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Serra às escuras

Fomos esquecidos pelo poder público, constatou a moradora da Serra que liga Pomerode a Jaraguá, Cristina Volkmann, na manhã de 4 de fevereiro.

1 de junho de 2015

Fomos esquecidos pelo poder público constatou a moradora da serra que liga Pomerode a Jaraguá, Cristina Volkmann, na manhã de 4 de fevereiro. A região estava quente, muito quente. Não tenho certeza se quem vive lá já está acostumado com o calor e com o número elevado de insetos, sempre dispostos a atacar sangue novo. Andar a pé por ali é impossível. Apenas para locomover-me num pequeno trecho entre o número 5940 e a Estrada Fundos Butzke, tive que caminhar pela vala, me equilibrando pela diagonal. Tropeçando no mato que alcançava a vala, busquei me manter o máximo encostada ao morro para não correr o risco de ser mais uma vítima de atropelamento dos caminhões e carros que subiam em alta velocidade. Não se avista muita coisa de lá (além de mato), os problemas ocorrem aos montes e os moradores se queixam do descaso que sofrem.
A serra é conhecida por seus trechos estreitos, curvas sinuosas, falta de acostamento e principalmente, pela falta de segurança dos que trafegam pelo trecho. A região, que já foi palco de acidentes fatais, pode ser considerada um problema não só aos que passam por ali, mas principalmente aos vivem nas casas à beira da estrada.
Entrevistamos quatro moradores da serra e todos concordaram que um dos maiores problemas nos últimos anos é a falta de luz. Outras questões também preocupam, mas a pior de todas é a falta de luz. Pelo menos uma vez por semana, a região fica sem energia e os prejuízos, além do desconforto de ficar no escuro, são percebidos nos bolsos dos moradores. Eletrodomésticos queimam e a comida estraga. A região também não recebe abastecimento de água pelo Samae. O abastecimento vem de poços artesianos e a sucção é feita por meio de bombas elétricas (que precisam de energia para funcionar). O carteiro não passa por lá, tampouco as linhas de telefones fixos. Quem vive lá paga o preço de viver pela própria sorte. Os moradores reclamam, sentem-se ignorados, abandonados pelo poder público e são obrigados a conviverem com problemas sem solução.
Cheguei a casa de Raimundo Volkmann de 54 anos a pé. Ele reside à Estrada Fundos Butzke e descer àquela rua foi um verdadeiro problema. A descida íngreme faz o sapato deslizar e o risco de um tombo é iminente. Raimundo e a filha Cristina moram no mesmo terreno, em casas diferentes. Eles contam que ali falta tudo. Explicam que sempre que a luz acaba, a Celesc é acionada, mas o descaso é grande. Ele dizem que é preciso esperar, entretanto nunca vem ninguém, tem um funcionário que já caçoou da minha mãe e o 0800 nem atende mais lamenta Cristina. A luz acaba pelo menos uma vez por semana e o tempo para voltar varia entre uma e duas horas, mas já houve ocasiões que demorou mais de vinte e seis horas. Os moradores dizem que já tiveram prejuízos de quase quinhentos reais com eletroeletrônicos queimados. Foram uma televisão que custou duzentos reais para consertar e o motor da bomba dagua, mais duzentos. Isso sem contar as carnes da geladeira que estragam e vão para o lixo. A Celesc não ressarce o inconveniente, mas se a conta não for paga o corte da luz é certo.
O sistema de energia é tão fraco que antes do fechamento desta edição (às 15 horas da tarde), a mãe de Cristina, Ruth Volkmann, ainda entrou em contato com nossa redação por telefone, para avisar que a luz havia acabado novamente. Estamos novamente sem luz. Há duas horas já. Ninguém nos atende. Nesse calor não temos nem ventilador disse desanimada, esperançosa por uma solução.
O mais curioso é a conta que nunca atrasa. O correio não chega lá, mas a conta chega. E não é baixa. A família de Raimundo não consome muita eletricidade, não tem nem ar condicionado na casa. Os gastos vem principalmente de uma geladeira, da televisão e do acionamento do motor da bomba. Mas Raimundo mostra uma conta no valor quase cento e cinquenta reais. Tem meses que a conta vem quarenta reais, no outro setenta, não há uma lógica, não consumimos tanta energia conta Raimundo.
Outra reclamação é a rodovia em si. A falta de sinalização combinada às condições precárias da pista, com perímetro tão apertado (que serviria melhor como ciclovia) e abuso de velocidade dos condutores gera acidentes aos montes. Cristina diz que já presenciou oito mortes. Atravessar a rua é outra novela, no trecho em frente a escola Almirante Barroso, os alunos fazem parte de um projeto chamado Aluno Guia. Trata-se de uma breve paralisação da pista para que as crianças atravessem em segurança. Mas até essa iniciativa tem seus riscos. Cristina conta que fez parte do projeto na época em que estudava e um dia um ônibus, mesmo com uma cancela bloqueando a rua, não parou e quase atropelou todo mundo.
Os pontos de ônibus são escassos, para esperar o transporte, os usuários se amontoam em torno da pista. Não há cobertura para proteger do sol e nem bancos. A gente mal cabe no ponto, tenho uma conhecida que está grávida e ela não tem onde sentar afirma outra moradora da serra, Alice Edmann. Residente da região há 16 anos, ela se queixa que sempre depende do marido ou de alguém que tenha carro, quando vai sair, pois o transporte público é bastante restrito e não tem carteira de motorista. Entrar e sair também é um problema, a casa da moradora fica à beira da estrada ela teme por um acidente. Já presenciou alguns (a maioria na curva) e quase foi atropelada uma vez. O filho de 12 anos mal pode sair para ir na casa de algum amigo. Gostaria de poder passear, andar de bicicleta, mas é obrigado a ficar em casa. Presos na própria residência por falta de calçadas ou acostamentos (já solicitou, mas também nunca teve retorno). Alice acredita que nada de mal nunca aconteceu a sua família, porque conhece os perigos da via e toma muito cuidado. Não considera a região segura. Decidiu arrumar dois cachorros após um assalto. A mãe de família também reclama da constante falta de energia. A mais recente havia sido domingo, 2 de fevereiro.
Já o morador Ingo Erdmann de 68 anos, conta que as constantes quedas de energia prejudicam a nora, que é costureira e acaba perdendo trabalho. Atrapalha também o conforto de poder usufruir do ar condicionado, nessas épocas de calor excessivo. E não precisa nem chover para a luz acabar. Às vezes acontece por batidas em postes, mas em outras o aposentado acredita ser por causa do transformador, que não dá conta de tanta demanda. Além de viver no escuro dentro de casa, se queixa da falta de iluminação pública. Ele mostra um poste em frente à sua casa Está queimado há uma semana afirma.

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