem permissão para estacionar ali, exalta Simone.
Para que estas e outras questões possam ser resolvidas, Simone enaltece que acessibilidade é também investimento. Os municípios que não investem em acessibilidade, de uma maneira geral, estão perdendo dinheiro, e muito! Investir em acessibilidade dá lucro, gera turismo, demonstra respeito pelo semelhante, é um direito adquirido, o direito de ir e vir! E a vida social não é luxo, é saúde, afirma.
A dificuldade existe e melhorias também precisam ser efetuadas, mas o que realmente precisa mudar é a ideia de que as pessoas com deficiência saem de casa sempre com acompanhante, o que não acontece, pois a cada dia mostram-se mais independentes. E isto vale para Brasil e em alguns casos também aqui na Alemanha. No Brasil, em especial, tem se que pensar melhor as cidades, dar mais valor aos Arquitetos e Urbanistas. Pensar nas gerações futuras e abrir as cidades para os pedestres, com melhor transporte público e menos carros, mais bicicletas, reitera.
As pessoas com deficiência necessitam de vida social tanto quanto ou até mais do que pessoas sem deficiência, mas precisam poder sair de dentro de casa. Se fala tanto em inclusão social, aqui na Alemanha e no Brasil, no mundo. Mas como isto é possível se as barreiras não diminuem? Viabilizar a prática esportiva, a ida à escola… por favor: sem ter que ser carregado no colo, vamos pensar as coisas de maneira digna, vans adaptadas seriam um ótimo meio. Sempre achei que Pomerode pode ser Cidade Modelo de Acessibilidade. A cidade mais alemã do Brasil, alemã também no quesito acessibilidade. A APODEF está aí, firme e forte seguindo em frente, quem sabe um bom começo seja a comunidade se mobilizar e cada um apoiando um pouco, se consegue uma van adaptada que possa fazer o transporte digno e seguro de seus atletas e associados, finaliza Simone.
Que a prática comece a ser tão ativa e praticada quanto a teoria e que, finalmente, a questão da inclusão social seja uma realidade e uma conquista efetiva para todos.
Principais diferenças entre os dois países:
Transporte público municipal eficiente – Trem e ônibus sempre adaptados. Em caso de necessidade de ajuda, há atendimento gratuito de acompanhante oferecido pelo sistema de transporte. É só ligar e agendar a ajuda. Como no meu caso, sempre que eu preciso, eles enviam duas pessoas que me buscam em casa e levam ao meu local de destino, o mesmo acontece para o retorno à casa. Outro meio de transporte disponibilizado é o de uma van adaptada que, mediante agendamento, nos busca em casa e leva para qualquer local da cidade. Este serviço é pago, o valor é o mesmo que se paga para uma passagem de trem. Para pessoas com deficiência e acompanhante o transporte público no município é gratuito. O mesmo acontece se viajar por toda a Alemanha usando o Trem Regional, que não são os trens rápidos e não percorrem longas distâncias, necessitando assim trocar de trem quando a viagem for mais longa. Neste caso, cada central de trem é avisada e em cada plataforma eles disponibilizam alguém que venha a ajudar no embarque e desembarque, assim como no carrego de malas, se houver.
Acessibilidade no trânsito – Tanto para atravessar as ruas, quanto para rodar por elas, há sempre muito respeito, os carros param. Por respeitarem os limites de velocidade, podem parar e esperar que se atravesse com segurança, são gentis. A preferência nas cidades não é do carro, e sim dos ciclistas e pedestres, incluindo aí cadeirantes. Os sinais de trânsito para carros, ciclistas e pedestres são respeitados, não se atravessa a rua se o sinal estiver vermelho, mesmo que não esteja vindo carro!
Calçadas – Em todas as calçadas há inclinação que facilita a travessia. Se você se aproxima da rua em uma faixa de segurança os carros já param, o mesmo acontece ao atravessar a rua em uma esquina, mesmo sem faixa os carros param à menor menção de travessia de pedestre.
As calçadas são padrão e primam pela segurança de pedestres. Mesmo em calçadas com mais de cem anos, num trabalho de restauração se procura retirar e assentar a pedra com todo cuidado.
Banheiros – Banheiros acessíveis para cadeirantes há por toda cidade. Existe uma chave nos banheiros adaptados da União Europeia. Caso se apresente a carteira de pessoa com deficiência, pode se solicitar essa chave, mediante o pagamento de 20 euros. Ela é válida em toda União Europeia.
Outros pontos – Por mapas e também pela internet se é informado dos locais acessíveis nas cidades.
No setor de saúde, as ambulâncias são preparadas para o transporte de cadeirantes.
As empresas de táxi oferecem serviço para pessoas na cadeira de rodas.